quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ALQUIMIA DO BUDA (parte 1)

– Por Frater I.L.I.V.

Quando alguns buscadores foram para o oriente e voltaram criando escolas iniciáticas, alguns trataram da arte da alquimia. Haviam distintas alquimias, de acordo com o que eles encontraram lá e de suas vivências e compreensões diferentes. Essas vivências provocaram uma mudança tão marcante no modo de ver e de viver dessas pessoas que as transformou completamente e, além disso, fizeram surgir novas doutrinas, ciências, teorias, escolas, filosofias... Um exemplo muito conhecido disso é o movimento rosicruciano que une a sabedoria iniciática do oriente e do ocidente. E dessas ainda surgiram muitas derivações no ocidente. Embora todas as origens diferentes jamais tenham sido explicitamente esclarecidas ou sequer citadas, sabemos hoje que tais artes faziam parte da cultura de várias tradições antigas do oriente, houvesse ou não contato entre elas.
Com o passar do tempo surgiram algumas interpretações das formulações mais secretas dos alquimistas, podemos dizer que elas gravitam entre dois tipos radicais de interpretação dos segredos alquímicos, um tipo materialista ou fisiologista que fala de transformações físicas, energias, construção de corpos, etc.; outra que fala de transformações psicológicas, realizações mentais, imateriais, etc.. Mas há um meio termo. O sincero buscador que não se contentar com o ‘ouvir dizer’ deve buscar as fontes originais de onde esses ditos “mistérios” foram extraídos. Assim estará mais próximo de uma interpretação real do que os novos comentadores e praticantes das derivações atuais.
Existem evidências de várias dessas origens ligadas a povos, escolas, religiões, ritos e textos orientais, considerados por aqueles buscadores muitas vezes como sagrados e secretos. Podemos falar de origens chinesas, árabes, persas, entre outros locais; ou, conforme suas tradições fontes: budistas, hindus, taoístas, zostrianas, entre outras. Aqui apresentamos uma vertente que é de nosso interesse principal, em textos originais, como está no cânone pali registrado como um discurso do Buda.
Este primeiro texto nos dá já um bom início para nossa análise do budismo como uma raiz do que foi colecionado depois sob o termo geral de alquimia ou arte alquímica ou arte real, entre outros. Isto seja pelo uso de termos em comum ou por sua clara relação com tema em seus aspectos mais profundamente psicológicos representados pelos mesmos símbolos conhecidos da alquimia, o que aos olhos de qualquer um, mesmo que não seja estudioso ou especialista, permite classificar o texto como um postulado que notoriamente podemos relacionar a uma vertente da alquimia espiritual e seus resultados. O que deve impressionar a todo pesquisador é o seu aspecto prático, claro e direto, que se corretamente entendido e praticado com certeza levará, como que por um milagre, à “transmutação dos metais vis em nobres”, isto é, aqui, alcançar a purificação e o elevado grau de concentração na meditação e seus resultados aqui descritos, mais a visão correta, o despertar e a sabedoria decorrentes das experiências proporcionadas e dessa clareza da consciência.

Anguttara Nikkaya III.100
Parisudhovaka Sutta
Purificação
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“Bhikkhus, misturado com as pepitas de ouro há impurezas grosseiras tais como a terra e a areia, cascalho e brita. Então, o ourives ou o seu aprendiz primeiro coloca o ouro numa peneira e o lava, enxagua e limpa completamente. Tendo feito isso ainda permanecem misturadas com o ouro impurezas médias tais como brita fina e areia grossa. Então, o ourives ou o seu aprendiz novamente lava e enxagua o ouro. Tendo feito isso ainda permanecem misturadas com o ouro impurezas minúsculas, tais como areia fina e pó negro. Então, o ourives ou seu aprendiz repete a lavagem e depois apenas restam as pepitas de ouro.
“Ele então coloca o ouro num cadinho, derrete e funde o ouro. Mas ele ainda não derrama o cadinho pois as escórias ainda não foram completamente removidas e devido a isso o ouro nem é maleável, nem manuseável e tampouco luminoso, mas quebradiço e sem as condições apropriadas para ser trabalhado. Mas haverá um momento no qual o ourives ou o seu aprendiz repetindo o derretimento e fundição do ouro remove completamente as escórias. O ouro agora estará maleável, manuseável e luminoso, e com as condições apropriadas para ser trabalhado. Qualquer ornamento que o ourives queira fazer, quer seja uma diadema, brincos, um colar ou uma corrente, o ouro poderá agora ser usado para esse fim.
“De modo semelhante, bhikkhus, ocorre com um bhikkhu dedicado ao treinamento da mente superior: há nele impurezas grosseiras, isto é, conduta imprópria com o corpo, conduta imprópria com a linguagem e conduta imprópria com a mente. Essa conduta é abandonada, dissipada, eliminada e abolida por um bhikkhu que é ardente e capaz.
“Tendo abandonado isso, ainda há impurezas médias apegadas a ele, isto é, pensamentos de sensualidade, pensamentos de má vontade, pensamentos de crueldade. Esses pensamentos são abandonados, dissipados, eliminados e abolidos por um bhikkhu que é ardente e capaz. [1]
“Tendo abandonado isso, ainda há impurezas minúsculas apegadas a ele, isto é, pensamentos sobre a sua família e parentes, a sua terra natal e a sua reputação. Esses pensamentos são abandonados, dissipados, eliminados e abolidos por um bhikkhu que é ardente e capaz.
“Tendo abandonado isso, permanecem os pensamentos sobre o dhamma. [2] A concentração não é ainda pacífica e sublime, a completa tranqüilidade não foi alcançada, nem a completa unificação da mente foi alcançada; a concentração é mantida através da supressão laboriosa das contaminações.
“Mas haverá um momento no qual a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Essa concentração é calma e refinada, alcançando a completa tranqüilidade e realizando a unificação mental; essa concentração não é mantida através da supressão laboriosa das contaminações.
Então, ele dirige a sua mente para qualquer estado que possa ser compreendido através do conhecimento direto, ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.[ 3]
Se ele desejar: “Que eu exerça os vários tipos de poderes supra-humanos: tendo sido um, me torne vários; tendo sido vários, me torne um; apareça e desapareça; cruze sem nenhum problema uma parede, um cercado, uma montanha ou através do espaço; mergulhe e saia da terra como se fosse água; caminhe sobre a água sem afundar como se fosse terra; sentado de pernas cruzadas cruze o espaço como se fosse um pássaro; com a minha mão toque e acaricie a lua e o sol tão forte e poderoso; exerça poderes corporais até mesmo nos distantes mundos de Brahma,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
Se ele desejar: “Com o elemento do ouvido divino, que é purificado e ultrapassa o humano, que eu ouça ambos tipos de sons, os divinos e os humanos, aqueles distantes bem como os próximos,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
Se ele desejar: “Que eu compreenda as mentes de outros seres, de outras pessoas, abarcando-as com a minha própria mente. Ele compreende uma mente afetada pelo desejo como afetada pelo desejo e uma mente não afetada pelo desejo como não afetada pelo desejo; Ele compreende uma mente afetada pela raiva como afetada pela raiva e uma mente não afetada pela raiva como não afetada pela raiva; Ele compreende uma mente afetada pela delusão como afetada pela delusão e uma mente não afetada pela delusão como não afetada pela delusão; Ele compreende uma mente contraída como contraída e uma mente distraída como distraída; Ele compreende uma mente transcendente como transcendente e uma mente não transcendente como não transcendente; Ele compreende uma mente superável como superável e uma mente não superável como não superável; Ele compreende uma mente concentrada como concentrada e uma mente não concentrada como não concentrada; Ele compreende uma mente libertada como libertada e uma mente não libertada como não libertada,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
Se ele desejar: “Que eu me recorde das suas muitas vidas passadas, isto é, um nascimento, dois nascimentos, três nascimentos, quatro, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta, cem, mil, cem mil, muitos ciclos cósmicos de contração, muitos ciclos cósmicos de expansão, muitos ciclos cósmicos de contração e expansão, ‘Lá eu tinha tal nome, pertencia a tal clã, tinha tal aparência. Assim era o meu alimento, assim era a minha experiência de prazer e dor, assim foi o fim da minha vida. Falecendo daquele estado, eu ressurgi ali. Ali eu também tinha tal nome, pertencia a tal clã, tinha tal aparência. Assim era o meu alimento, assim era a minha experiência de prazer e dor, assim foi o fim da minha vida. Falecendo daquele estado, eu ressurgi aqui.’ Assim ele se recorda das suas muitas vidas passadas nos seus modos e detalhes,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
Se ele desejar: “Que eu, por meio do olho divino, que é purificado e ultrapassa o humano, veja seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados. Ele compreende como os seres prosseguem de acordo com as suas ações desta forma: ‘Esses seres – dotados de má conduta com o corpo, linguagem e mente, que insultam os nobres, com o entendimento incorreto e realizando ações sob a influência do entendimento incorreto – com a dissolução do corpo, após a morte, renasceram no plano de privação, um destino ruim, os planos inferiores, no inferno. Porém estes seres - dotados de boa conduta com o corpo, linguagem e mente, que não insultam os nobres, com o entendimento correto e realizando ações sob a influência do entendimento correto – com a dissolução do corpo, após a morte, renasceram num destino feliz, no paraíso.’ Dessa forma - por meio do olho divino, que é purificado e ultrapassa o humano, ele vê seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados, e ele compreende como os seres prosseguem de acordo com as suas ações,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
Se ele desejar: “Que eu, realizando por mim mesmo através do conhecimento direto aqui e agora, entre e permaneça na libertação da mente e libertação através da sabedoria que são imaculadas com a destruição de todas as impurezas,” ele obtém a capacidade de compreender esse estado através do conhecimento direto, sempre que as condições necessárias estiverem presentes.
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Notas:
[1] Kamavitakka, byapadavitakka, vihimsavitakka. Os três tipos de pensamento prejudicial que podem ser superados através dos dois elementos do nobre caminho óctuplo: pensamento correto e esforço correto.
[2] Dhammavitakka De acordo com AA isto se refere às dez corrupções do insight descritas no Vsm XX, 105-28. É possível no entanto entender dhammavitakka simplesmente como a investigação dos fenômenos.
[3] Ajaan Brahmavamso no seu livro Mindfulness, Bliss, and Beyond diz o seguinte: O estado que imediatamente antecede o primeiro jhana é chamado de concentração de acesso, upacara samadhi. Esse estado é experimentado como a habilidade para permanecer sem esforço durante muito tempo com o belo e tranqüilo sinal da meditação, (nimitta). Nessa situação os cinco obstáculos foram suprimidos. No entanto, o upacara samadhi que antecede os jhanas é notoriamente mais instável do que aquele que ocorre depois da experiência dos jhanas. É uma situação na qual os obstáculos podem com facilidade voltar à tona, porque eles foram suprimidos apenas recentemente e ligeiramente. Se o meditador tentar contemplar o Dhamma nesse momento, o upacara samadhi será perdido e os obstáculos irão retornar. Por isso que o Buda disse neste sutta que contemplar o Dhamma nesse momento é um obstáculo e isso não deve ser feito. A contemplação do Dhamma deve ocorrer após emergir dos jhanas quando upacara samadhi é mais estável e duradouro. Veja também o MN 68. As “condições necessárias” mencionadas no sutta se referem à maestria do quarto jhana.
Veja também o AN III.101.

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