quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O QUE O ESTADO É

Do livro A anatomia do estado - Murray N. Rothbard
Tradução de Tiago Chabert.
São Paulo : Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2012.


O ser  humano  nasce  indefeso  e,  como  tal,  precisa
utilizar a sua mente para aprender a como obter os re-
cursos que a natureza lhe fornece e a como transformá-
-los (por exemplo, através do investimento em “capi-
tal”)  em  objeto  e  em  locais  de  modo  que  possam  ser
utilizados para a satisfação das suas necessidades e para
a melhoria do seu padrão de vida.   A única forma por
meio da qual o ser humano pode fazer isto é através do
uso da sua mente e da sua energia para transformar os
recursos  (“produção”)  e  da  troca  destes  produtos  por
produtos criados pelos outros.   o ser humano desco-
briu que, por meio do processo de troca mútua e volun-
tária (comércio), a produtividade — e, logo, o padrão
de vida de todos os participantes desta troca — pode
aumentar significativamente.  Portanto, o único cami-
nho “natural” para o ser humano sobreviver e alcançar
a prosperidade é utilizando sua mente e energia para
se  envolver  no  processo  de produção-e-troca .   ele  rea-
liza isto, primeiro, encontrando recursos naturais, se-
gundo, transformando-os (“misturando seu trabalho a
eles”, tal como disse John Locke), fazendo deles a sua
propriedade  individual, e depois trocando esta proprie-
dade pela propriedade de outros que foi obtida de for-
ma semelhante.

O caminho social ditado pelas exigências da nature-
za humana, portanto, é o caminho dos “direitos de pro-
priedade” e do “livre mercado” de doações ou trocas de
tais direitos.   Ao longo deste caminho, o ser humano
aprendeu a evitar os métodos “selvagens” da luta pe-
los recursos escassos — de forma que A  pudesse apenas
adquiri-los à custa de B —, e, ao invés disso, aprendeu
a multiplicar imensamente esses recursos por meio do
processo harmonioso e pacífico da produção e troca.

O  grande  sociólogo  alemão  Franz  oppenheimer
apontou para o fato de que existem duas formas mu-
tuamente exclusivas de adquirir riqueza: a primeira, a
forma referida acima, de produção e troca, ele chamou
de “meio econômico”.   A outra forma é mais simples,
na medida em que não requer produtividade; é a forma
em que se confisca os bens e serviços do outro através
do uso da força e da violência.  É o método do confisco
unilateral, do roubo da propriedade dos outros.  A este
método oppenheimer rotulou de “o meio político” de
aquisição de riqueza.  deve estar claro que o uso pa-
cífico da razão e da energia na produção é o caminho
“natural” para o homem: são os meios para a sua sobre-
vivência e prosperidade nesta terra.  deve estar igual-
mente claro que o meio coercivo, explorador, é contrá-
rio à lei natural; é parasítico, pois em vez de adicionar
à produção, apenas subtrai.

O  “meio  político”  desvia  a  produção  para  um
indivíduo  —  ou  grupo  de  indivíduos  —  parasita  e
destrutivo;  e  este  desvio  não  só  subtrai  da  quanti-
dade produzida como também reduz o incentivo do
produtor para produzir além de sua própria subsis-
tência.  no longo prazo, o ladrão destrói a sua pró-
pria subsistência ao diminuir ou eliminar a fonte do
seu próprio suprimento.  mas não só isso: mesmo no
curto prazo, o predador age contrariamente à sua na-
tureza como ser humano.

Estamos  agora  em  uma  posição  que  nos  permite
responder mais satisfatoriamente à questão: o que é o
estado? o estado, nas palavras de  Oppenheimer, é “a
organização dos meios políticos”; é a sistematização
do processo predatório sobre um determinado terri-
tório .   Pois o crime é, no máximo, esporádico e in-
certo; já o parasitismo é efêmero e a coerciva ligação
parasítica pode ser cortada a qualquer momento por
meio da resistência das vítimas.  o estado, no entanto,
providencia um meio legal, ordeiro e sistemático para
a depredação da propriedade privada; ele torna certa,
segura e relativamente “pacífica” a vida da casta para-
sita na sociedade .

Dado que a produção tem sempre de preceder qual-
quer  depredação,  conclui-se  que  o  livre  mercado  é
anterior ao estado.  o estado nunca foi criado por um
“contrato social”; ele sempre nasceu da conquista e da
exploração.  o paradigma clássico é aquele de uma tri-
bo conquistadora que resolveu fazer uma pausa no seu
método — testado e aprovado pelo tempo — de pilha-
gem e assassinato das tribos conquistadas ao perceber
que a duração do saque seria mais longa e segura — e a
situação mais agradável — se ela permitisse que a tribo
conquistada continuasse vivendo e produzindo, com a
única condição de que os conquistadores agora assumi-
riam a condição de governantes, exigindo um tributo
anual constante .

Um dos métodos de nascimento de um estado pode
ser ilustrado como se segue: nas colinas da “Ruritânia
do sul”, um grupo de bandidos organiza-se de modo a
obter o controle físico de um determinado território.
Cumprida  a  missão,  o  chefe  dos  bandidos  autopro-
clama-se  “Rei  do  estado  soberano  e  independente  da
Ruritânia do  sul”.   e se ele e os seus homens tiverem
a força para manter este domínio durante o tempo su-
ficiente, pasmem!, um novo estado acabou de se juntar
à “família das nações”, e aqueles que antes eram meros
líderes de bandidos acabaram se transformando na no-
breza legítima do reino.



1  Franz oppenheimer, The State (new York: Vanguard Press, 1926) p. 24-27:
Existem duas formas fundamentalmente opostas através das
quais o homem, em necessidade, é impelido a obter os meios
necessários para a satisfação dos seus desejos. são elas o tra-
balho e o furto, o próprio trabalho e a apropriação forçosa do
trabalho dos outros. eu proponho, na discussão que se segue,
chamar ao trabalho próprio e à equivalente troca do trabalho
próprio pelo trabalho dos outros, de “meio econômico” para
a satisfação das necessidades enquanto a apropriação unila-
teral do trabalho dos outros será chamada de “meio políti-
co”. o estado é a organização dos meios políticos. Como tal,
nenhum estado pode existir enquanto os meios econômicos
não criaram um definido número de objetos para a satisfação
das necessidades, objetos que são passíveis de ser levados ou
apropriados por roubo bélico.
2  Albert Jay nock escreve de forma clara que:
O estado reivindica e exercita o monopólio do crime. Ele pro-
íbe o homicídio privado mas ele mesmo organiza o assassí-
nio numa escala colossal. ele pune o roubo privado mas ele
próprio deita as suas mãos sem escrúpulos a tudo o que ele
quer, seja propriedade dos seus cidadãos seja de estrangeiros.
Nock,  On  Doing  the  Right  Thing,  and  other  essays  (new  York:  Harper  and
Bros., 1929), p.143
3  oppenheimer, The State, p.15:
O que é, então, o estado como conceito sociológico? o esta-
do, na sua verdadeira gênese, é uma instituição social forçada
por um grupo de homens vitoriosos sobre um grupo vencido,
com o propósito singular de domínio do grupo vencido pelo
grupo de homens que os venceram, assegurando-se contra a
revolta interna e de ataques externos. Teleologicamente, este
domínio não possuía qualquer outro propósito senão o da ex-
ploração econômica dos vencidos pelos vencedores.
E de Jouvenel escreveu: “o estado é na sua essência o resultado dos sucessos
alcançados  por  um  grupo  de  bandidos  que  se  impôs  a  uma  sociedade  gentil
e pacífica”. Bertrand de Jouvenel,  On Power (new York: Viking Press, 1949)
p.100-101.


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