segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ainda sobre budismo, Olavo e Dalai Lama

O que Buda disse. E o que não disse.

Por Leo Basile

O sr. Olavo de Carvalho, filósofo a quem respeito por muito mais do que uma opinião, não sendo à toa o fato de seu site estar linkado neste blog, dá mostras de não compreender o budismo, o que é uma enorme pena! Em um artigo (“Meus caros críticos II” - www.olavodecarvalho.org/semana/120204msm.html) no qual responde a seu crítico Júlio Lemos, Olavo afirma não haver contradição em associar budismo e socialismo, isso porque há alguns anos o Dalai Lama se declarou marxista em termos políticos e sociais.
Ora, Olavo bem deve saber que não é porque uma pessoa - no caso o Dalai Lama, por mais que este seja o líder budista - dá uma declaração a respeito de suas concepções, que isso basta para que seja possível associar filosofias tão amplamente antagônicas quanto o budismo e o marxismo. A contradição em questão deve recair inteiramente sobre o Dalai Lama que, isso sim, cometeu um tremendo equívoco, tanto mais grave na medida em que os budistas tibetanos sofrem perseguição execrável do governo comunista chinês, assim como ocorre com os seguidores de Buda por parte do poder instituído em Mianmar.
A filosofia budista é totalmente fundada em princípios morais, no autodomínio, princípio que põe o indivíduo em primeiro plano, e na compaixão, elementos notoriamente contrários ao marxismo. Aqueles que tentam limpar a teoria de Marx das relações claras com a violência, com o ódio de classe e com os genocídios perpetrados pelas experiências nela inspiradas, assim como o Dalai Lama, estão a incorrer em contradição. Sobretudo no que tange às questões de fundo moral, é preciso ser dito, o budismo oferece reflexões muito mais precisas do que o cristianismo, do qual a mácula da Inquisição não pode ser apagada.
Como um filósofo que guarda lugar tão importante e justo para as discussões envolvendo a imaginação moral e conhecedor da obra de Irving Babbitt, o mais brilhante diálogo de um pensador ocidental com os ensinamentos de Buda, me parece bastante estranho que Olavo endosse qualquer aproximação entre budismo e socialismo. Prefiro acreditar que ele tenha feito tal afirmação somente no afã de responder a seu adversário e, como também é de seu conhecimento, inclusive mencionado no artigo em questão, existem contradições no pensamento dos teólogos da libertação, que produzem uma mescla esdrúxula entre cristianismo e marxismo. Quem já não foi pego de assalto ao ouvir a máxima: “Jesus Cristo era comunista”? Nessa caso, quem estaria se contradizendo, o cristianismo ou os teólogos da libertação?! Se deixarmos de apontar que o equívoco é destes, seríamos obrigados a não enxergar contradição na associação entre cristianismo e marxismo.
Para finalizar, cabe deixar claro que os milenares ensinamentos de Buda não devem jamais ser confundidos com as pseudofilosofias pós-modernas que estiveram em moda até pouco tempo, hoje já merecidamente padecendo do esquecimento, tais quais o transcendentalismo zen e o misticismo oriental, cujo principal guru é o sr. Fritjof Capra, defensor do irracionalismo, o que se mantém em completa oposição ao budismo, filosofia essencialmente racional. Como mostrou tão bem o historiador Robert Darnton, essa linha de pensamento é responsável por uma patética idealização do Oriente, aquela velha forma essencialista que cria um abismo tolo e intransponível entre ele e o Ocidente (poucos são os que se lembram que o cristianismo surgiu no Oriente). Curiosamente, no mesmo artigo que eu trouxe à baila, Olavo cita palavras do economista Cláudio de Moura Castro, segundo as quais os brasileiros (e acrescento: não apenas eles) não leem o que um autor escreve, mas sim o que imaginam que ele pensou. A asserção é absolutamente correta e vale tanto para o Dalai Lama e o budismo, como para qualquer outra filosofia.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Olavo de Carvalho pensava que a Filosofia começou com os gregos, ignorando a intensa atividade filosófica existente na India antes mesmo de Sócrates. Dizer o que merece ou não ser considerado filosofia é algo bem complicado.
    A afirmação de que não há contradição em associar budismo e socialismo é de uma temeridade sem tamanho.
    Budismo pressupõe liberdade individual e de consciência. Na sociedade em que viveu Sidarta Gautama isto não era motivo de preocupação pois ele teve toda liberdade de contestar a doutrina brâmane e, talvez por isso, nunca se preocupou com esta questão. Por óbvio, atualmente qualquer um que compreenda o budismo de pronto reconhecerá o valor de um sistema político que respeita a liberdade individual, que jamais será o socialismo.
    Por último, o Dalai Lama anterior ao atual tinha clara consciência de quão nocivo era o marxismo. O atual, infelizmente, fez a besteira de querer agradar ao PCCh, talvez com a intenção de diminuir a perseguição aos tibetanos, sem conseguir nada e ainda ter sua autoridade contestada pelos tibetanos no exílio.
    Parece que Tenzin Gyatso não aprendeu nada (ou esqueceu) sobre o que é o marxismo. Felizmente, ele não é o representante de todo o budismo, que é dividido em inúmeras escolas, é apenas o representante de uma das escolas do Tibet.

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