sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A LEI [QUE REDIME]


Este é um trecho em verso do Sutra do Lotus. É uma tradução portuguesa de Burton Watson. Esse trecho revela a Lei única, a revelação que é capaz de despertar os bodhisattvas. Se bodhisattvas ouvirem este sutra eles imediatamente estarão livres de todas as dúvidas. Todas as pessoas que ouvirem essa Lei e lhe prestar uma homenagem que seja, à Lei, ao Buda e a todos os Budas, entrarão no caminho e algum dia atingirão o estado de Buda.
As pessoas que se contentam com apenas entrar no caminho, esmaecer ou eliminar as primeiras impurezas, ou mesmo aquelas que se contentam com o Nirvana, em apenas desfrutar Nirvana sem atingir o estado de Buda; e as pessoas que não acreditam que elas mesmas têm a semente de Buda e a completa capacidade e possibilidade de se tornarem Buda, tais pessoas precisam conhecer esta Lei, que está exposta nesses versos.
O Buda expõe aqui algo que para alguns pode ser muito difícil de entender ou mesmo aceitar, mas que para outros soará como um estalo, como um sino, que demarca o fim de toda dúvida, como se fosse uma lembrança perdida que agora é encontrada; como se estivesse andado num lugar escuro e na penumbra e agora pudesse ver e reconhecer os objetos que antes apenas tateava. Este é o poder das palavras do Buda. É o poder da verdade, incorruptível e imortal.


Existem monges e monjas
que se comportam com suprema arrogância,
leigos cheios de auto estima,
leigas falhas de fé.
Entre os quatro tipos de crentes, os iguais a estes
são cinco mil.
Não vêm os seus erros,
são descuidados e negligentes no que respeita aos preceitos,
apegados aos seus defeitos e sem vontade de mudar.
Mas estas pessoas de diminuta sabedoria já se foram embora;
o joio desta assembleia
retirou-se perante a autoridade do Buda.
Estas pessoas eram pobres de mérito e virtude,
incapazes de receber esta Lei.
Esta assembleia está agora livre de ramos e folhas,
composta apenas pelo que é firme e seguro.
Shariputra, ouve cuidadosamente
como esta Lei foi obtida pelos Budas
e como eles a ensinam em prol dos seres viventes
através do poder de incontáveis meios hábeis.
Os pensamentos que estão na mente dos seres viventes,
os diferentes caminhos por eles seguidos,
os variados desejos e naturezas,
as boas e más acções por eles praticadas em suas prévias existências -
de tudo isto o Buda toma conhecimento
e então emprega causalidades, metáforas e parábolas,
palavras que incorporam o poder dos meios hábeis,
de forma a agradar e alegrar a todos.
Por vezes ensina sutras,
versos, histórias das vidas passadas de discípulos,
histórias de vidas passadas do Buda, de coisas sem precedentes.
Noutras alturas ensina atendendo a causas e condições,
usa metáforas e parábolas, passagens de poesia
ou discursos.
Para aqueles de escassas capacidades
que se deleitam na pequena Lei,
que avidamente se apegam ao nascimento e à morte,
e apesar dos inumeráveis Budas,
não praticam a profunda e maravilhosa Lei
mas estão perplexos e confusos por uma miríade de problemas -
para esses ensina o nirvana.
Crio estes meios hábeis
e assim faço-os entrar na sabedoria de Buda.
Até agora nunca vos disse
que vós certamente ireis atingir a via de Buda.
A razão de nunca ter ensinado dessa forma
foi não ter ainda chegado o momento para isso.
Mas agora é o tempo certo
em que devo ensinar decididamente o Grande Veículo.
Uso estes nove expedientes,
adaptando-os aos seres viventes enquanto ensino,
sendo o meu objectivo conduzi-los ao Grande Veículo,
e é por isso que ensino este sutra.
Estes são filhos de Buda cujas mentes são puras,
que são serenas e de apuradas capacidades,
que sob os auspícios de inumeráveis Budas
praticaram a profunda e maravilhosa via.
Para estes filhos de Buda  transmito este sutra do Grande Veículo.
E prevejo que estas pessoas
numa futura existência atingirão a via de Buda.
Porque no mais íntimo deles mesmos pensam no Buda
e praticam e mantêm os preceitos,
estão certos de alcançar o estado de Buda
e ouvindo isto, os seus corpos são inundados de grande alegria.
O Buda conhece as suas mentes e práticas
e por isso lhes ensina o Grande Veículo.
Quando os ouvintes e os bodhisattvas
ouvem esta Lei que eu ensino,
assim que ouvem um só verso
todos sem qualquer dúvida ficam certos de atingir o estado de Buda.
Nas terras de Buda das dez direcções
só existe a  Lei do veículo único,
não há dois, não há três,
excepto quando o Buda assim ensina como um meio hábil,
empregando nomes e termos provisórios
unicamente para conduzir e guiar os seres viventes
e ensinar-lhes a sabedoria de Buda.
Os Budas aparecem no mundo
apenas por esta razão, que é verdadeira;
as outras duas não o são.
Nunca usam um veículo inferior
para salvar os seres viventes e levá-los na travessia.
O próprio Buda reside neste Grande Veículo
e adornado com o poder da meditação e da sabedoria
que acompanha a Lei por ele obtida,
ele usa-o para salvar os seres viventes.
Ele próprio é testemunha da via insuperável,
o Grande Veículo, a Lei na qual todas as coisas são iguais.
Se  usasse um veículo inferior
para converter ainda que fosse uma só pessoa,
seria culpado de agressão e ganância,
mas tal coisa seria impossível.
Se uma pessoa acreditar e tomar refúgio no Buda,
o Tathagata nunca a engana,
nem alguma vez mostrará ganância ou ciúme.
Porque exterminou o mal de entre os fenómenos.
Por isso através das dez direcções
apenas o Buda é desprovido de medo.
Adorno o meu corpo com as características especiais
e faço brilhar a minha luz sobre o mundo.
Sou honrado por inumeráveis multidões
e para elas  ensino a insígnia da realidade das coisas.
Shariputra, deves saber
que no início  fiz um voto,
esperando tornar todas as pessoas
iguais a mim, sem qualquer distinção entre nós,
e o que  há muito esperava
foi agora consumado.
Converti todos os seres viventes
e fi-los entrar na via de Buda.
Se, quando encontro seres viventes,
lhes ensinasse apenas a via de Buda
os que não possuem sabedoria ficariam baralhados
e na sua confusão seriam incapazes de aceitar os meus ensinamentos.
Sei que esses seres viventes nunca no passado cultivaram boas raízes
mas antes se apegaram obstinadamente aos cinco desejos,
e a sua loucura e ânsia deram origem à aflição.
Os desejos são a causa pela qual caem nos três maus caminhos,
permanecendo no ciclo dos seis reinos de existência
e padecendo toda a sorte de sofrimentos e dores.
Existência após existência eles crescem
do ventre ao cemitério.
Pessoas de escassa virtude e pequeno mérito,
são perturbados e assolados por inúmeros sofrimentos.
Extraviam-se pela densa floresta das visões erróneas,
discutindo o que existe ou o que não existe
e no final apegando-se a essas visões,
abraçando todas as sessenta e duas.
Estão constantemente comprometidos com falsas e vãs doutrinas,
agarrados firmemente a elas, incapazes de as pôr de lado.
Arrogantes e ufanos de auto estima,
aduladores e invejosos, de mente insincera,
durante mil, dez mil, um milhão de kalpas
não ouvirão o nome de Buda,
nem ouvirão a correcta Lei -
essas pessoas são difíceis de salvar.
Por estas razões, Shariputra,
estabeleci, para o seu bem, meios hábeis,
ensinando a via que põe um fim a todo o sofrimento
e mostrando-lhes o nirvana.
Mas, embora  lhes exponha o nirvana,
essa não é a verdadeira extinção.
Todos os fenómenos, desde o mais remoto,
trazem sempre consigo as marcas
da extinção tranquila.
Uma vez consumadas estas práticas, os filhos de Buda,
numa existência futura, estarão aptos a tornar-se Budas.
Empreguei o poder dos meios hábeis
para expor e demonstrar esta doutrina dos três veículos,
mas os Honrados Pelo Mundo
sempre ensinam a via do único veículo.
Agora, perante esta grande assembleia,
devo esclarecer todas as dúvidas e perplexidades.
Não existe discrepância nas palavras dos Budas,
há apenas um veículo, não dois.
Por inumeráveis kalpas no passado,
incontáveis Budas que agora estão extintos,
cem, mil, dez mil, milhões em número incalculável -
esses Honrados Pelo Mundo,
usando diferentes tipos de causas, metáforas e parábolas
e o poder de incontáveis meios hábeis,
expuseram as características dos ensinamentos.
Todos estes Honrados Pelo Mundo
expuseram a doutrina do veículo único,
convertendo incontáveis seres viventes
e fazendo-os entrar na via de Buda.
Todos estes grandes Senhores da Sabedoria,
conhecendo os desejos mais profundos
dos seres celestiais e humanos e dos outros seres viventes
de todos os universos,
empregaram ainda outros meios hábeis
para ajudar a iluminar a suprema verdade.
Se existem seres viventes
que encontraram estes Budas do passado,
e se escutaram a sua Lei, ofereceram esmolas,
mantiveram os preceitos, mostrando tolerância,
sendo assíduos, praticando meditação e sabedoria, e nesse sentido,
cultivaram vários tipos de mérito e virtude,
pessoas como estas
atingiram todas a via de Buda.
Após estes Budas se terem extinto,
se existirem pessoas de mente boa e serena,
então esse tipo de seres viventes
atingiram todos a via de Buda.
Depois dos Budas se terem extinguido,
se fizerem oferendas às relíquias,
erigindo dez mil ou um milhão de variedades de torres votivas,
usando ouro, prata, cristal,
madrepérola e ágata,
coral, lápis-lazúli, pérolas,
para as purificar e adornar extensamente,
ou se construírem templos mortuários de pedra,
ou de sândalo ou aloés,
hovénia ou outros tipos de madeira,
ou de tijolo, terracota ou argila,
se no meio dos vastos campos
amontoarem terra para fazer um templo mortuário para os Budas,
ou mesmo se crianças a brincar
juntarem areia para fazer uma torre votiva,
então, pessoas como estas
atingiram todas a via de Buda.
Se existirem pessoas que em prol dos Budas
criem e construam imagens,
esculpindo-as com os trinta e dois sinais distintivos,
então todos terão atingido a via de Buda.
Ou se fizerem as imagens com os sete tesouros,
ou com cobre, estanho, chumbo, bronze,
madeira, barro ou resina,
para representar e adornar imagens de Buda,
pessoas como essas alcançaram todas a via de Buda.
Se eles empregarem pigmentos para pintar imagens de Buda,
conferindo-lhes os cem sinais sagrados,
feitas por si ou encomendadas a outros,
então terão todos alcançado a via de Buda.
Mesmo se crianças a brincar
usarem folhagem ou galhos,
ou mesmo com a unha
riscarem imagens de Buda,
pessoas como essas
pouco a pouco irão acumulando mérito
e tornar-se-ão inteiramente dotadas de uma mente compassiva;
todos eles alcançaram a via de Buda.
Simplesmente pela conversão dos bodhisattvas
elas trazem a salvação e o alívio a inumeráveis multidões.
E se alguém, na presença dessas torres votivas,
essas imagens de jóias ou figuras pintadas,
com uma mente reverente fizer ofertas
de flores, incenso, faixas ou dosséis,
ou se contratarem músicos para tocar,
 batendo tambores, soprando trompas ou conchas,
 tocando flautas, alaúdes ou harpas,
tangendo guitarras, címbalos e gongos,
e se essas variadas e maravilhosas notas
forem entendidas como oferendas;
ou se alguém com uma mente radiante
cantar uma canção em louvor à virtude de Buda,
mesmo que apenas uma curta nota,
todos os que assim procedem alcançaram a via de Buda.
Se alguém com uma mente confusa e distraída,
pegar nem que seja numa flor
e a oferecer a uma imagem,
um dia acabará por ver inumeráveis Budas.
Ou se uma pessoa fizer uma vénia
ou se prestar obediência,
ou simplesmente juntar as palmas das mãos,
ou apenas levantar uma só mão,
ou conceder não mais do que um ligeiro aceno de cabeça,
e se isto for oferecido a uma imagem,
então a seu tempo ele chegará a ver incontáveis Budas.
E se ele mesmo alcançar a via insuperável
e espalhar a salvação por incontáveis multidões,
ele entrará no nirvana não residual
tal como um fogo se extingue quando se esgota o combustível.
Se pessoas com mentes confusas e distraídas
entrarem em torres votivas
e uma vez exclamarem, “Homenagem aos Budas!”
então terão alcançado a via de Buda.
Se dos Budas passados,
quando ainda estavam no mundo ou uma vez extintos,
eles ouvirem nem que seja o nome da Lei,
então todos terão alcançado a via de Buda.
Os Honrados Pelo Mundo do futuro,
cujo número será incalculável,
esses Tathagatas
também empregarão meios hábeis para ensinar a Lei,
e todos estes Tathagatas,
através de incontáveis meios hábeis
salvarão e trarão alívio aos seres viventes,
de modo a que estes entrem na sabedoria de Buda
que é livre de imperfeições.
Se houver quem ouça a Lei,
então nem um deixará de atingir a Iluminação.
O voto original dos Budas
foi de que a via de Buda, por eles mesmos praticada,
seja partilhada universalmente entre os seres viventes
de modo a que também eles possam alcançá-la da mesma forma.
Os Budas de eras futuras,
ainda que ensinem centenas, milhares, milhões,
incontáveis doutrinas,
na verdade fazem-no em prol do veículo único.
Os Budas, mais honrados de entre os humanos,
sabem que os fenómenos não têm natureza constante e permanente,
que a semente da Iluminação brota da causalidade,
e por essa razão eles ensinam o veículo único.
Mas que estes fenómenos são parte de uma Lei perpétua
e as características do mundo são sempre manifestas -
isto eles ficaram a conhecer no lugar da iluminação
e como líderes e mestres eles utilizam meios hábeis.
Os Budas actuais das dez direcções,
a quem os seres celestiais e humanos fazem oferendas,
que em número são como as areias do Ganges,
apareceram no mundo
de modo a trazer a paz e o conforto aos seres viventes,
e também eles ensinam a Lei desta forma.
Compreendem a verdade original da extinção tranquila
e por isso usam o poder dos meios hábeis
e embora indiquem vários caminhos diferentes,
na verdade fazem-no em prol do veículo de Buda.
Eles entendem as acções dos seres viventes,
os pensamentos que jazem no fundo das suas mentes,
as acções cometidas no passado,
os desejos, a natureza, o poder dos seus esforços,
se as suas capacidades são apuradas ou fracas,
e assim empregam várias causas e condições,
metáforas, parábolas e outras palavras e frases,
adoptando quaisquer meios hábeis que sejam adequados ao seu ensinamento.
Agora também sou assim;
por forma a trazer paz e conforto aos seres viventes
emprego várias doutrinas diferentes
para disseminar a via de Buda.
Através do poder da minha sabedoria
sei a natureza e os desejos dos seres viventes
e com meios hábeis exponho estas doutrinas,
fazendo com que todos os seres viventes alcancem contentamento e alegria.
Shariputra, deves compreender
que vejo as coisas através do olho de Buda,
vejo os seres viventes nos seis reinos,
quão pobres e angustiados são, sem mérito ou sabedoria,
como entram na perigosa estrada do nascimento e da morte,
os seus sofrimentos continuando sem cessar,
quão profundamente apegados estão aos cinco desejos,
como um iaque enamorado da sua cauda,
cegando-se com a ganância e a presunção,
a sua visão deteriorada até nada conseguirem ver.
Eles não procuram o Buda, com o seu grande poder,
ou a Lei que pode pôr fim aos seus sofrimentos,
mas embrenham-se em noções erróneas,
esperando libertar-se do sofrimento com mais sofrimento.
Pelo bem destes seres viventes gero uma mente de grande compaixão.
Quando no início ocupei o lugar da iluminação,
pelo espaço de três vezes sete dias ponderei este assunto,
fitando a árvore aí existente e andando à sua volta.
A sabedoria que obtive, pensei,
é subtil, maravilhosa e suprema,
mas os seres viventes estão embotados pela ignorância,
dependentes do prazer e cegos pela estupidez.
Com pessoas como estas,
que posso dizer, como posso salvá-las?
Nessa ocasião os reis Brama,
em conjunto com o rei celestial Shakra,
os Quatro Reis Celestiais que guardam o mundo
e o rei celestial Grande Liberdade,
na companhia de outros seres celestiais
e das suas centenas de seguidores,
juntaram reverentemente as palmas das mãos e prosternaram-se,
rogando-me que fizesse girar a roda da Lei.
De imediato pensei para comigo
que se meramente louvasse o veículo de Buda,
os seres viventes, atolados no seu sofrimento,
seriam incapazes de acreditar nesta Lei.
Assim, por rejeitarem a Lei e não crerem nela,
cairiam nos três maus caminhos.
Seria melhor que não ensinasse a Lei
mas antes entrasse rapidamente no nirvana.
Então os meus pensamentos viraram-se para os Budas do passado
e para o poder dos meios hábeis por eles empregues,
e pensei que a via que tinha então alcançado
devia igualmente ser ensinada como três veículos.
Quando assim pensei,
todos os Budas das dez direcções me apareceram
e com sons Brahma confortaram-me e instruíram-me.
“Muito bem, Shakyamuni!” disseram eles.
“Supremo líder e mestre,
alcançaste a Lei insuperável.
Mas seguindo o exemplo de todos os outros Budas,
empregarás o poder dos meios hábeis.
Nós também obtivemos a mais maravilhosa, a suprema Lei,
mas em prol dos seres viventes
fazemos distinções e ensinamos os três veículos.
Pessoas de pequena sabedoria deleitam-se numa pequena Lei,
incapazes de acreditar que eles mesmos se podem tornar Budas.
Por isso empregamos meios hábeis,
fazendo distinções e expondo vários objectivos,
Mas ainda que ensinemos os três veículos,
fazemo-lo por forma a instruir os bodhisattvas.”
Shariputra, deves entender isto,
quando ouvi estes santos leões
e a sua profunda, pura, subtil, maravilhosa voz,
rejubilei e a chorar disse “ Homenagem aos Budas!”
Então pensei para comigo,
vim a este impuro e malévolo mundo
e de acordo com o que estes Budas ensinaram,
devo agir segundo o seu exemplo.
Após ter tido estes pensamentos
segui de imediato para Varanasi.
As marcas da extinção tranquila de todos os fenómenos
não podem ser expressas por palavras,
por isso usei o poder dos meios hábeis
para ensinar os cinco ascetas.
A isto chamei “girar a roda da Lei”,
também utilizei os sons “nirvana”,
“arhat”, “Dharma” e “Sangha” -
vários termos para indicar distinções.
“Desde há infinitos kalpas no passado
 tenho elogiado e ensinado a Lei do nirvana,
pondo fim ao longo sofrimento do nascimento e da morte.”
Assim  costumo ensinar.
Shariputra, deves saber isto,
quando olhei para os filhos de Buda,
vi incalculáveis milhares, dezenas de milhar, milhões
que decidiram seguir a via de Buda,
todos com uma mente respeitosa e reverente,
todos vindo ao encontro do lugar do Buda,
pessoas que no passado ouviram outros Budas
e ouviram a Lei ensinada segundo meios hábeis.
De imediato pensei
que a razão do aparecimento do Tathagata
é ele poder expor a sabedoria de Buda.
Agora é precisamente o momento para isso.
Shariputra, deves compreender
que pessoas de fracas capacidades e pequena sabedoria,
apegadas às aparências, orgulhosas e arrogantes,
são incapazes de acreditar nesta Lei.
Agora , alegre e destemido,
ponho de lado francamente os meios hábeis,
e exponho unicamente a Via insuperável.
Quando os bodhisattvas ouvirem esta Lei,
serão libertados de todas os emaranhados da dúvida.
As doze centenas de Arhats,
também eles atingirão a Iluminação.
Seguindo o modelo que os Budas
dos três tempos
empregam para expor a Lei,
 farei agora da mesma forma,
ensinando a Lei que é isenta de distinções.
Os tempos em que os Budas aparecem no mundo
são muito espaçados entre si
e difíceis de encontrar.
Mesmo quando aparecem no mundo
é-lhes difícil expor a Lei.
Através de incalculáveis, inumeráveis kalpas
é raro esta Lei ser ouvida
e alguém capaz de a ouvir é igualmente raro.
É como a flor da udumbara
que deleita o mundo, adorada por todos,
olhada como rara por seres celestiais e humanos,
e que aparece apenas uma vez em muitas eras.
Se uma pessoa ouve esta Lei,
se deleita com ela e a louva,
mesmo que profira apenas uma palavra,
faz com isso oferendas a todos os Budas dos três tempos.
Mas uma pessoa assim é rara de encontrar,
mais do que a flor da udumbara.
Não deveis ter dúvidas,
sendo o rei das doutrinas,
faço esta proclamação a toda a grande assembleia.
Emprego apenas a via do veículo único
para converter e instruir os bodhisattvas,
não tenho discípulos ouvintes.
Tu, Shariputra,
e todos os ouvintes e bodhisattvas,
devem compreender que esta maravilhosa Lei
é o segredo essencial dos Budas.
Neste mundo maligno das cinco impurezas
esses que apenas se apegam aos desejos
deleitando-se com eles,
seres viventes como esses,
no final nunca procurarão a via de Buda.
Quando pessoas malévolas de eras futuras
ouvirem o Buda expor o veículo único,
ficarão confusas, sem o acreditar ou aceitar,
rejeitarão a Lei e cairão nos maus caminhos.
Mas quando existirem pessoas modestas e puras,
determinadas a procurar a via de Buda,
então, para o bem deles,
devo louvar a via do veículo único.
Shariputra, deves entender isto,
assim é a Lei dos Budas.
Empregando dez mil, um milhão de meios hábeis,
eles ensinam a Lei de acordo com o que é apropriado.
Os que não são versados neste assunto
não podem compreender inteiramente.
Mas tu e os outros já sabem
como os Budas, os mestres do mundo, empregam meios hábeis
de acordo com o que é apropriado.
Não tereis mais dúvidas ou perplexidades
mas, com as mentes plenas de alegria,
sabereis que vós mesmos haveis de atingir o estado de Buda.


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