Hans-Hermann Hoppe
Uma revolução de baixo
para cima
Por fim vamos à explicação detalhada do significado desta
estratégia revolucionária de baixo para cima. Para isto, deixe-me
voltar aos meus primeiros comentários sobre o uso defensivo da
democracia, isto é, o uso dos meios democráticos para fins
libertários não-democráticos, pró propriedade privada.
Dois insights preliminares já foram estabelecidos aqui.
Primeiro, da impossibilidade de uma estratégia de
cima para baixo, segue-se que não se deve gastar muita (ou
nenhuma) energia, tempo e dinheiro em disputas políticas
nacionais, como eleições presidenciais. E, particularmente,
também nem em disputas pelo governo central, como por
exemplo, menos esforços em disputas pelo senado do que
pela câmara dos deputados.
Segundo, do insight sobre o papel dos intelectuais na
preservação do atual sistema, da atual máfia de extorsão,
segue-se que igualmente não se deve gastar muita (ou
nenhuma) energia, tempo ou dinheiro tentando reformar a
educação e o meio acadêmico a partir de sua própria estrutura.
Patrocinar cadeiras de livre empresa ou propriedade
privada no sistema universitário estabelecido, por exemplo,
só ajuda a emprestar legitimidade à própria ideia que se
quer combater. As verbas e fontes de financiamento das
instituições oficiais de educação e pesquisa devem ser
sistematicamente retiradas e estancadas. E para que isso
seja feito, todo o apoio de trabalho intelectual, como uma
parte essencial da tarefa geral que temos pela frente, deveria
logicamente ser dado a instituições e centros determinados
a fazer precisamente isto.

As razões para estes dois conselhos são claras: Nem a
população como um todo, e particularmente nem todos os
educadores e intelectuais, são completamente homogêneos
ideologicamente. E mesmo que seja impossível conquistar
uma maioria que apoie uma plataforma decididamente
antidemocrática em uma escala nacional, parece não
haver uma dificuldade insuperável para se conquistar
esta maioria em distritos suficientemente pequenos,
e para funções locais e regionais dentro da estrutura
governamental democrática geral. Na verdade, parece não
ser nada fora da realidade esperar que essa maioria exista
em milhares de localidades. Ou seja, localidades dispersas
por todo o país, mas não dispersas uniformemente.
Igualmente, mesmo que a classe intelectual deva ser de
modo geral considerada como inimiga natural da justiça e
da proteção, existem em diversas localidades intelectuais
anti-intelectuais isolados, e como o Instituto Mises prova,
é totalmente possível reunir estes sujeitos isolados em
torno de um centro intelectual, e dar a eles unidade e
força, e uma audiência nacional ou até internacional.
Mas então o que fazer? Todo o resto desprendese quase que automaticamente do objetivo supremo,
que deve ser mantido sempre em mente, em todas as
atividades desenvolvidas: a restauração de baixo para
cima da propriedade privada e do direito de proteção a
propriedade; o direito de autodefesa, de expulsar ou
aceitar, e de liberdade contratual. E a resposta pode ser
dividida em duas partes.
Primeiro, o que fazer nestes pequenos distritos, onde
um candidato pró-propriedade privada e personalidade
antimajoritária possa vencer. E segundo, como lidar com
os níveis mais elevados do governo, e, especialmente, com
o governo federal centralizado. Primeiramente, como um
passo inicial, e me refiro agora a o que deveria ser feito em nível local, o primeiro alicerce central da plataforma
deveria ser: deve-se tentar limitar o direito de voto sobre
impostos locais, particularmente sobre impostos sobre
propriedades e regulamentações, aos donos de imóveis
e propriedades. Somente donos de propriedades devem
poder votar, e seus votos não devem ter pesos iguais, e sim
de acordo com o valor do patrimônio líquido possuído,
e o total de impostos pago. Ou seja, parecido com o que
Lew Rockwell explicou que tem acontecido em algumas
partes da Califórnia.
Além disso, todos os funcionários públicos – professores,
juízes, policiais – e todos os recebedores de ajuda social
do estado devem ser excluídos de votações que tratem de
impostos locais e regulamentações locais. Estas pessoas
estão sendo pagas pelos impostos e não deveriam poder
dizer nada a respeito do valor dos impostos. Logicamente
que com esta plataforma não se consegue ganhar em todo
lugar; você não consegue vencer na capital do país com
uma plataforma como esta, mas eu arriscaria dizer que em
muitas localidades isto poderia facilmente acontecer. As
localidades têm que ser pequenas o suficiente e têm que
ter um bom número de pessoas decentes.
Consequentemente, os impostos e taxas locais, bem
como a arrecadação fiscal, iriam inevitavelmente diminuir.
O valor das propriedades e a maioria dos rendimentos
locais iriam aumentar enquanto que o número de
funcionários públicos e seus salários iriam cair.
Neste
momento, e este é o passo mais decisivo, o seguinte deve
ser feito – e sempre mantenha em mente que estou falando
sobre distritos territoriais muito pequenos, como vilas.
Nesta crise de financiamento do governo, que surge
assim que o direito de votar é tirado da turba, um modo
de sair desta crise seria a privatização de todos os ativos
Uma revolução de baixo para cima.
Um inventário de todos os prédios públicos,
e em um nível local não são tantos assim – escolas,
corpo de bombeiros, delegacia de polícia, tribunais, ruas
e assim por diante – e então ações ou títulos parciais
de propriedade deveriam ser distribuídos aos donos
de propriedade privada locais de acordo com o total de
impostos – impostos sobre propriedade – que estas pessoas
pagaram durante suas vidas. Afinal, é deles, eles pagaram
por estas coisas.
As ações deveriam ser livremente negociáveis,
vendidas e compradas, e com isto este governo local seria
essencialmente abolido. Se os níveis mais elevados do
governo deixassem de existir, esta vila ou cidade seria
agora um território livre ou libertado. O que iria acontecer
com a educação e, mais importante, o que iria acontecer
com a proteção da propriedade e a justiça?
Quando se trata de localidades pequenas, podemos ter
tanta certeza, ou até mais certeza de que poderíamos ter
tido 100 anos atrás sobre o que teria acontecido se o rei
abdicasse, de que o que iria acontecer seria praticamente
isto: todos os recursos materiais que antes eram destinados
a estas funções – escolas, delegacias de polícia, tribunais –
ainda existiriam, e do mesmo modo existiriam os recursos
humanos. A única diferença é que eles agora pertenceriam
a donos privados, ou, no caso de funcionários públicos,
estariam temporariamente desempregados. Levando-se
em conta a realista hipótese de que continuaria existindo
uma demanda local por educação e proteção e justiça, as
escolas, delegacias e tribunais ainda seriam usados para os
mesmos propósitos.
E muitos ex-professores, ex-policiais
e ex-juízes seriam recontratados ou reassumiriam suas
antigas ocupações por conta própria como indivíduos
autônomos, a menos que eles fossem empregados pela
elite ou por “figurões” locais que seriam proprietários dessas coisas, os quais seriam todos figuras públicas
conhecidas. Ou como iniciativas em busca de lucro, ou
como, e o que parece ser mais provável, uma mistura de
organização beneficente e econômica. “Figurões” locais
frequentemente fornecem bens públicos de seus próprios
bolsos; e eles obviamente têm o maior dos interesses na
preservação da justiça e da paz local.
E é bastante simples ver isso funcionar para escolas e
policiais, mas e quanto a juízes e a justiça?
Lembre-se que
a raiz de todos os males é a monopolização compulsória
da justiça, que é uma pessoa dizer o que é certo. Assim
sendo, juízes deveriam ser financiados livremente, e a
livre entrada na profissão de juiz deveria ser assegurada.
Juízes não seriam eleitos através de votos, mas escolhidos
pela demanda efetiva de pessoas em busca de justiça.
Também não se esqueça que nas localidades pequenas que
estamos considerando, falamos verdadeiramente sobre
uma demanda por apenas um ou bem poucos juízes. Se
este ou estes juízes seriam empregados por uma associação
privada de justiça ou uma companhia com acionistas,
ou se seriam indivíduos autônomos que alugariam estas
instalações ou escritórios, o que deveria estar claro é
que somente um punhado de pessoas locais, e somente
personalidades locais respeitadas e muito conhecidas –
isto é, membros da elite natural local – teriam alguma
chance de serem escolhidas como juízes da paz local.
Somente como membros da elite natural suas decisões
possuiriam alguma autoridade e se tornariam executáveis.
E se eles viessem à baila com julgamentos que fossem
considerados ridículos, eles seriam imediatamente
substituídos por autoridades locais que fossem mais
respeitáveis.
Se prosseguirmos neste sentido no nível
local, logicamente não se poderia evitar que se entrasse em
conflito direto com o nível de poder governamental mais
Uma revolução de baixo para cima elevado, especialmente o federal. Como lidar com este
problema? Os federais não iriam simplesmente destruir
qualquer tentativa destas?
Eles certamente iriam querer, mas se eles realmente
podem ou não fazê-lo é uma questão completamente
diferente, e para perceber isto basta perceber que os
membros do aparato governamental sempre representam,
mesmo sob condições democráticas, meramente uma
minúscula porção da população total.
E ainda menor é a
porção de funcionários públicos do governo central.
Isto significa que um governo central não pode executar
sua determinação legislativa, ou lei pervertida, sobre
toda a população a menos que ele encontre cooperação e
apoio predominantes locais ao tentar. Isto fica óbvio se
imaginarmos um grande número de cidades ou vilas livres
como descrevi anteriormente. É praticamente impossível,
considerando o potencial humano e de conhecimento,
bem como de um ponto de vista de relações públicas,
dominar milhares de localidades vastamente dispersas em
um território e impor o poder federal direto sobre elas.
Sem imposição local, através da complacência das
autoridades locais, as determinações do governo central
não são muito mais do que palavras ao vento.
Todavia, este
apoio e cooperação locais são exatamente o que precisa estar
faltando. Sem dúvida, enquanto o número de comunidades
liberadas ainda for pequeno, o assunto parece ser um tanto
quanto perigoso. No entanto, mesmo durante esta fase
inicial da luta pela libertação, podemos ficar bem confiantes.
Seria aconselhável durante esta fase evitar confrontos
diretos com o governo central e não condenar publicamente
sua autoridade ou nem mesmo renunciar solenemente
ao reino.
Preferencialmente, seria aconselhável praticarum a política de não cooperação e resistência passiva.
Simplesmente para-se de ajudar na execução de toda e
qualquer lei federal. Pode-se assumir a seguinte atitude:
“Estas são as suas regras, e você que as imponha. Não
posso te impedir, mas também não vou te ajudar, pois meu
único compromisso é com meu eleitorado local”.
Se aplicado com consistência, com nenhuma cooperação,
nenhuma ajuda em nenhum nível, o poder do governo
central diminuiria drasticamente ou até evaporaria. E
levando em consideração a opinião pública geral, seria
extremamente improvável que o governo federal ousasse
ocupar um território em que os habitantes não fizessem
nada além de tentar cuidar da própria vida.
O caso Waco,
um pequeno grupo de lunáticos no Texas, é uma coisa. Mas
ocupar, ou exterminar um grupo consideravelmente grande
de cidadãos normais, educados e honrados é outra coisa
completamente diferente, e bem mais difícil.
Uma vez que o número de territórios implicitamente
separados atingisse uma massa crítica – e cada ação
bem sucedida em uma pequena localidade promoveria e
alimentaria a próxima – o movimento seria inevitavelmente
mais radicalizado em um movimento de municipalização
espalhado por toda a nação, com políticas locais
explicitamente de secessão e pública e insolentemente
demonstrando desobediência à autoridade federal. E então, será em uma situação como esta – quando o
governo central for obrigado a abdicar de seu monopólio
da violência e da tomada suprema de decisões judiciais,
e quando a relação entre as autoridades locais (em
ressurgimento) e as autoridades centrais (prestes a
perder seus poderes) puderem ser colocadas em um nível
puramente contratual – que recuperaremos o poder de
defender nossa própria propriedade novamente.
[Palestra dada na conferência “A falência da política americana”,
realizada pelo Instituto Mises em Newport Beach, Califórnia; dias 24 e 25 janeiro de 1997.]
Título original em inglês
What Must Be Bone
Título
O que deve ser feito
Autor
Hans-Hermann Hoppe
Esta obra foi editada por:
Instituto Ludwig Von Mises Brasil
Rua Iguatemi, 448, conj. 405 – Itaim Bibi
São Paulo – SP
Tel: (11) 3704-3782
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
ISBN: 978-85-8119-069-3
1ª Edição
Tradução
Fernando Fiori Chiocca
Revisão
Tatiana Villas Boas Gabbi
Capa
Neuen Design
Imagem da Capa
Solovyova Lyudmyla /Shutterstock
Sky Designs / Shutterstock
HAKKI ARSLAN / Shutterstock
Projeto gráfico
Estúdio Zebra
Participe de nossos grupos de estudo e reuniões online ou presenciais, entre em contato pelo WhatsApp 79 988335718, para participar das reuniões, cursos e receber livros como este gratuitamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário