quarta-feira, 13 de abril de 2022

Terapêutica Antiga - Psicoterapia Ortodoxa - Parte 3

Do livro PSICOTERAPIA ORTODOXA

 Hieroteos Vlacos,

Metropolita de Naupactos

(Outra transliteração: Hierotheos Vlachos,

Metropolita de Nafpaktos)

(manual de espiritualidade ortodoxa)

Tradução: Tito Kehl


O Rico e Lázaro - grande

Capítulo I

CINCO PALAVRAS FUNDAMENTAIS

Antes de iniciarmos este estudo, é preciso absorver

alguns termos gregos cuja tradução nunca revela

exatamente o seu sentido original. O primeiro destes

termos é nous (mente, não cérebro), palavra que se refere

ao “olho do coração”, que costuma ser traduzida como

mente ou intelecto e que dá origem ao adjetivo “noético”.

Outras duas palavras, praxis (ação) e theoria (visão),

referem-se, nos escritos patrísticos dum modo geral, à

prática ascética e à visão de Deus, respetivamente. Nepsis

indica, a um tempo, a sobriedade e a vigilância,

características da vida dos santos Padres, e costuma ser

traduzida apenas como “vigilância”, o que a faz perder o seu

segundo, mas não menos importante, sentido, referente à

“sobriedade”. Finalmente, hesiquia significa repouso, paz, a

Paz de Cristo, que não é a paz do mundo, mas sim a paz na

presença de Deus.

1. A Ortodoxia como uma ciência terapêutica

Muitas interpretações do Cristianismo foram

formuladas e muitas respostas foram dadas às questões: o

que é o Cristianismo e qual a sua missão no mundo? Muitas

dessas respostas não são verdadeiras. A seguir, tentaremos

demonstrar que o Cristianismo, em especial a Ortodoxia,

consiste numa terapia. Tentaremos descrever esta terapia

e o modo como ela deve ser adquirida.

1.1. O que é o Cristianismo

Muitas pessoas, que interpretam o caráter do

Cristianismo, vêem-no como uma das numerosas filosofias

e religiões conhecidas desde a Antiguidade. Certamente, o


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Cristianismo não é uma filosofia, no sentido que prevalece

hoje. A filosofia estabelece um sistema de pensamento que,

na maior parte das vezes, não traz, em si, relação alguma

com a vida. A principal diferença entre o Cristianismo e a

filosofia é que esta última consiste num pensamento

humano, enquanto o primeiro é uma revelação de Deus.

Não foi uma descoberta do homem, mas sim uma revelação

do próprio Deus ao homem. Teria sido impossível à lógica

humana encontrar as verdades do Cristianismo. Na medida

em que a palavra humana revelou-se impotente, surgiu o

Verbo divino-humano, Cristo, o Deus-Homem, o Verbo de

Deus. Essa revelação divina foi formulada nos termos

filosóficos do seu tempo, mas, repetimos, é preciso

enfatizar que não se trata duma filosofia. Apenas a

“roupagem” do Verbo divino-humano foi tomada da

filosofia do seu tempo.

São João Crisóstomo, ao interpretar o texto de Isaías

3:1, que diz: “Vede o Senhor, o Senhor dos Exércitos, tirou

a sustentação de Jerusalém e de Judá (...) o homem forte e o

soldado, o juiz e o profeta, o adivinho (...)”, observou: “Ele

parece chamar aqui de adivinho uma pessoa que é capaz de

conjeturar o futuro através duma profunda inteligência e

experiência das coisas. A adivinhação e a profecia são, de

facto, coisas diferentes: o profeta, ao colocar-se de parte,

fala sob a inspiração divina; o adivinho, por sua vez, parte

daquilo que já aconteceu, coloca a sua própria inteligência

a trabalhar e prevê muitos eventos futuros, como o faria

uma pessoa inteligente. Mas a diferença entre eles é

grande: é a distância que separa a inteligência humana da

graça divina”. Portanto, a especulação (ou filosofia) é uma

coisa, enquanto a profecia ou a palavra do profeta, ao

teologizar, é outra. A primeira consiste numa atividade

humana enquanto esta última é a revelação do Espírito

Santo.


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Nos escritos patrísticos e, especialmente, nos

ensinamentos de São Máximo, a filosofia é apontada no

início da vida espiritual. Ele utilizou, porém, o termo

“filosofia prática” para significar a limpeza do coração das

suas paixões, que é, de facto, o primeiro estágio para a

jornada da alma em direção a Deus.

O Cristianismo não pode ser visto, também, como uma

religião; pelo menos não como a religião que se apresenta

hoje em dia, na qual, geralmente, Deus é visto a habitar nos

céus e a dirigir a história humana desde lá. Ele seria

extremamente detalhista, sempre a buscar a satisfação do

homem, que teria caído na terra devido à sua fraqueza e

enfermidade. Existiria, assim, um muro, que separaria Deus

do homem. Este muro teria que ser suplantado pelo homem

e a religião proveria um auxílio efetivo nessa tarefa. Vários

ritos religiosos seriam, assim, empregados com esse

propósito.

De acordo com outro ponto de vista, o homem sente-se

impotente perante o universo e necessita dum Deus

poderoso para ajudá-lo na sua fraqueza. Sob esta

perspetiva, Deus não criou o homem, mas este criou o seu

Deus. Mais uma vez, a religião é concebida como um

relacionamento do homem com um Deus absoluto, como

um relacionamento do tipo “eu e o Outro absoluto”.

Novamente, muitos veem a religião como um meio através

do qual as pessoas iludem-se ao transferir as suas

esperanças para a vida futura. Desta maneira, forças

poderosas estariam a pressionar o povo por intermédio da

religião.

Mas o Cristianismo é algo que vai muito além dessas

interpretações e teorias. Ele não pode ser contido dentro

das conceções usuais e da definição de religião fornecida

pelas religiões “naturais”. Deus não é o Outro absoluto, mas

uma Pessoa viva, que está numa comunicação orgânica com


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o homem. Mais do que isso, o Cristianismo não transfere,

simplesmente, o problema para o futuro, nem espera as

delícias do reino celeste para depois da história e do final

dos tempos. No Cristianismo, o futuro é vivido no presente

e o reino de Deus começa nesta vida. De acordo com a

interpretação patrística, o reino de Deus é a graça do Deus

Triúno, é a visão da Luz incriada.

Nós, ortodoxos, não estamos à espera do fim da

história ou do fim dos tempos, mas, através da nossa vida

em Cristo, vamos ao encontro do fim da história e deste

modo de viver a vida, que se espera para depois da Sua

Segunda Vinda. São Simeão, o Novo Teólogo, disse-nos que,

aquele que viu a luz incriada e uniu-se a Deus, não está mais

à espera da Segunda Vinda do Senhor, mas vive-a. Assim é

que o eterno nos abraça e nos envolve a cada momento.

Desta forma, o passado, o presente e o futuro são vividos,

essencialmente, numa unidade inquebrantável. É o que se

chama de “tempo condensado”.

Portanto, a Ortodoxia não pode ser caracterizada como

o “ópio do povo”, precisamente porque não adia o

problema. Ela oferece a vida, transforma a vida biológica,

santifica e transforma as sociedades. Onde a Ortodoxia é

vivida, do modo correto e no Espírito Santo, existe a

comunhão entre Deus e o homem, entre o celeste e o

terreno, entre o vivo e o que está morto. Nessa comunhão,

todos os problemas que se apresentam na nossa vida são,

verdadeiramente, resolvidos.

É claro que, uma vez que a comunidade da Igreja inclui

pessoas doentes e iniciantes na vida espiritual, podemos

esperar que algumas dessas pessoas entendam o

Cristianismo como uma religião, no sentido a que nos

referimos anteriormente. Acima de tudo, a vida espiritual é

uma viagem dinâmica. Ela começa com o Batismo, com a

purificação da “imagem” e continua através da vida


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ascética, que objetiva alcançar a “semelhança”, que consiste

na comunhão com Deus. De qualquer modo, deve ficar

esclarecido que, mesmo quando falamos do Cristianismo

como uma religião, devemos fazê-lo apenas a partir

dalguns pressupostos.

O primeiro deles é que o Cristianismo é,

principalmente, uma Igreja e esta significa o Corpo de

Cristo. Existem muitas passagens, no Novo Testamento, em

que o Cristianismo é chamado de Igreja. Vamos citar

apenas as palavras de Cristo a esse respeito: “(...) Tu és

Pedro e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja (...)[6]”,

as palavras do Apóstolo Paulo aos Colossenses: “É Ele a

cabeça do Corpo, que é a Igreja.[7]” e ao seu discípulo

Timóteo: “(...) Quero que saibas como deves proceder na

casa de Deus, esta Igreja do Deus vivo, coluna e

sustentáculo da verdade.[8]” Isso significa que Cristo não

mora, simplesmente, nos céus e que dirige, desde lá, a

história e a vida dos homens, mas sim que ele está unido a

nós. Ele assumiu a natureza humana e deificou-a. Assim, em

Cristo, a natureza deificada do homem encontra-se à direita

do Pai. Cristo é a nossa vida e nós somos os “membros de

Cristo”.

O segundo pressuposto é que o objetivo do

Cristianismo é o de alcançar o abençoado estado de

deificação. A deificação é idêntica à “semelhança”, ou seja,

consiste em ser como Deus. É claro que, para atingir a

semelhança, para alcançar a visão de Deus, e para que esta

visão não se transforme num fogo devorador, mas numa luz

vivificante, é preciso que seja feita, primeiramente, uma

purificação. Esta purificação e a cura constituem-se no

trabalho da Igreja. Quando o cristão participa do culto sem

ter experimentado essa purificação vivificadora –

principalmente dos atos de adoração que objetivam a

purificação do homem – ele não está, realmente, a viver no

seio da Igreja. O Cristianismo sem a purificação é uma


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utopia. Assim, só podemos falar em religião, na medida em

que estivermos a ser purificados, a buscar a nossa cura. Isso

concorda com as palavras do irmão do Senhor, Tiago: “Se

alguém considera-se uma pessoa piedosa, mas não refreia

a sua língua, enganando assim o seu coração, a sua religião

é vazia. A religião pura e sem mácula diante daquele que é

Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas

tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo”[9].

Essa abstinência permite-nos afirmar que o

Cristianismo não é nem uma filosofia, nem uma religião

“natural”, mas, principalmente, uma cura. É a cura das

paixões da pessoa, de modo a que ela possa alcançar a

comunhão e a união com Deus.


Na parábola do Bom Samaritano, o Senhor mostrou-

nos muitas verdades. Assim que o samaritano viu o homem


que caiu nas mãos dos bandidos que o feriram e o deixaram

à morte “(...) chegou ao pé dele e, ao vê-lo, encheu-se de

compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando

nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria

montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele[10]”.

Cristo tratou do homem ferido e levou-o até a hospedaria,

o hospital, que é a Igreja. Aqui, Cristo é apresentado como

o médico, que cura a enfermidade do homem, e a Igreja é

mostrada como um hospital.

É bem característico que, ao analisar essa parábola,

São João Crisóstomo tenha apresentado as verdades que

acabamos de enfatizar. O homem proveio “dum estado

celestial para o estado de ilusão demoníaca e ele sente-se

no meio de ladrões, ou seja, em meio ao diabo e aos seus

poderes hostis”. As feridas que ele apresenta são os seus

inúmeros pecados. Como disse David: “as minhas feridas

estão sujas e infetadas devido à minha loucura[11]”. Pois

“todo o pecado causa ferimentos e hematomas”. O

samaritano é o próprio Cristo, que desceu dos céus à terra


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para salvar os homens feridos. Ele emprega o vinho e o

azeite nas feridas. Isso equivale a dizer que, “ao misturar o

Espírito Santo ao Seu sangue, Ele trouxe a vida ao homem”.

De acordo com outra interpretação, “o azeite traz a palavra

de conforto, o vinho traz a loção adstringente e a instrução

traz concentração à mente dispersa”. Ele colocou o homem

sobre a sua montaria: “Ao carregar a carne sobre os Seus

ombros divinos, Ele ergueu-a até o Pai nos Céus”. Assim, o

bom samaritano, Cristo, conduziu o homem “até a

maravilhosa e espaçosa hospedaria, a Igreja universal”. Ele

entregou-o ao hospedeiro, que é o Apóstolo Paulo e

“através deste, aos altos sacerdotes, professores e

ministros de cada igreja”, dizendo: “Cuida do povo dos

gentios, que entreguei-te na Igreja. Quando os homens

estiverem doentes, feridos pelo pecado, cura-os, colocando

sobre as suas feridas um emplastro, ou seja, as palavras

proféticas e os ensinamentos evangélicos, devolvendo-os

incólumes por meio das admoestações e das exortações do

Velho e do Novo Testamentos”. Assim, de acordo com São

João Crisóstomo, Paulo é aquele que sustenta as igrejas de

Deus “e cura os homens por meio das admoestações

espirituais, distribuindo o pão da oferenda para cada qual”.

Na interpretação de São João Crisóstomo, fica,

claramente, evidente que a Igreja é o hospital, que cura

aqueles que estão enfermos pelo pecado, sendo que os

bispos e os padres, tal como o Apóstolo Paulo, são os que

curam o povo de Deus.

Essas verdades também aparecem em muitas outras

passagens do Novo Testamento. O Senhor disse: “Os que

têm saúde não precisam de médico, mas sim os que estão

doentes[12]”. Assim é que Cristo, como um médico dos

corpos e das almas, “curava todo o tipo de enfermidades e


todos os tipos de moléstias entre o povo (...) eles levavam-

Lhes as pessoas doentes que eram afligidas por diferentes


enfermidades e tormentos e também as que estavam


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possuídas por demónios, e os epiléticos e paralíticos; e a

todas Ele curava[13]”. O Apóstolo Paulo também sabia que

a consciência dos homens, especialmente dos mais simples,

é fraca: “Quando pecas contra os irmãos e feres a sua frágil

consciência, pecas contra Cristo[14]”. O Livro do

Apocalipse diz que João, o Evangelista, viu um rio de água

da vida que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. “De

cada lado do rio havia uma árvore da vida (...) e as folhas da

árvore eram para a cura das nações[15]”.

Portanto, o trabalho da Igreja é terapêutico. Ela

procura curar as enfermidades do homem, em especial as

da alma, que muito o atormentam. Esse é o ensinamento

fundamental do Novo Testamento e dos Padres da Igreja.

Na sequência deste capítulo e nos próximos, muitas

passagens dos Padres trarão novamente essa verdade.

Mais uma vez, quero enfatizar que a Igreja é

indispensável. Agradeço ao padre e professor, John

Romanides, por dissertar sobre isso nos seus escritos.

Estou convencido de que ele é muito versado nos Padres

népticos – em particular nos escritos contidos na Filocalía

– e que, realmente, alcançou o sentido real do Cristianismo.

Acredito ser esta a sua maior contribuição. Pois nesta era,

na qual o Cristianismo vem sendo apresentado como uma

filosofia ou como uma teologia cultural, ou ainda como uma

cultura e tradição popular (usos e costumes), ele

apresentou o seu ensinamento a respeito da disciplina

terapêutica e do tratamento.

Concretamente, ele disse: “Proclamar a fé em Cristo

sem se submeter à cura em Cristo é como não ter fé,

absolutamente. É a mesma contradição que encontramos

numa pessoa doente, que tem uma grande confiança no seu

médico, mas que não segue o tratamento que ele

recomenda. Se o Judaísmo e o seu sucessor, o Cristianismo,

tivessem aparecido no século XX pela primeira vez, eles


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teriam sido caracterizados, não como religiões, mas como

ciências médicas relacionadas com a psiquiatria. Eles

teriam uma larga influência sobre a sociedade devido ao

seu sucesso em curar as doenças duma personalidade que

funciona apenas em parte. O Judaísmo e o Cristianismo não

podem, de maneira alguma, ser colocados como religiões,

que usam diversos métodos mágicos e crenças, no sentido

de prometer um escape dum mundo supostamente

material, mau e cheio de hipocrisia, para um também

suposto mundo de segurança e sucesso”.

Num outro trabalho, o mesmo professor disse: “A

tradição patrística não é nem uma filosofia social, nem um

sistema ético e, menos ainda, um dogmatismo religioso: ela

é um tratamento terapêutico. A esse respeito, lembra, de

perto, a medicina e, em especial, a psiquiatria. A energia

espiritual da alma que ora incessantemente no coração é

um instrumento fisiológico que todos possuem e que

requer ser curado. Nem a psicologia, nem nenhuma das

ciências positivas ou sociais conhecidas, são capazes de

curar esse instrumento. Isso só pode ser feito através dos

ensinamentos népticos e ascéticos dos Padres. Por essa

razão, aqueles que nunca foram curados sequer suspeitam

da existência desse instrumento”.

Assim, na Igreja, dividimo-nos entre aqueles que estão

doentes, os que estão sob tratamento terapêutico e aqueles

– santos – que já foram curados. “Os Padres não

categorizam as pessoas em morais ou imorais, em boas ou

más, com base nas leis morais. Essa divisão é superficial. No

fundo, a humanidade diferencia-se entre os enfermos na

alma, os que estão a ser curados e os que já estão curados.

Todos os que não possuem um estado de iluminação estão

doentes na alma. Não bastam apenas a boa vontade, uma

boa resolução, uma prática moral e uma devoção à

Tradição Ortodoxa para fazer um ortodoxo, mas, sim, a

purificação, a iluminação e a deificação. Esses estágios de


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cura são o propósito da vida mística da Igreja, da qual os

textos litúrgicos dão-nos testemunho”.

1.2. A Teologia como uma ciência terapêutica

Daquilo que foi dito, fica evidente que o Cristianismo é,

principalmente, uma ciência que cura, vale dizer, um

método psicoterapêutico e um tratamento. O mesmo pode

ser dito da teologia. Ela não é uma filosofia, mas, em

primeiro lugar, um tratamento terapêutico. A teologia

ortodoxa mostra claramente que, dum lado, ela é fruto

duma terapia e, de outro, mostra o caminho dessa terapia.

Noutras palavras, apenas aqueles que foram curados e que

alcançaram a comunhão com Deus são teólogos e somente

estes podem mostrar aos cristãos o verdadeiro caminho

para atingir o “sítio” da cura. Assim, a teologia é, a um

tempo, o fruto e o método da terapia.

Aqui, precisamos estender-nos sobre o que foi dito

para poder ver essas verdades com uma maior clareza.

Citaremos alguns ensinamentos dos Santos Padres

relativos à teologia e aos teólogos. Creio que podemos

começar com São Gregório de Nazianzo, pois não foi por

acaso que a Igreja atribuiu-lhe o título de Teólogo. No

início dos seus famosos textos teológicos, ele escreveu que

teologizar não é para qualquer um, que nem todos podem

falar a respeito de Deus, porque este assunto não é simples

e fácil. Não se trata duma tarefa para todos os homens, “mas

para aqueles que foram examinados, que se tornaram

mestres na visão de Deus e que, previamente, purificaram

as suas almas e os seus corpos ou que, no mínimo, estão a

ser purificados”. Apenas estes, os que passaram da praxis

para a theoria, da purificação para a iluminação, podem

falar a respeito de Deus. E quando isso acontece? “Quando

nos libertamos de toda a contaminação e perturbação e

quando aquele que nos regra não se encontra mais confuso


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com vexações e imagens errantes e desordenadas”. Então,

advertiu o santo: “Pois é preciso estar verdadeiramente

desembaraçado para conhecer Deus”.

Nilo, o Asceta, ligou a teologia à prece, principalmente

à prece noética. Sabemos bem, a partir dos ensinamentos

dos Santos Padres que, qualquer um que tenha obtido a

graça da prece do coração, penetrou, por isso mesmo, nos

primeiros estágios da visão de Deus, porque esse tipo de

oração é uma forma de theoria. Por isso, todos os que oram

com a mente estão em comunhão com Deus e essa

comunhão constitui o conhecimento espiritual de Deus

para o homem. Foi, por essa razão, que São Nilo afirmou:

“Se fores um teólogo, orarás verdadeiramente. E, ao orares

verdadeiramente, serás um teólogo”.

São João Clímaco introduziu a verdadeira teologia em

muitas passagens do seu tesouro espiritual “A escada”. “A

pureza total é o fundamento da teologia”, disse ele.

“Quando os sentidos do homem estão perfeitamente

unidos com Deus, então, as coisas que Deus fala são, de

algum modo, misteriosamente esclarecidas. Mas onde não

existe esse tipo de união, é extremamente difícil falar a

respeito de Deus”. Ao contrário, o homem que, de facto, não

conhece a Deus fala sobre Ele apenas “em possibilidades”.

Conforme o ensinamento patrístico, é muito ruim opinar

sobre Deus sem fundamento, porque isso leva a pessoa a

iludir-se. O santo sabia como a “teologia dos demónios”

desenvolve-se em nós. Num coração cheio de vanglória,

que não tenha sido previamente purificado pela operação

do Espírito Santo, os demónios impuros “dão-nos lições de

interpretação das Escrituras”. Desse modo, a pessoa, que é

escrava das paixões, não deve “babar a teologia”.

Os Santos receberam “as coisas divinas sem

pensamentos” e, de acordo com os Padres, eles não

teologizaram segundo uma forma de pensamento


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aristotélica, mas “à maneira dos Apóstolos”, ou seja, através

duma operação do Espírito Santo. Se uma pessoa não foi

previamente lavada das suas paixões, em particular da

fantasia, ela não está capacitada para conversar com Deus

ou para falar a respeito de Deus, uma vez que a mente “que

constrói noções é incapaz de teologizar”. Os Santos vivem

uma teologia “escrita pelo Espírito”.

Encontramos o mesmo ensinamento nos trabalhos de

São Máximo, o Confessor. Quando uma pessoa vive pela

filosofia prática, com o arrependimento e a limpeza das

paixões, “ela avança no entendimento moral”. Ao

experimentar a theoria, “ela progride no conhecimento

espiritual”. No primeiro caso, ela pode discernir entre as

virtudes e os vícios; no segundo, a theoria “conduz o

participante às qualidades interiores das coisas

incorpóreas e corpóreas”. São Máximo afirmou que o

homem “é agraciado com a graça da teologia quando é

levado pelas asas do amor” na theoria e quando, “com a

ajuda do Espírito Santo, ele discerne – tanto quanto é

possível à mente humana – as qualidades de Deus”. A

teologia, o conhecimento de Deus, abre-se para a pessoa

que alcançou a theoria. Noutra parte, o mesmo Padre disse

que uma pessoa que sempre “se concentrou na vida

interior”, torna-se não apenas moderada, resiliente, gentil

e humilde, como também “capaz de contemplar, teologizar

e orar”. Também aqui a teologia está estreitamente

conectada com a theoria e a prece.

Devemos enfatizar que uma teologia que não é o

resultado da purificação, ou seja, da praxis, é demoníaca. De

acordo com São Máximo, o “conhecimento sem a praxis é a

teologia do demónio”. São Talássis, que partilhava do

mesmo ponto de vista, escreveu que, quando a mente do

homem começa com uma simples fé, “ele, eventualmente,

atingirá a teologia que transcende a mente e que se

caracteriza por uma fé irredutível do mais alto grau e pela


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visão do invisível”. A teologia está além da lógica. Ela é uma

revelação de Deus ao homem e os Padres definem-na como

theoria. Também aqui a teologia é, sobretudo, a visão de

Deus. Noutra passagem, o mesmo santo escreveu que o

genuíno amor faz nascer o conhecimento espiritual e que

“este é sucedido pelo desejo dos desejos: a graça da

teologia”.

Nos ensinamentos de São Diádoco de Foticéia, a

teologia é apresentada como o maior dos dons oferecidos

ao homem pelo Espírito Santo. Todos os dons da graça de

Deus são “perfeitos, mas o dom que inflama o nosso

coração e coloca-o em movimento para o amor da Sua

bondade, mais do que todos os demais, é a teologia”.

Porque esta, “como as primícias da graça de Deus, concede

à alma o maior de todos os dons”.

De acordo com o Apóstolo Paulo, o Espírito Santo

concede o conhecimento espiritual a uma pessoa e a

sabedoria a outra[16]. Ao interpretar essa afirmação, São

Diádoco disse que o conhecimento espiritual une o homem

a Deus, mas não o move para expressar aquilo que sabe.

Existem monges que amam a hesiquia e que são iluminados

pela graça de Deus, “ainda que não falem sobre Ele”. A

sabedoria é um dos dons mais raros, um dom que Deus

concede a quem possui tanto a expressão quanto a

capacidade intelectual. Assim, o conhecimento de Deus

“chega por intermédio da oração, duma profunda calma e

dum completo desprendimento, enquanto a sabedoria

provém duma humilde meditação sobre as Sagradas

Escrituras e, acima de tudo, por intermédio da graça

concedida por Deus”. O dom da teologia é um trabalho do

Espírito Santo em cooperação com o homem, uma vez que

Aquele atualiza neste o conhecimento espiritual dos

mistérios “independentemente dessa faculdade, já

existente, que busca, naturalmente, por tal conhecimento”.


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Nos ensinamentos de São Gregório Palamas, os

teólogos propriamente ditos são aqueles que veem Deus e

a teologia, a theoria: “Pois existe um conhecimento sobre

Deus e as suas doutrinas, uma theoria a que chamamos de

teologia”. Qualquer um que, sem o conhecimento e a

experiência a respeito dos assuntos da fé, oferece

ensinamentos sobre essas coisas “de acordo com o seu

próprio raciocínio, tentando, por meio de palavras, mostrar

Deus, que transcende todas as palavras, este simplesmente

perdeu completamente a noção das coisas”. Sobretudo,

existem casos nos quais há pessoas que não realizaram

obras, ou seja, que não se submeteram à purificação, mas

encontraram e escutaram homens santos e “tentaram

formar as suas próprias conceções”, terminando por

rejeitar a estes homens e inflar-se a si próprios de orgulho.

Todas essas coisas demonstram que a teologia é,

propriamente, o fruto da cura do homem e não uma

disciplina racional. Somente uma pessoa que tenha sido

purificada ou que, no mínimo, esteja em processo de

purificação, pode ser iniciada nos mistérios inefáveis e nas

grandes verdades, receber as revelações e, posteriormente,

levá-las ao povo. Por essa razão, na tradição patrística

ortodoxa, a teologia é ligada e identificada com o pai

espiritual, sendo este o teólogo por excelência, vale dizer,

aquele que experimentou as coisas de Deus e que, assim,

pode conduzir o seu filho espiritual sem volteios.

O Padre John Romanides escreveu: “O verdadeiro

teólogo ortodoxo é aquele que possui um conhecimento

direto de algumas das energias de Deus através da

iluminação ou que as conhece, mais ainda, pela visão. Ora,

ele conhece-as indiretamente, por intermédio dos Profetas,

Apóstolos e Santos ou pelas Escrituras, os escritos dos

Padres e as decisões e atos dos seus Concílios locais e

ecuménicos. O teólogo é aquele que, através desse

conhecimento espiritual direto ou intermediado e da visão,


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sabe claramente distinguir entre as ações de Deus e as das

criaturas, em especial as obras do diabo e dos demónios.

Sem o dom do discernimento dos espíritos, não é possível

testá-los para ver até que ponto algo é resultado da ação do

Espírito Santo ou do diabo e dos demónios”.

“Assim, o teólogo e o pai espiritual são a mesma coisa.

Uma pessoa que pensa e fala na busca dum entendimento


conceitual das doutrinas da fé, a partir dum padrão franco-

latino, não é um pai espiritual, nem pode ser chamado de


teólogo, no sentido próprio do termo. A teologia não é um

conhecimento abstrato ou prático, como a lógica, as

matemáticas, a astronomia ou a química mas, ao contrário,

ela possui um caráter polémico, como a logística e a

medicina. A primeira está relacionada às matérias de

defesa e ataque por meio dum treinamento corporal e a

estratégias para o desenvolvimento de armas, fortificações

e esquemas ofensivos e defensivos, enquanto a segunda

luta contra as doenças físicas e mentais na busca da saúde

e dos meios para restaurá-la”.

“Um teólogo que não está familiarizado com os

métodos do inimigo ou com a perfeição em Cristo não é

apenas incapaz de lutar contra o inimigo para o seu próprio

aperfeiçoamento, como também não está na posição de

guiar e curar os outros. É como ser chamado de general –

ou mesmo ser um – sem ter jamais recebido treinamento

ou lutado, sem ter estudado a arte da guerra, tendo apenas

prestado atenção à bela e gloriosa aparência do exército

nas suas esplêndidas e brilhantes fardas, utilizadas nas

receções e nas paradas militares. É como um talhante que

se porta como um cirurgião ou como aquele que sustenta

uma posição de médico sem conhecer as causas das

doenças ou os métodos para curá-las, ou até mesmo como

o estado de saúde do paciente pode vir a ser recuperado”.


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1.3. O que é a Terapia

Uma vez que dissemos que o Cristianismo e a teologia

são fundamentalmente uma ciência terapêutica, devemos

descrever, brevemente, no que consiste uma terapia. O que

faz com que a Ortodoxia, com a sua teologia e o seu culto de

adoração, possa curar-nos?

A terapia da alma significa, essencialmente, a terapia e

a libertação da mente. A natureza humana torna-se

“doente” por causa da sua queda, do seu afastamento de

Deus. Essa enfermidade consiste, principalmente, no

cativeiro e na queda da mente. O pecado ancestral é o

afastamento do homem em relação a Deus, a perda da graça

divina, que resulta em cegueira, escuridão e morte da

mente. Podemos dizer, com mais exatidão, que “a queda do

homem ou a situação de haver herdado o pecado consiste

na incapacidade do seu poder noético em funcionar

completamente ou mesmo a perda total dessa função; na

confusão desse poder com as funções do cérebro e do corpo

em geral e na consequente sujeição à angústia mental e às

condições circunstantes. Toda pessoa experimenta a queda

da sua própria faculdade noética em graus variados, na

medida em que é exposta a um meio no qual essa faculdade

não funciona ou está abaixo da sua potencialidade. O mau

funcionamento do poder noético resulta nas más relações

entre o homem e Deus e entre as pessoas. Também resulta

numa utilização individual de Deus e do homem decaído

para fortalecer uma sensação pessoal de segurança e

felicidade”.

Essa perda da graça de Deus obscureceu a mente do

homem. Toda a sua natureza adoeceu e ele legou essa

enfermidade aos seus descendentes. No ensinamento

ortodoxo, é assim que entendemos a herança do pecado. Os

Padres interpretaram as palavras de São Paulo, “por causa

da desobediência dum homem muitos tornaram-se


26


pecadores [17]”, não em termos legais, mas

“medicamente”, ou seja, a natureza humana tornou-se

doente. São Cirilo de Alexandria interpretou, deste modo, a

situação: “Depois de Adão ter caído no pecado e afundado

na corrupção, os prazeres impuros devastaram-no e a lei da

selva alastrou-se pelos seus membros. Dessa maneira, a

natureza tornou-se enferma por intermédio da

desobediência dum único homem, Adão. Então, muitos

tornaram-se pecadores, não como companheiros

transgressores de Adão, porque ainda não existiam, mas

por serem da mesma natureza que havia tombado sob a lei

do pecado (...) A natureza humana em Adão tornou-se

enferma por intermédio da corrupção da desobediência e,

desde então, as paixões penetraram-na”. Noutro trecho, o

mesmo Padre utilizou-se da imagem da raiz. A morte

atingiu toda a raça humana por meio de Adão, “do mesmo

modo como a raiz duma planta é prejudicada e todos os

rebentos que dela nascem embranquecem”.

São Gregório Palamas disse: “A mente que se rebelou

contra Deus tornou-se tão bestial como demoníaca, depois

de se ter rebelado contra as leis da natureza, ao cobiçar

aquilo que pertencia a outros”.

Através do “rito do nascimento em Deus”, o Santo

Batismo, a mente humana ilumina-se, liberta-se da

escravidão do pecado e do diabo e une-se a Deus. É por isso

que o Batismo é chamado de iluminação. Mas, depois disso,

por causa do pecado, novamente a mente é obscurecida e

entorpecida. Os escritos patrísticos deixam bem claro que

cada pecado e cada paixão contribuem para entorpecer a

mente.

São João Clímaco escreveu que os demónios malignos

esforçam-se “para obscurecer o nosso espírito”. Em

especial, o demónio da luxúria que, “ao obscurecer a nossa


27


mente, que nos guia”, empurra as pessoas “a fazer coisas

que somente os loucos pensariam em fazer”.

Num próximo capítulo, daremos mais atenção à

natureza da mente humana. Neste momento, estamos mais

interessados no tema do obscurecimento. São Máximo

ensinou-nos: “Assim como o mundo do corpo consiste em

coisas, o mundo da mente consiste em imagens conceituais.

Então, se o corpo fornica com o corpo duma mulher, a

mente, ao formar uma imagem do seu próprio corpo,

fornica com a imagem conceitual da mulher”. Nisto consiste

o obscurecimento e a queda da mente.


Noutro comunicado, o mesmo santo Padre ensinou-

nos que “assim como o corpo peca por intermédio das


coisas materiais, mas possui as virtudes corporais para

aprender a ter domínio sobre si próprio, também a mente

peca através de imagens conceituais passionais, mas possui

as virtudes da alma para instruí-lo”. Essa verdade mostra

que a queda da mente cria uma confusão em todo o

organismo espiritual. Ela cria a angústia e a agitação e, de

modo geral, faz com que a pessoa viva a queda em toda a

sua dramaticidade. Assim, muitos dos problemas que nos

assolam provêm dessa moléstia interior. É por isso que os

psicoterapeutas não nos podem ajudar muito, porque

somente Cristo pode restaurar a mente entorpecida pelas

paixões.

Citamos, mais uma vez, São Máximo que, ao tentar

definir, mais claramente, no que consiste a impureza da

mente e, consequentemente, a sua queda, escreveu que ela

contempla quatro itens: “em primeiro lugar, um falso

conhecimento; depois, a ignorância sobre os universais (...);

em terceiro, possui pensamentos passionais; em quarto,

acede ao pecado”. Assim é que a mente precisa de terapia,

duma terapia que os Padres chamam de “estimular e

purificar a mente”.


28


Muitas coisas estão ditas, nos ensinamentos do Senhor

e dos Apóstolos, acerca da pureza da mente e do coração. O

Senhor, ao se referir aos fariseus do seu tempo, zelosos

duma extrema pureza externa, mas negligentes com a

pureza interna, disse: “Fariseu cego, limpa primeiro o lado

de dentro do cálice e do prato e o lado de fora também

ficará limpo [18]”. No encontro dos Apóstolos em

Jerusalém, Pedro, ao se confrontar com o problema de os

gentios cristãos deverem ser circuncidados ou não, de

forma a manter a lei do Antigo Testamento, disse: “Deus,

que conhece os corações, reconhece-os, pois lhes deu o

Espírito Santo tanto quanto nos deu a nós e não fez

distinção entre nós e eles, ao purificar os seus corações pela

fé[19]”. O Apóstolo Paulo recomendou aos cristãos de

Corinto: “Devemo-nos limpar de toda a imundície da carne

e do espírito, aperfeiçoando a santidade com temor a

Deus[20]”. O sangue de Cristo deve “purgar a nossa

consciência das obras mortas[21]”. Do mesmo modo, ao

escrever ao seu discípulo Timóteo, ele afirmou que só

podemos captar o mistério da fé “com uma consciência

pura[22]”. O Apóstolo Pedro também estava consciente de

que o amor pelo próximo constitui o fruto dum coração

puro, ao dizer: “Amai-vos uns aos outros, fervorosamente,

com um coração puro[23]”.

Dessa forma, a purificação, da mente e do coração, é

essencial. Escrevemos a respeito da mente e do coração,

ainda que saibamos que, na teologia patrística, estes dois

termos são utilizados indistintamente. Voltaremos a essa

questão noutro capítulo.

São Máximo dividiu a vida espiritual em três estágios,

que são: a filosofia prática ou praxis; a theoria natural ou,

simplesmente, theoria e a teologia mística ou,

simplesmente, teologia. A primeira purifica a pessoa das

paixões e adorna-a de virtudes; a segunda ilumina a sua

mente com o conhecimento verdadeiro e a terceira coroa-a


29


com a mais alta experiência mística, à qual São Máximo

chamou de “êxtase”. Essas três partes constituem os

estágios fundamentais no caminho da salvação pessoal do

homem. Deve-se notar, inclusive, que muitos Padres

distinguem estes três estágios na vida espiritual: a filosofia

prática ou a purificação do coração, a theoria natural ou a

iluminação da mente e a teologia mística ou a comunhão

com Deus através da theoria.

De acordo com outra divisão, que aparece nos escritos

patrísticos, a vida espiritual é dividida em praxis e theoria,

sendo que a primeira precede sempre a segunda, que é a

visão de Deus. “A praxis é a padroeira da theoria”. Duma

forma mais analítica, “a praxis, naquilo que se refere ao

corpo, consiste no jejum e na vigília, assim como a boca está

para a salmodia. Mas orar é melhor do que salmodiar e o

silêncio é mais valioso do que a fala. No caso das mãos, a

praxis é o que elas fazem sem reclamar”. Quanto à theoria,

“ela é a visão da mente; a fim de se admirar e compreender

o que foi e o que será”.

Certamente, de acordo com o ensinamento de São

Máximo, a theoria não é independente da praxis. “A praxis

não é segura sem a theoria, nem esta é verdadeira sem

aquela. Pois a praxis deve ser inteligente e a theoria deve

ser eficaz”. Ele enfatizou que, “no caso dos mais instruídos,

a theoria precede a praxis, enquanto que, para os mais

simples, a praxis vem em primeiro lugar”. Nos dois casos,

porém, o resultado é bom, pois ambas conduzem ao mesmo

resultado, que é a purificação e a salvação do homem.

De facto, ao falarmos em purificação da alma,

queremos dizer, principalmente, libertá-la das suas

paixões, ou antes, transformar essas paixões. Mais do que

isso, a purificação implica, também, um “desenvolvimento

uniforme” do ser humano, que conduz à iluminação da

mente. Portanto, a purificação não é apenas negativa, mas


30


também positiva. As qualidades da alma pura são “a

inteligência desprovida de inveja, a ambição livre de

malícia e um incessante amor pelo Senhor da glória”.

Noutras palavras, se estivermos motivados pela inveja, se a

nossa ambição contiver malícia e se o nosso amor por Deus

for intermitente, isso significa que o nosso coração ainda

não foi purificado.

A mente é aquilo que foi feito à imagem de Deus. Nós

desfiguramos esta imagem com o pecado e agora ela deve

ser restaurada. Foi assim que Abba Doróteo ordenou-nos:

“Tornemos a nossa imagem tão pura quanto a recebemos”.

Devemos sofrer trabalhos e uma intolerável amargura até

que purifiquemos a mente, “este rafeiro que fareja à volta

do talho e que se alegra na balbúrdia”. Se um homem luta

para não cometer pecados e debate-se contra os

pensamentos passionais, ele é humilhado e despedaça-se


durante a luta, “mas os sofrimentos do combate purificam-

no pouco a pouco, trazendo-o de volta ao seu estado


natural”. Apesar do esforço do homem, se o Espírito Santo

não descer sobre ele, a mente, que está morta, não poderá

ser purificada e trazida à vida, porque “somente o Espírito

Santo é que pode purificar a mente”.

Em qualquer caso, quando, por meio dum trabalho

conjunto da graça divina e da vontade do homem, a mente

é purificada, ela se ilumina, uma vez que “onde há

purificação, há iluminação”. Depois de purificada, se a

pessoa resguardar a mente para que não seja desfigurada

pelo pecado, esta será iluminada e iluminará. É por isso que

a guarda da mente pode ser chamada de “produtora de luz

e de iluminação, iluminante e portadora do fogo”.

Em poucas palavras, podemos afirmar que a cura do

homem é, de facto, a purificação da mente, do coração e da

imagem; a restauração da mente ao seu estado de beleza

primordial e original e algo mais: a sua comunhão com


31


Deus. Quando a mente se torna um templo do Espírito

Santo, podemos dizer que a cura teve sucesso. Os que se

curam são os santos de Deus.

1.4. O método da terapia: o tratamento terapêutico

Tendo visto no que consiste o Cristianismo, qual o

caráter da teologia ortodoxa e o que é uma terapia,

devemo-nos voltar, agora, para o método de tratamento

terapêutico, que é o método da fé ortodoxa. Se demorámos

tanto para colocar o problema, devemo-nos esforçar, agora,

para fazer um inventário dos métodos utilizados para a

aquisição da pureza do coração, ou seja, para a cura. Pois

não existe mérito em listar os estados mais elevados, a


menos que possamos trazê-los à nossa consciência e aplicá-

los.


1.4.1. Como se dá a cura da alma?

Primeiro, devemos enfatizar a fé correta. Nós,

ortodoxos, damos grande importância à preservação da fé,

porque sabemos que quando esta é distorcida, também a

cura é, automaticamente, distorcida. Já enfatizámos que a

teologia deve ser interpretada como uma medicina. A

ciência médica tem em vista a pessoa saudável, quando

tenta guiar a pessoa enferma para a saúde mediante os

vários métodos terapêuticos. O mesmo podemos dizer a

respeito da teologia. Ela é o ensinamento da Igreja sobre a

saúde espiritual, mas também versa sobre o caminho que

nós, os doentes, devemos seguir para sermos curados. É

por isso que nós, os ortodoxos, damos tanto valor em

manter a doutrina intacta, não apenas porque tememos o

enfraquecimento do ensino e da transmissão, mas porque

podemos perder a possibilidade da cura e, portanto, da

salvação. Ademais, “o conflito entre Palamas e Barlaão não

foi tanto sobre o tipo da doutrina, mas sobre a sua


32


fundamentação metodológica. Barlaão baseava-se numa

metafísica e numa epistemologia lógica, enquanto Palamas

tinha o seu fundamento numa verificação empírica e na

confirmação de resultados demonstráveis”.

Mas, para sermos curados, é essencial que nos

sintamos doentes. Quando uma pessoa enferma não tem a

consciência da sua moléstia, não irá à procura dum médico.

O autoconhecimento é, assim, um dos primeiros passos

para a cura. São Máximo ensinou-nos: “A pessoa que

chegou a entender a fraqueza da natureza humana,

adquiriu, por isso mesmo, uma experiência do poder

divino” e, assim, torna-se ávida por adquirir novas coisas

além das que adquiriu por intermédio desse poder divino.

Pedro de Damasco, ao descrever o grande valor da oração

noturna, disse: “A prática das virtudes morais é efetuada

pela meditação sobre aquilo que aconteceu durante o dia”,

ou seja, quando meditamos a respeito dos deslizes

ocorridos “na confusão do dia, de modo que, no repouso da

noite, possamo-nos tornar conscientes dos pecados

cometidos e afligir-nos por causa deles”. Somente quando

conhecemos o nosso estado, podemo-nos afligir por ele.

É indiscutível que muitos cristãos, hoje em dia, não

estão conscientes da sua condição espiritual. Nós estamos

mortos pelo pecado mas, não apenas não percebemos isso,

como ainda cremos estar cheios dos dons do Espírito Santo,

adornados de virtudes. Desafortunadamente, essa

autossatisfação, que está presente em nós mesmo quando

estamos cheios de chagas, está a destruir o trabalho da

salvação. Como pode Cristo falar a alguém que se

autojustifica? Somos como o Fariseu do tempo do Senhor,

que não sentia a necessidade dum médico. Como pode o

grande dom do arrependimento e do enlutamento habitar

num coração que não sente a sua desolação, quando a sua

vida interior é incapaz de se desenvolver?


33


Em conexão com a sensação de estar doente, deve

existir também uma “autocondenação”, ou seja, o grande

dom da autocrítica. Isso mostra que existe humildade na

alma, pois “a autocrítica está sempre associada com a

humildade”. Essa autocrítica é uma responsabilidade

espiritual que, quando colocada na alma, “esmaga,

pressiona e espreme o vinho que regozija o coração do

homem, vale dizer, do homem interior. A compunção é esse

vinho”. A autocrítica, juntamente com o enlutamento que a

caracteriza, também esmaga as paixões e enche o coração

com a mais ditosa felicidade. “Devemos sempre condenar e

criticar a nós mesmos, de modo a que, por meio duma

humilhação deliberadamente escolhida, possamo-nos

proteger do pecado da presunção”.

Mas a sensação de estar doente não é suficiente em si.

Em qualquer caso, o terapeuta será necessário. Esse

terapeuta é o padre ou o pai espiritual. Ele já foi curado das

suas aflições ou, no mínimo, luta para curar-se e, assim, é

capaz de curar os seus filhos espirituais. Já dissemos que o

pai espiritual deve ser um teólogo e vice-versa. Mas, nesse

caso, aplica-se o ditado: “Médico, cura-te a ti mesmo[24]”.

Alguém que conseguiu passar pelas armadilhas do diabo

pode, com segurança, guiar o seu filho espiritual. Alguém

que sabe o valor do imenso tesouro chamado saúde

espiritual pode ajudar os outros a curarem-se. Alguém que

encontrou a sua própria mente pode ajudar os outros a

fazer o mesmo. “A mente, que é como um verdadeiro

médico, é aquela que primeiro curou a si mesma e que, a

partir de então, passou a curar, nos outros, as doenças das

quais ela própria curou-se”.

Muitos cristãos contemporâneos veem padres e

ministros do Altíssimo como oficiais da Igreja que são úteis

em diversos assuntos burocráticos, que celebram os

diferentes sacramentos quando são chamados para tal ou

que celebram a Divina Liturgia e, desse modo, satisfazem as


34


necessidades das suas almas ou cumprem um dever

tradicional. Eles são vistos como mágicos que operam a

magia! Sabemos, é claro, que a graça de Deus não é

transmitida mágica ou mecanicamente, mas

sacramentalmente. É verdade que até o mais indigno dos

sacerdotes pode celebrar os sacramentos – mas ele não

pode curar. Pois a remissão dos pecados é uma coisa e a

cura é outra. Muitos cristãos ficam satisfeitos com uma

confissão formal ou um acompanhamento formal da

Liturgia, ou mesmo com uma Comunhão formal e nada

mais. Eles não se preocupam com a cura das suas almas.

Mas os padres, os pais espirituais, não apenas celebram a

Comunhão como também curam as pessoas. Eles possuem

um sólido conhecimento a respeito do caminho da cura das

paixões e transmitem-no aos seus filhos espirituais. Eles

mostram-lhes como se livrar do cativeiro, ou seja, de que

modo a sua mente pode ver-se livre da escravidão.

Eis como os santos Padres encaravam a paternidade

espiritual. O pastor é, também, um médico. “O médico é

alguém cujo corpo está perfeito, que não necessita de

curativos”. São João Clímaco foi bastante específico em

relação ao que o padre deve fazer para curar: “Ó homem

maravilhoso, adquire emplastros, poções, navalhas,

colírios, esponjas, instrumentos para a sangria e a

cauterização, unguentos, poções para dormir, facas,

ligaduras, algo contra a náusea (repulsa ao fedor das

feridas). Se não colocarmos essas coisas em uso, como

poderemos praticar a nossa ciência? É impossível, porque

um médico não recebe o seu pagamento pelas suas

palavras, mas pelos seus feitos”.

“Um emplastro é uma cura para as paixões exteriores,

ou seja, as paixões corporais. Uma poção é uma cura para

as paixões interiores, para drenar as impurezas invisíveis.

Uma navalha é a humilhação que morde, mas que purifica

a putrefação da empáfia. O colírio serve como um castigo


35


cáustico, que traz uma cura rápida. A sangria é uma

drenagem para as purulências ocultas. Ela é, também, um

instrumento que constitui, eminentemente, um remédio

intenso e breve para a salvação dos doentes. Uma esponja

é usada após a sangria para aliviar e refrescar o paciente

com as palavras gentis, delicadas e ternas do médico. A

cauterização é uma regra de penitência dada com amor ao

pecador por um período definido de arrependimento. Um

unguento é um tranquilizante oferecido ao paciente como

algumas palavras ou uma breve consolação após a

cauterização”.

“Uma poção para dormir é o que usamos para aliviar o

peso duma pessoa e, por intermédio da obediência, dar-lhe

o descanso, o sono da vigília e uma sagrada cegueira em

relação às suas próprias virtudes. As ligaduras servem para

atar e fortalecer aqueles que estão nervosos e debilitados

pela vanglória. O último instrumento é a faca, que é uma

sentença ou um decreto para cortar fora o membro pútrido

e um corpo morto na alma para que não contagie todo o

resto”.

“Abençoada e louvável é a resistência à náusea por

parte dos médicos, como é a imparcialidade entre os

pastores. Os primeiros, ao evitar a náusea, esforçam-se

incansavelmente para dissipar o fedor. Os últimos serão

capazes de restaurar a vida à toda alma fenecida”. O Padre

João escreveu ainda: “Assume-se que, acima de todos os

outros terapeutas, quem guia os enfermos para esses

estágios de terapia são os bispos e os sacerdotes, sendo que

os primeiros, dum modo geral, são egressos do

monasticismo. Hoje, porém, depois de um século duma

catastrófica propaganda neo-helenística contra o

hesicasmo, esse tipo de clérigo é raro. Existem poucos

monges hesicastas. O sacerdócio, tal como descrito por

Dionísio, o Areopagita, praticamente desapareceu”.


36


Finalmente, o sacerdote terapeuta recomenda,

também, ao seu filho espiritual um caminho, o da devoção

ortodoxa. Veremos, a seguir, o método por meio do qual a

pessoa doente poderá obter a sua cura, sob a orientação do

seu pai espiritual.

Queremo-nos ater, em especial, ao ascetismo. “A

poderosa prática do autocontrolo, do amor, da paciência e

da perseverança destruirá todas as paixões em nós

ocultas”. Nicetas Sthethatos, discípulo de São Simeão, o

Novo Teólogo, descreveu essa prática ascética. O homem

possui cinco sentidos, de maneira que as práticas ascéticas

são também em número de cinco: a vigília, o estudo, a

prece, o autocontrolo e a hesiquia. O asceta deve combinar

os seus cinco sentidos com essas cinco práticas: a visão com

a vigília, a audição com o estudo, o olfato com a prece, o

paladar com o autocontrolo e o tato com a hesiquia. Ao

obter sucesso com essas cinco ligações, “ purificará,

rapidamente, a mente da sua alma e, por esse refinamento,

torná-la-á desapaixonada e lúcida”.

Em poucas palavras, podemos dizer que a prática do

ascetismo consiste em aplicar as leis de Deus, os Seus

mandamentos. O esforço que fazemos para subordinar a

vontade do homem à vontade de Deus e para transformar

aquela por meio desta, chama-se ascese. Estamos cientes, a

partir dos ensinamentos dos nossos santos Padres, que

todo o Evangelho consiste em “preceitos de salvação”. Tudo

o que está contido nas Escrituras são mandamentos de

Deus, que devem ser observados por aqueles que buscam a

sua salvação. Isso está bastante claro nas Beatitudes[25].

“Bem-aventurados os pobres em espírito” é o

mandamento do Senhor que devemos observar para a

nossa pobreza espiritual, ou seja, para que possamos

experimentar a nossa miserabilidade. “Bem-aventurados


37


os que choram” é o mandamento do Senhor para que

choremos sobre as paixões que existem em nós, para que

choremos sobre a nossa desolação. “Bem-aventurados os

que têm fome e sede de justiça” é o mandamento do Senhor

sobre a fome e a sede que precedem a comunhão com Deus.

“Bem-aventurados os puros de coração” é o mandamento

de Cristo para que purifiquemos os nossos corações.

Quando Ele nos diz “bem-aventurados”, é como se nos

dissesse: “Tornai-vos pobres, chorai, sede sedentos por

justiça” e assim por diante.

Portanto, os mandamentos de Cristo consistem numa

prece incessante, numa celebração da Divina Liturgia,

numa vigilante atenção sobre a mente, na pureza do

coração etc. “A lei é santa e o mandamento é santo, justo e

bom [26]”. João Evangelista, o discípulo do amor, enfatizou

aos cristãos: “Sabemos que conhecemos Deus por isto: se

guardamos os Seus mandamentos. Quem diz: “Conheço-O”,

mas não guarda os Seus mandamentos é um mentiroso e a

verdade não está nele; ao passo que quem guarda a Sua

palavra, nesse é que o amor de Deus é verdadeiramente

perfeito; por isto reconhecemos que estamos Nele[27]”. O

mesmo Evangelista enfatizou com toda a autoridade: “Pois

este é o amor de Deus: que sigamos os Seus mandamentos”.

De acordo com Dionísio, o Areopagita, “o objetivo da

nossa hierarquia é tornarmo-nos, o tanto quanto possível,

semelhantes a Deus e unidos a Ele. Mas a Escritura nos

ensina que o nosso desejo somente terá sucesso através da

amorosa observância aos mandamentos e da realização

dos serviços divinos”. São Gregório Palamas ensinou-nos

que o conhecimento das coisas criadas vem por meio das

ações virtuosas. Quando perguntado a respeito da

finalidade dessas ações, ele escreveu: “A união com Deus e

a semelhança com Ele”. Realizar ações virtuosas liga-se à

observância dos mandamentos. O santo hesicasta

observou, ademais, que o amor por Deus “vem somente por


38


intermédio da sagrada realização dos mandamentos

divinos”.

A seguir, gostaria de mencionar alguns preceitos dos

Padres a respeito do valor dos mandamentos. “O propósito

dos mandamentos do Salvador é o de libertar a mente do

ódio e da dissipação[28]”. Os mandamentos de Deus

“excedem todos os tesouros do mundo. O homem que

recebeu a sua posse interior encontra o Senhor[29]”.

“Manter os mandamentos de Deus gera a impassibilidade

da alma e esta preserva o conhecimento espiritual[30]”. A

obediência aos mandamentos de Deus “é a ressurreição dos

mortos[31]”.

São Gregório, o Sinaíta, ao descrever os dois modos

através dos quais o Espírito Santo opera e que recebemos,

secretamente, no Santo Batismo, considerou a observância

dos mandamentos como um deles: “Quanto mais

conservamos os mandamentos, mais se manifesta a

brilhante luz do Espírito Santo em nós[32]”.

Todas essas coisas mostram o quão essencial é a vida

ascética para a cura e a restauração da alma. Como

dissemos, essa vida consiste, basicamente, na observância

dos mandamentos de Cristo, o nosso Salvador. Os

mandamentos básicos, que afetam a nossa cura espiritual –

conforme os Tropários que cantamos na Igreja – são os

jejuns, as vigílias e as preces.

Se a esmola cura o poder insensível da alma e a prece

purifica a mente, o jejum enfraquece o desejo sensual, de

modo a que toda a alma ofereça-se curada a Deus. O jejum

também torna o corpo mais humilde: A provação de comida

mortifica o corpo do monge. Mas o jejum em excesso não

apenas enfraquece o corpo, como ainda faz com que a

faculdade contemplativa da alma desanime e tenha

dificuldades de concentração.


39


São João Clímaco falou a respeito do jejum: “Jejuar é

fazer violência contra a natureza. O jejum deve ser dirigido

contra tudo o que agrada ao paladar. Ele acaba com a

luxúria, desenraíza os maus pensamentos e liberta dos

sonhos diabólicos. Ele permite a pureza na oração, uma

alma iluminada, uma mente alerta e a libertação da

cegueira. Ele é a porta da compunção, dos suspiros de

humildade, da contrição alegre e acaba com a tagarelice,

fazendo-se uma ocasião para o repouso da mente, para a

custódia da obediência, para a iluminação do sono e a saúde

do corpo, sendo ainda um agente da impassibilidade e da

remissão dos pecados: uma porta para as delícias do

Paraíso”.

Todas essas coisas que mencionámos, por um lado,

mostram o âmbito do jejum e, de outro, indicam os frutos

que obtemos quando a alma se esforça. É por isso que todos

os santos amavam o jejum. É importante mencionar que,

quando uma pessoa começa a se arrepender, começa,

também, a jejuar por si mesma, o que mostra que o jejum

acompanha a oração e o arrependimento.

É claro que o jejum é um meio e não um fim, “é uma

ferramenta para treinar os que desejam o autocontrolo”;

porém, sem essa ferramenta, é quase impossível dominar

as paixões e alcançar a impassibilidade. São João Clímaco

foi claro a esse respeito. Assim como os hebreus se

libertaram do faraó e celebraram a Páscoa depois de comer


ervas amargas e pão sem fermento, também nós devemo-

nos libertar do nosso faraó interior através do jejum e da


humildade: “Não deveis vos enganar. Não escapareis do

Faraó, nem vereis a Páscoa celeste, a menos que comais

constantemente ervas amargas e pão sem fermento: as

amargas ervas do trabalho árduo e o pão sem fermento da

mente que se humilha”. É essencial manter os jejuns fixados

pela Igreja e tentar, sempre, não satisfazer, por inteiro, os

desejos da carne.


40


Além do jejum, outro meio de cura é a vigília. Ao

manter a vigília, que é também um método ascético de

terapia, a pessoa é purificada e curada das paixões. O

Senhor disse-nos para que orássemos à noite e Ele próprio

passava noites inteiras na montanha. “E, após ter

despedido as multidões, dirigiu-se, sozinho, à montanha,

para rezar. E quando chegou a manhã, ainda estava lá[33]”.

Os santos Padres experimentaram, nas suas vidas, o

efeito benéfico das vigílias. Santo Isaac disse nos seus

escritos ascéticos: “O monge que persevera na vigília, com

uma mente atenta, não será visto como coberto de carne,

porque esse é um trabalho do estado angélico”. Uma alma

que trabalha e que se excede na prática das vigílias “terá os

olhos do Querubim e poderá sempre olhar e contemplar as

visões celestiais”.

São João Clímaco, com a sua delicadeza característica,

apresentou-nos o modelo do monge desperto e os

benefícios da vigília: “Uma atitude alerta mantém a mente

limpa. A sonolência ata a alma. O monge alerta luta contra

a fornicação, enquanto o sonolento se deixa levar por ela. O

alerta extingue a luxúria, liberta-se das fantasias, mantém

os olhos em lágrimas, suaviza o coração e torna-o gentil,

domina os pensamentos, digere os alimentos, vence as

paixões, sujeita os espíritos, controla a língua e afasta as

imaginações ociosas. O monge vigilante é um pescador de

pensamentos que, na calada da noite, pode observá-los e

capturá-los”.

A prece acompanha a vigília. Este é o método, por

excelência, que cura as moléstias da alma. Pois muitas

graças alcançam a alma do homem por intermédio da

prece. Mais adiante veremos a prece noética como um

método para libertar a mente e ver Deus, no capítulo

denominado “A hesiquia como um método de terapia”.

Consideramos ser esse o mais importante meio para a


41


salvação do homem. Existem, ainda, outros meios

terapêuticos de cura para todas as paixões da alma.

Trataremos disso mais adiante, porém, no capítulo

denominado “Patologia Ortodoxa”.

Talvez o leitor esteja a pensar que todos esses métodos

terapêuticos, que são bálsamos para o olho do coração[34],

somente podem ser praticados pelos monges. Isso não é

verdade. Qualquer um, mesmo os que vivem no mundo,

pode viver segundo os mandamentos de Cristo. A prece, o

arrependimento, as lamentações, a compunção, o jejum, a

vigília e tudo o mais são mandamentos de Cristo, o que

significa que todos podem viver segundo os mesmos. Cristo

nunca disse coisas que fossem impossíveis para o homem.

São Gregório Palamas, ao falar sobre a pureza do coração,

enfatizou que “é possível, mesmo para aqueles que são

casados, buscar essa pureza, embora com muito mais

dificuldade”. Toda pessoa pode desenvolver uma vida de

acordo com o Evangelho, fazendo para si o correspondente

ajuste.

Acima de tudo, se existir um bispo e a Divina Liturgia,

isso significa que a salvação é possível. Afinal, porquê a

Igreja existe e funciona? Há, também, uma aplicação

apropriada dos mandamentos de Cristo para cada pessoa.

Na literatura patrística, encontramos muitos desses casos.

Os Padres, eles próprios tendo sido curados, adquiriram a

graça do discernimento e aconselharam a cada pessoa

sobre como encontrar o seu caminho, o qual é,

essencialmente, o caminho da tradição ortodoxa.

São João Clímaco foi característico a esse respeito. Ele

conta ter visto um médico estúpido a desonrar e levar ao

desespero um homem doente, que se apresentava contrito

e com o espírito humilde. Ao mesmo tempo, ele viu outro

médico espiritual “inteligente” operar um “coração

arrogante” com a faca da desonra e, assim, drenar deste


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todo o fedor pecaminoso. Ele também disse ter visto o

mesmo homem enfermo tratar as suas impurezas com os

remédios da obediência e, às vezes, curar “o olho doente da

sua alma” através do repouso e do silêncio. Fica claro,

assim, que o mesmo homem enfermo precisava da

obediência, num dado momento, e do repouso e do silêncio,

em outro. O remédio apropriado deve ser ministrado no

tempo apropriado.

Confessor criterioso, o mesmo santo disse: “O remédio

para um homem pode ser o veneno para outro”. E mais, o

mesmo preparado, para a mesma pessoa doente, pode ser,

num momento, um remédio e em outro, um veneno.

Quando ministrado no momento oportuno, serve como

remédio, mas, no tempo errado, torna-se um veneno. Assim

é que enfatizamos, uma vez mais, que um terapeuta

Ortodoxo criterioso (médico-confessor) é essencial para

ajustar a medicação e fornecer a orientação terapêutica

adequada.

A seguir, gostaria de apresentar alguns ditos dos

Padres do deserto, nos quais fica claro que existe uma

variedade de práticas ascéticas, com grandes

possibilidades de ajustes.

Alguém perguntou a Santo António: ”Quais boas obras

poderei realizar?”. Ele respondeu: “Não são todas as boas

obras iguais entre si? A Escritura diz-nos que Abraão era

hospitaleiro e que Deus estava com ele. David era humilde

e Deus estava com ele. Elias amava a paz interior e Deus

estava com ele. Assim, faz o que a tua alma desejar, de

acordo com Deus, e guarda o teu coração”.

João de Tebas disse: “Três obras ganham aprovação

aos olhos do Senhor: a primeira, quando um homem está

doente, as tentações caem sobre ele e ele as recebe com

gratidão; a segunda, quando alguém realiza as suas obras

apenas na presença de Deus, sem buscar nada humano; e a


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terceira, quando alguém é submisso ao seu pai espiritual

em completa renúncia à sua própria vontade. Esta última

receberá, ainda, uma eminente coroa”. Ele acentuou:

“Quanto a mim, escolhi a doença”.

Do mesmo modo, o Abade Pémen disse: “Se três

homens estiverem no mesmo lugar e um deles preservar a

sua paz interior, o segundo agradecer a Deus pela sua

enfermidade e o terceiro o servir com uma mente pura, os

três terão realizado a mesma obra”.

A partir desses exemplos, podemos ver que a luta do

homem é comum a todos, mas que existem diferentes

modos de lutar. Todos devem guardar as palavras de Deus

e os Seus mandamentos, todos devem guardar a pureza dos

seus corações enquanto estiverem a trabalhar. Não

obstante, existe uma variedade de aplicações que o pai

espiritual pode fazer.

Pode ser considerada uma falta não termos listado a

Santa Comunhão como um tratamento terapêutico. Mas

devemos sublinhar e enfatizar o facto de vermos a

Eucaristia, a comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo,

como indispensável ao homem. O Senhor enfatizou: “A

menos que comais a carne do Filho do homem e bebais o

Seu sangue, vós não tereis a vida[35]”. Mas é sabido que a

Santa Comunhão é precedida pela purificação e

preparação. Se a terapia sobre a qual falamos não vier

antes, então a receção do Corpo e do Sangue de Cristo

acarretará “juízo e condenação”. A eclesiologia e a

escatologia não podem ser compreendidas sem a prática

terapêutica. Assim, não estamos a subestimar a Santa

Eucaristia, mas, ao enfatizar o valor da prática ascética e da

terapia, exaltamos o grande dom da Eucaristia. Por outro

lado, o objetivo daquilo que escrevemos é, principalmente,

o de esclarecer o caminho preciso que termina no altar, de

modo a que a Santa Comunhão torne-se a luz da vida.


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Espero que estas poucas palavras tenham mostrado,

com clareza, que o Cristianismo é uma ciência terapêutica.

Ele cura as pessoas doentes. Esta doença manifesta-se na

mente. A Igreja, através dos seus ensinamentos, do seu

culto, da sua ascese e dos seus sacramentos, liberta a mente

e torna-a um Templo do Espírito Santo. Esse caminho

terapêutico foi aplicado e confirmado por todos os santos.

É o único caminho que conduz a Deus. Acredito que a perda

da tradição deve ser vista como o principal motivo da perda

do método terapêutico e do surgimento dos terapeutas

atuais. O retorno ao caminho da Tradição Ortodoxa é,

essencialmente, o caminho de volta para esses dois

fundamentos.





[1] A edição inglês, que serviu de base para esta tradução,

não contém as referências mencionadas.

[2] Basílio Magno; Gregório, o Teólogo e João Crisóstomo.

[3] Prólogo dos editores, Filocalía Grega, pg. 9.

[4] Filocalía Grega I, pg. 1-11.

[5] I Coríntios 11: 27-30.

[6] Mateus 16:18.

[7] Colossenses 1:18.

[8] I Timóteo 3:15.

[9] Tiago 1:26-27.

[10] Lucas 10:33 ss.

[11] Salmo 38:5.

[12] Mateus 9:12.

[13] Mateus 4:23 ss.

[14] I Coríntios 8:12.

[15] Apocalipse 22:1 ss.

[16] I Coríntios 12:8.

[17] Romanos 5:19.


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[18] Mateus 23:36.

[19] Atos 15:8 ss.

[20] II Coríntios 7:1.

[21] Hebreus 9:14.

[22] I Timóteo 3:9.

[23] I Pedro 1:22.

[24] Lucas 4: 23.

[25] Mateus 5:1

-12.

[26] Romanos 7:12.

[27] I João 2:3

-5.


[28] Máximo, o Confessor, Filocalía

.

[29] Isaac, o Sírio, Homilias Ascéticas.

[30] Talássis, Filocalía

.


[31] Ibid.

[32] Filocalía 4.

[33] Mateus 14:23.

[34] Cf. Apocalipse 3:18.

[35] João 6:53.

San Nicodimo Aghiorita


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