terça-feira, 15 de agosto de 2017

Budismo Teísta?

Sendo o incondicionado, perfeito, não nascido, mas sempre onipresente e onisciente, de onde e como surgiu a ignorância? A perfeição suprema não pode gerar a imperfeição, bem como a onisciência não pode gerar a ignorância a não ser por um ato de vontade. Se há ignorância, condições e mundo da ilusão onde antes só havia o incondicionado, não ilusão e não ignorância (e tal mundo tem começo, Buda, a ciência e Jesus afirmam também o mesmo) então tal mundo e seres só podem ter surgido da perfeição incondicionada e por um ato de vontade da mesma. Portanto o mundo foi criado e se foi criado pela plenitude da perfeição deve ter um propósito.
Buda nega um mundo criado por um deus perfeito. Mas o que significa deus na linguagem que Buda falava? Em qualquer dos idiomas da índia antiga não existia a palavra deus equivalente ao conceito que se tem hoje de deus em qualquer religião monoteísta. O único conceito parecido a um deus absoluto e mesmo assim não criador e sim emanador do universo é o definido na palavra Brahman, que não era chamado de deus como Brahma ou outros, mas de Eu supremo. Buda nega a existência de um eu permanente individual e de um eu superior individual, mas silencia quanto a um eu absoluto ou supremo no sentido monoteísta, aliás essa questão sequer foi proposta, nem mesmo a questão de uma personalidade de Deus como foi proposto por Krishna é aventada. Buda nega que Brahma criou criou o universo, ele também conhecia muito bem os conceitos brahmanistas como expostos nos upanishads pois a classe guerreira era instruída com a mesma doutrina dos brahmanes na época em que ele era ainda príncipe. Porém sabendo disso Buda não nega Brahman nem qualquer conceito semelhante a ele, pelo contrário ele se recusa a falar de tal tema. O que ele nega é que haja algum deus ou força criadora, coisa que não se pode dizer que o incondicionado seja a não ser no sentido de latência ou potência, conceito tão abstrato que nem a física esclarece por completo.
A perfeição e o incondicionado não podem produzir ao acaso ou por derivação ou automaticamente ou por qualquer outro meio a imperfeição e o incondicionado. A não ser que haja um ato voluntário. Para que haja um ato voluntário de algo incondicionado é preciso que haja ciência do ato, pois se não houvesse estaríamos retornando à afirmação de que o incondicionado produz mecanicamente ou por derivação natural ou por qualquer outro meio. Então está provado, sem necessidade de citar nenhum teórico ou texto budista zen ou jonangpa ou de qualquer outra tradição ou patriarca, que o budismo só pode ser teísta ou seria ilógico e impossível.

DIÁLOGO ENTRE PSICANÁLISE E ZEN

Diálogo  entre  psicanálise  freudiana  e  zen-budismo  a  respeito  do  eu, da  subjetividade,  e  da  identidade. Pedro  Rodrigo  Peñuela  Sanches;  Gilberto  Safra  (orientador) Instituto  de  Psicologia  -  Universidade  de  São  Paulo 1.  Objetivos A  atual  pesquisa  realizou-se  como continuação  da  pesquisa  apresentada  no  13º SIICUSP,  intitulada  "O  desejo  e  suas implicações  na  constituição  do  eu  conforme  o zen-budismo  e  a  psicanálise  freudiana",  de modo  a  manter  e  aprofundar  a  proposta  de diálogo  teórico  entre  psicanálise  e  filosofia  zenbudista.  Procurou-se,  nela  aprofundar  a investigação  a  respeito  das  noções  de  eu  e  de subjetividade  nos  dois  sistemas,  bem  como discutir  as  implicações  para  a  psicanálise  de um  debate  entre  as  concepções  de  Freud  e  as do  zen-budismo. 2.  Material  e  métodos Trata-se  de  pesquisa  bibliográfica  – semelhante  à  anterior  –,  cujo  método  consiste na  leitura  de  textos  e  posterior  articulação crítica  de  suas  idéias  de  acordo  com  o  recorte estabelecido. Concentrou-se  a  leitura  em  textos metapsicológicos  da  obra  de  Freud  (escritos entre  1900  e  1939),  e  em  textos  clássicos  do budismo  primitivo  e  do  zen-budismo. Além disso, foram realizadas entrevistas  com  psicanalistas  e  zen-budistas,  a fim  de  permitir  uma  reflexão  sobre  as implicações  das  noções  estudadas,  no cotidiano  de  pessoas  que  praticam  algum  dos dois  sistemas 3.  Resultados  e  conclusões parciais A  noção  de  eu  ao  longo  da  obra  de Freud  já  aparece  em  seus  primeiros  textos psicológicos  conceituada  principalmente  como uma  das  partes  em  tensão  no  conflito  psíquico. Desde  os  primeiros  textos  analisados, é  parte  fundamental  do  conflito  psíquico  o esforço  do  eu  para  desalojar  da  consciencia tudo  o  que,  ainda  que  também  o  constitua,  é contraditório  com  a  trama  identitária  construída e  amada  no  processo  narcísico.  É  nas  relações com  o  outro  que  em  grande  parte  o  eu  se constitui,  tendo  de  renunciar  ao  lugar  de  objeto narcísico,  erigindo  um  ideal  de  eu  a  perseguir, e  passando  a  ser  instância  defensora  da renúncia  à  satisfação  pulsional  imediata, promotora  do  processo  secundário,  e  do princípio  de  realidade.  Nesse  sentido,  é  à relação  com  os  outros  e  com  a  cultura  que  o  eu deve  sua  gênese  e  também  a  fonte  principal  de seu  conflito  com  sua  raiz  pulsional,  mas  é também  no  campo  dessa  relação  que  pode encontrar  formas  alternativas  de  algum  tipo  de integração  entre  sua  identidade  e  as  pressões pulsionais. No  budismo,  por  sua  vez,  procura-se desmantelar  a  noção  de  eu,  por  ser  entendida como  a  principal  das  ilusões  fontes  de sofrimento.  Na  argumentação  dos  textos clássicos  budistas  escritos  em  páli,  coloca-se que  o  a  ilusão  do  eu  nasce  da  ilusão  de  que algum  ou  todos  os  "cinco  agregados"  –  quais sejam, matéria, sensação, percepção, formações  mentais,  consciência  –,  constituem base  de  uma  identidade  permanente;  o  que,  na argumentação  budista  é  impossível,  na  medida em  que  estes  "agregados"  são  dependentes  de causas  e  condições  constantemente  mutáveis, não  tendo  portanto  nenhuma  solidez  ou  fixidez.   O  zen-budismo  introduz  um posicionamento  mais  paradoxal,  expresso  na frase  de  um  de  seus  fundadores,  Ehei  Dogen, de  que  "estudar  o  budismo  é  estudar  a  si mesmo;  estudar  a  si  mesmo  é  esquecer  de  si mesmo".  O  que  esse  sistema,  como desenvolvimento  histórico  do  budismo  inicial coloca  é  a  possibilidade  de  o  sujeito  constituirse  como  dotado  de  uma  ipseidade  ainda  que destituído  de  identidade  permanente.  Nesse sentido,  seria  possível  pensar  um  sujeito  que possa  agir  no  mundo  de  maneira  mais  livre  do esforço  neurótico  por  manter  a  coerência  com uma  identidade  mormente  imaginária.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O EVANGELHO E SUA AUTORIA

 Apologética do Novo Testamento - Universidade da Bíblia
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No período em que os evangelhos foram escritos, não existia a lei de copyright, que garante o direito exclusivo ao autor da obra de imprimir, reproduzir ou vender, enfim, de deter exclusivamente seus direitos autorais. Naquela época remota, sem o recurso da imprensa, quando os livros eram escritos com tintas em pergaminhos ou códices, mais de uma vez a obra de um autor foi atribuída a outro, devido às muitas semelhanças entre elas. E nem mesmo se fazia questão sobre esse assunto, que só ganhou relevância com o advento da imprensa. Por exemplo, Domenico Grasso fornece uma boa lustração a respeito, quando diz: “Durante séculos, acreditou-se que a obra sobre ‘hierarquia celeste’ fosse da autoria de Dionísio Aeropagita, convertido por São Paulo (At 17.34), enquanto se demonstrava pertencer a um filósofo neoplatônico do século 5o, comumente chamado ‘pseudodionísio’. Ainda hoje se discute a autenticidade de algumas obras da antiguidade clássica, conhecidas por Appendix Vergiliana e Epistolae ad Caesarem, atribuídas a Salústio. O problema da autenticidade de um documento é de enorme importância porque dela depende o seu valor”. E Domenico Grasso chega à seguinte conclusão em relação aos escritos sagrados neotestamentário: “O problema também é válido para os evangelhos. Quem são os seus autores?”. Existe alguma maneira de sabermos se esses evangelhos foram escritos pelos apóstolos? É bom frisar (e muitos desconhecem este fato) que nenhum dos evangelhos, como os conhecemos hoje, com os títulos de “Evangelho segundo São Mateus (kata Maththaion), São Lucas ou São João”, veio com a assinatura pessoal de seu autor. E, por conta dessa dificuldade, não podemos, apenas pelo recurso literário, saber quem os escreveu. No começo, os evangelhos eram anônimos. Mas isso não quer dizer que não sabemos, com certeza, quem foram seus autores verdadeiros. Por outro lado, repudiamos a idéia maldosa de que a Igreja tenha escolhido, aleatoriamente, tais nomes com o fim de dar autoridade a essas obras. Além disso, temos outra dificuldade: não possuímos os autógrafos (escritos originais) conforme saíram da pena dos apóstolos. Mas isso não é tão embaraçoso como muitos críticos pensam. Pode ser explicado satisfatoriamente por dois fatores básicos: O material no qual se escrevia, o papiro, era frágil, que logo se desgastava, portanto, os textos tinham de ser recopiados. Tais cópias eram feitas em rolo de papiro (planta) e, mais tarde, em códices (em formato de livro) com letras unciais (escritos em caracteres maiúsculos) ou em códices minúsculos. Os chamados lecionários (antologias de textos para uso litúrgico) vieram depois, também confeccionados em papiro e, posteriormente, em velino e pergaminho (pele de animais). As perseguições sofridas pelos cristãos, quando seus escritos sagrados estavam em constante perigo de ser destruídos. Assim, é provável que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se gastassem, desfazendo-se por completo. Os evangelhos, contendo o título-nome dos autores, vieram das cópias dos códices antigos. Os dois códices mais importantes do Novo Testamento são: o códice vaticano e o códice sinaítico. Se levarmos em consideração que tais códices vieram de todas as províncias do Império, desde o século 4o até o 9o, somando um total de mais de 4 mil, é incrível como a Igreja primitiva, em todas as partes, aceitou com unanimidade os autores dos quatro evangelhos sem contestação. Isso só pode ter ocorrido devido ao fato de que os títulos muito cedo foram partes integrantes dessas obras. Grasso ainda afirma: “Ninguém conhece um autor diferente daquele conhecido pelos outros. Se em alguma região viessem a saber que o autor de determinado evangelho não era o mesmo a quem se atribuía sua autoria em outro lugar, era coisa fácil de ser conhecida”. Todavia, nunca houve divergência no seio da Igreja sobre a autoria dos quatro evangelhos. É improvável até que esses livros tenham circulado durante décadas para somente no século 2o serem estereotipados pela Igreja. Poderia ter havido discordâncias, caso ninguém soubesse quem eram os autores de tais obras. O papirólogo Carsten Peter Thiede corrobora com essa opinião: “É inconcebível que alguém tivesse ousado inventar candidatos tão improváveis e tão pouco conhecidos como Marcos e Mateus (ou até mesmo Lucas), se estes não tivessem sido realmente os nomes dos autores — ou se, de alguma forma, não tivessem uma ligação direta com aqueles escritos”.
Para que possamos ter uma idéia de como era certa a tradição de a autoria dos evangelhos ser atribuída aos quatro evangelistas, nos basta tão-somente considerarmos o fato de que até mesmo os heréticos aceitavam, sem contestação, que a autoria dos evangelhos procedia, respectivamente, de Mateus, Marcos, Lucas e João. Irineu, em seu livro apologético, nos assegura que “o valor dos evangelhos é tão grande que recebe o testemunho até dos próprios hereges...”. Prosseguindo, ele diz “que cada um pretendia apoiar suas teorias particulares em um dos evangelhos. Por exemplo, a seita dos ebionitas tinha preferência pelo evangelho de Mateus. O herege Marcião, pelo de Lucas. Já os valentinianos se apegavam ao de João”. Pelo depoimento de Irineu, percebe-se que até mesmo os mais primitivos heréticos aceitavam Mateus, Marcos, Lucas e João como respectivos autores dos quatro evangelhos que levam os seus nomes. Além disso, temos o testemunho de outros pais da Igreja primitiva. O escritor e historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, em sua obra História eclesiástica, conserva fragmentos dos escritos de Papias, bispo de Hierápolis e escritor cristão do início do século 2o (c. 130 a.D.), que conheceu os discípulos dos apóstolos. Papias nos dá a seguinte informação quanto aos autores dos dois primeiros evangelhos: Mateus e Marcos. Quanto a Marcos, diz o seguinte: “Marcos, sendo o intérprete de Pedro, tudo o que registrou escreveu com grande exatidão, mas não na ordem em que foi falado ou realizado por nosso Senhor, pois ele não ouviu nem seguiu nosso Senhor, mas, conforme disse, esteve em companhia de Pedro, que lhe deu tanta instrução quanto necessária [...] Assim Marcos não errou em nada ao escrever algumas coisas como ele as recordava...”. Quanto a Mateus, escreve: “Mateus compôs sua história em dialeto hebraico e cada um traduzia segunda a sua capacidade”. Em 170, Irineu de Lião, refutando os hereges de seu tempo, menciona Lucas como autor do terceiro evangelho: “Ora, se Lucas, que sempre pregou e evangelizou com Paulo, que teve confiada a missão de sempre nos transmitir o evangelho...”. Por isso, D. A. Carson chega à seguinte conclusão: “... O único evangelho circulou cedo sob quatro formas distintas: ‘Segundo Mateus’ [...], sendo que a preposição apresenta a pessoa que se acreditava ser o seu autor”. Esses dados fornecem provas confiáveis que nos permitem afirmar com segurança que seus autores são verdadeiramente aqueles a quem são atribuídos. 4.1. Por Que Apenas Quatro Evangelhos? Entre os estudiosos da numerologia bíblica (a numerologia bíblica é apenas simbólica), o número quatro representa universalidade. Quatro são os pontos cardeais. Quatro são as estações do ano em todo o mundo. E quatro foram os impérios mundiais. O evangelho de Cristo também é transcultural, não se restringe a nenhuma raça, cor ou cultura específica, mas se estende a toda a criatura debaixo do céu em todos os tempos. Seu alcance é universal. Diz Josh MacDowell que os “quatro evangelhos haviam-se tornado tão axiomáticos no mundo cristão que Irineu pôde se referir a eles como um fato comprovado e reconhecido tal como os quatro pontos cardeais”. Vejamos o que disse Irineu: “Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que esses quatro. Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos [...] Por isso é evidente que o Verbo, Artífice de todas as coisas, que está sentado acima dos querubins [...] nos deu um evangelho quadriforme sustentado por um único Espírito”. Já bem cedo, em 160 d.C, um cristão chamado Taciano separou os quatro evangelhos em seu Diatessaron (expressão que significa “pelos quatro”). Assim se expressa Eusébio de Cesaréia a respeito: “Taciano, tendo formado certo corpo e coleção de evangelhos, não sei como, deu-lhes este título, Diatessaron, que é o evangelho dos quatro, ou o evangelho formado pelos quatro...”. 
Eusébio cita, ainda, outro escritor cristão do século 2o, Clemente de Alexandria (150- 215), que fala dos “quatro evangelhos transmitido até nós”, e conhece uma tradição segundo a qual foram escritos primeiramente aqueles que contêm a genealogia do Senhor, isto é, Mateus e Lucas. Clemente também dá a tradição a respeito da ordem dos evangelhos, conforme transmitida pelos presbíteros mais velhos: “Ele diz que os que contêm as genealogias foram escritos primeiro...”. Orígenes, um dos apologistas da fé cristã da segunda metade do século 2o, conhecia o nome dos quatro evangelistas e a ordem em que escreveram, como conhecemos hoje, a saber: Mateus, Marcos, Lucas e João. Tertuliano (160–223), advogado e apologista, ao escrever, no início do século 3o, contra Marcião, atesta o valor dos quatro evangelhos frente à heresia de Marcião, que só admitia o evangelho de Lucas. O Canon muratoriano também nos fala do reconhecimento dos quatro evangelhos pela Igreja romana. No prólogo de seu evangelho, Lucas deixa claro que, em sua época, já existiam outros escritos sobre a vida de Jesus: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1.1). Não obstante, cremos que Deus quis preservar somente quatro livros contendo a narrativa verdadeira, fiel e inspirada sobre a vida de Cristo. 4.2. Um ou Quatro Evangelhos? Já vimos o motivo pelo qual o Senhor Deus nos deu um evangelho quadriforme. Agora, estamos diante de outra incógnita: “o evangelho” ou “os evangelhos”? Como devemos denominar? Parece que o termo apresenta a mesma aparente dificuldade tal como aconteceu com a expressão “Escritura” ou “Escrituras”. No começo, era um termo geral, significando simplesmente escritos. Mais tarde, deu-se a designação mais precisa: “a Escritura” ou “as Escrituras”, para distinguir os escritos sagrados dos judeus. O apóstolo Pedro classifica alguns textos do apóstolo Paulo como “Escritura”. Paulo, ao escrever a Timóteo (1Tm 5.18), cita o evangelho de Lucas (Lc 10.7) e o livro de Deuteronômio (Dt 25.4), conferindo a mesma autoridade escriturística a ambos. Com respeito aos evangelhos, Carson elucida a questão ao dizer que “nenhum dos quatro relatos sobre o ministério de Jesus recebe no Novo Testamento o nome de evangelho [...] Talvez, perto do fim do século 1o, ou início do 2o, acrescentaram-se títulos aos relatos oficiais da Igreja sobre o ministério de Jesus. Foi certamente aí que se empregou ‘evangelho’ pela primeira vez para designar uma obra literária. [...] Não o evangelho por Marcos, mas o [único] evangelho, segundo [a versão de] Marcos...”. Parece que o uso que Marcos faz dessa palavra, já no início de sua obra (1.1), serviu para consagrar o termo como obra literária. Justino, o mártir (133 d.C.), foi o primeiro a empregar o termo “evangelho” para designar os relatos canônicos do ministério de Jesus. F. F. Bruce, ao comentar sobre os evangelhos, dá o parecer de que “já em data bem remota vieram os quatro evangelhos a constituir uma unidade integrada. E essa coleção de quatro documentos era originalmente conhecida como ‘o evangelho’, no singular, e não ‘os evangelhos’, no plural. Havia apenas um evangelho apresentado em quatro narrativas [...] Por volta de 115 a.D., Inácio, bispo de Antioquia, refere-se ao ‘evangelho’ como escrito revestido de autoridade, e, visto que conhecia mais de um dos quatro ‘evangelhos’, é provável que o título designe a coleção assim chamada, então”. Geralmente, dá-se o nome de “quatro evangelhos” aos primeiros livros do Novo Testamento. Antes do século 4o, todavia, a coleção era designada apenas pelo nome de “o evangelho”, distinguindo-se as diferentes formas por “segundo Mateus”, “segundo Marcos”, e assim por diante. 
Mas as expressões “evangelho de Mateus”, “evangelho de Marcos” e “evangelho de Lucas” são apenas nomenclaturas externas provenientes do século 2o. Na verdade, como já vimos, há um só evangelho apresentado em quatro formas, como bem atesta Agostinho em seu Sermão sobre a ressurreição de Cristo, segundo São Marcos: “A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo evangelho”. 4.3. Os “Problemas” dos Sinóticos Aprendemos, nos tópicos anteriores, o que significam e quais são os evangelhos sinópticos. Abordaremos, agora, algumas dificuldades referentes a esses evangelhos. Os evangelhos sinópticos têm sido alvo de extensa pesquisa durante muito tempo. A crítica textual tem feito uma verdadeira devassa em seus textos com o fito de resolver aquilo que denominara de “O problema sinóptico”.Tais problemas, segundo os críticos, seriam supostas contradições apresentadas em alguns trechos. Mas como observa o comentarista Halley, em sua obra Manual bíblico: “O fato de haver pormenores diferentes e ligeiras variantes na descrição de um mesmo incidente faz que o testemunho dos vários escritores se torne tanto mais digno de fé, visto afastar a possibilidade de terem entrado em combinação prévia”. E, citando as palavras do historiador Paul Barnett, “as diferenças entre as narrativas não apenas indicam que Mateus e Lucas estavam isolados um do outro quando escreveram, mas também que as fontes de que dependeram eram bem separadas”. As dificuldades envolvendo os sinópticos foram apresentadas por Champlin, resumidas em forma de várias perguntas, como seguem:  Os evangelhos foram escritos “independentemente” uns dos outros, sem qualquer fonte comum oral e escrita, sendo narrativas somente feitas de memória?  Se houve fontes comuns escritas ou orais, de que natureza e quantas eram elas?  Qual dos evangelhos sinópticos é primário? E esse evangelho foi usado diretamente como fonte de informação pelos demais evangelistas?  Qual foi a fonte de material usado pelos evangelhos não primários, naquilo em que estão de acordo entre si, nas passagens que não figuram em Marcos?  Quando um evangelho não primário tem material peculiar a si mesmo, qual foi sua fonte informativa?  Quais foram as fontes informativas do evangelho primário? Para dirimir esses problemas, os críticos, ao longo dos anos, foram criando várias teorias. Algumas delas já foram abandonadas por completo. Já outras possuem agora apenas alguns raros defensores. E há aqueles, porém, que continuam gozando de grande popularidade entre os eruditos. A seguir, veremos que, indubitavelmente, não se pode tomar qualquer partido em posição dogmática em relação a nenhuma dessas teorias. No trabalho de desvendar o “mistério” da origem dos evangelhos, destacaram-se, principalmente, ao longo dos anos, três teorias que pretenderam apresentar soluções plausíveis para a questão em pauta. Vejamos: 4.4. A Crítica da Forma Os críticos dessa escola se preocupam não com a parte literária dos evangelhos, mas com o hiato deixado entre a transmissão oral até a composição literária dos mesmos. Seus proponentes tentam descobrir como as comunidades cristãs transmitiram os ensinamentos de Jesus. A crítica, neste caso, solapa, de certa forma, a integridade histórica dos evangelhos, pois os críticos dizem que a comunidade cristã criou as fontes das quais os evangelhos derivaram. Propõem que, de acordo com a necessidade enfrentada, as comunidades locais iam inventando episódios ou ensinamentos acerca de Jesus para sanar tais dificuldades. Essas coleções, na opinião de seus defensores, foram as responsáveis pela composição dos evangelhos. Em suma, o evangelho, conforme temos hoje, não seria histórias verídicas de testemunhas oculares, mas refletiria apenas a crença da Igreja primitiva a respeito de Jesus. Essas unidades isoladas foram costuradas com frases cronológicas pelos evangelistas, tais como: “depois disso”, “poucos dias depois”, “imediatamente”, para dar um tom histórico à obra. O papel crucial dessa escola seria descobrir as leis por trás dessa tradição. Seus principais expoentes são: Martin Dibelius, Rudolf Bultmann e Vicent Taylor, o menos radical deles. 4.5. A Crítica da Redação Em verdade, os críticos dessa escola não se preocupam com a origem dos evangelhos e, tampouco, importam-se com quem foram seus autores. O que menos importa é a parte histórica. Seu principal objetivo é o motivo teológico com que cada autor escreveu e por que escreveu, concentrando-se apenas no texto em si. A crítica da redação depende muito da crítica da forma. A maioria dos críticos da redação se baseia na teoria das duas fontes, tendo o evangelho de Marcos como base para os outros dois. Os principais difusores dessa teoria foram: Gunther Bornkamm, Hans Conzelmann e Willi Marxsen. 4.6. A Crítica das Fontes Uma dessas dificuldades nutridas pelos críticos é saber sobre as fontes dos evangelhos. Em virtude de muitos versos nos três primeiros evangelhos serem idênticos, eruditos, por muitos anos, têm debatido o seu relacionamento. A crítica das fontes visa identificar as fontes escritas usadas para compor os evangelhos. E as soluções que apresenta foram dadas em forma de algumas teorias. A seguir, suas principais teorias:  A teoria da dependência de um evangelho original, único o Propõe que houve um único evangelho em aramaico do qual os outros três se abeberaram.  A teoria da dependência comum de fontes orais o Propõe a existência de um evangelho baseado em fontes orais transmitido pela Igreja, no qual os outros três se basearam.  A teoria da dependência de vários fragmentos escritos o Baseando-se no depoimento de Papias, seu proponente asseverava que existiram vários fragmentos sobre a vida de Jesus, os quais foram evoluindo em sua forma até serem inseridos nos evangelhos sinópticos.  A teoria do não-documento o Alega que não houve uma fonte comum aos três evangelhos, mas que todos eles se desenvolveram de modo independente. Seus defensores alegam, ainda, que os evangelistas escreveram somente o que viram e ouviram de Jesus.  A teoria da interdependência o É a mais aceita atualmente pela maioria dos eruditos da crítica das fontes. Seus críticos defendem a tese de que entre os evangelhos havia uma interdependência, ou seja, um deles foi a fonte dos outros dois. Dentro dessa teoria se desdobram mais algumas hipóteses das quais analisaremos apenas quatro:  Hipótese agostiniana,  Agostinho, bispo de Hipona, propôs, baseado na tradição, que Mateus foi o primeiro evangelho a ser escrito e que Marcos, posteriormente, serviu-se dele para coletar dados e compor seu evangelho. Lucas, por sua vez, seria uma compilação tanto de Marcos como de Mateus.  Hipótese das duas fontes o Segundo muitos, parece ser a que fornece melhor explicação para as similaridades entre os evangelhos. O ponto de vista preponderante, na atualidade, é que o evangelho de Marcos foi escrito primeiro e Mateus e Lucas usaram Marcos como fonte para os seus evangelhos. Visto que Mateus e Lucas são mais extensos que Marcos, é claro que eles contêm materiais que não se encontram em Marcos. Mateus contém material que não se encontra em Lucas e Lucas contém material que não se encontra em Marcos. Mateus e Lucas contêm algum material idêntico que não se encontra em Marcos. Mais tarde, foi acrescentada uma certa fonte “Q” (da língua alemã Queller = fonte). Segundo essa mesma teoria, Mateus e Lucas teriam escolhido apenas o que lhes era conveniente dessas duas fontes.  Hipótese dos dois evangelhos o Alguns críticos, como Willian Farmer e C. S. Mann, sustentam a hipótese de Griesbach. E, apesar de sustentarem a crença de que o evangelho de Mateus foi o primeiro a ser escrito, colocam, diferentemente de Agostinho, Lucas em segundo lugar e fazem Marcos depender tanto de Mateus como de Lucas.  Hipótese dos quatro documentos o Foi proposta como solução alternativa aos resquícios de problemas deixados pela hipótese das duas fontes. Como resultado do trabalho de B. H. Streeter, a maioria dos eruditos contemporâneos aceita a teoria dos quatro documentos. Esses documentos seriam um proto-evangelho para cada um deles, que são:  Marcos foi escrito primeiro e foi usado por Mateus e Lucas. Seu local de origem seria a Igreja em Roma.  O documento “Q” era uma fonte que supriu os ensinos ou as atividades de Jesus comuns a Mateus e Lucas, mas que não se encontram em Marcos. Seu local de origem seria Antioquia.  “L” era uma fonte usada por Lucas para seu material especial com origem na Igreja de Cesaréia.  “M” era uma fonte usada por Mateus para seu material especial e teve origem na Igreja de Jerusalém ou Antioquia. O erudito John P. Meier procura também estender essa questão ao evangelho de João, e nos informa que ainda há muita discussão se o evangelho de João dependeu de Mateus e Lucas ou foi produto de fontes independentes como a fonte “Q” e “Marcos”. Entre os críticos que sustentam a primeira hipótese, está o exegeta Frans Neirynck, que acredita que João se baseou nos três evangelhos sinópticos. Mas essa teoria foi contestada por P. Gardner-Smith, que sustentava uma fonte independente para João. Depois, essa mesma teoria foi mais bem desenvolvida por H. Dodd e aceita por gabaritados comentadores, como, por exemplo, Raymond Brown. Entretanto, é bom lembrar que nenhuma dessas hipóteses favorece uma explicação satisfatória à rica complexidade da origem dos evangelhos. F. F. Bruce diz acertadamente que a crítica da fonte “conduz necessariamente a resultados muito menos precisos [...] porquanto tem de incluir porção bem mais avultada de elemento especulativo”. Até mesmo a mais popular delas não consegue responder a muitas questões da problemática envolvendo os evangelhos sinópticos. Por exemplo, uma das críticas levantadas contra a teoria das duas fontes é que não existe cópia alguma dessa suposta fonte “Q”. Alguns apelam para Lucas 1.1-3 como meio de provar essa teoria. Todavia, Lucas não diz que copiou ipsis litteris das fontes existentes, mas que fez acurada investigação e consultou as testemunhas oculares ainda existentes. Lucas esteve com muitas pessoas, inclusive com as testemunhas oculares que eram ministros da Palavra e poderiam ter perfeitamente fornecido informações fidedignas envolvendo a vida de Cristo. Há grande possibilidade de Lucas ter tido contato pessoal com os três evangelistas ou algum dos apóstolos. Além disso, existe o fato de Paulo, em 57 d.C., citar uma passagem de Mateus 10.10 e Lucas 10.7 (“Digno é o obreiro de seu salário”) em 1 Timóteo 5.18. Tudo indica que um desses evangelhos já estava circulando naquela época. Ainda sobre Paulo, devemos atentar para o fato de que quando esse apóstolo instrui a Igreja em Corinto, lançou mão de vários ensinamentos proferidos pelo próprio Cristo, tais como: o divórcio, o sustento do obreiro, a santa ceia e a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus. Paulo parece invocar uma antiga tradição apostólica (1Co 15.1-7) para fundamentar esta última doutrina. Pelo fato de ele citar esses ensinamentos como dignos de crédito e observância, pressupõe que já havia alguns ensinamentos circulando nas igrejas paulinas sobre Jesus Cristo. E o mais interessante é que a maioria desses ensinamentos encontra paralelo nos sinópticos. Na verdade, como já tivemos a oportunidade de citar, a voz dos pais da Igreja do século 2o era unânime em professar a crença que diz ter sido Mateus o primeiro evangelho a ser escrito e não Marcos. De fato, os quatro evangelhos, nos primeiros códices, aparecem na mesma seqüência de que se dispõe hoje em dia. Ocasionalmente, João foi posto na frente de Mateus, mas nunca Marcos. Segundo o testemunho de Papias, Marcos compôs seu evangelho usando as informações de Pedro, por isso não havia a necessidade de copiar de Mateus e muito menos de Lucas. Além disso, se Marcos copiou de Mateus e Lucas, por que então seu evangelho foi tão resumido no tocante aos ensinamentos de Cristo? É justo crer que ele iria omitir episódios importantes da vida de Jesus, como, por exemplo, o seu nascimento ou o sermão do Monte? Outro ponto que deve ser considerado é o seguinte: por que Mateus dependeria de Marcos, que, diga-se de passagem, não foi testemunha ocular, para compor seu evangelho? Será que as memórias de Mateus e sua íntima experiência com Cristo, além de sua relação com os demais apóstolos, não seriam suficientes para tal tarefa? São justamente estas algumas dificuldades que se impõem quando confrontamos tais teorias. 

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Regras Universais do Zazen

Fukanzazengi – Regras universais do zazen (Manual de meditação de Eihei Dogen Zenji – Japão, 1200‐1253) Agora, quando procuramos a fonte do Caminho, descobrimos que é universal e absoluta. Torna-se desnecessário distinguir entre prática e iluminação. O ensinamento supremo é livre, então por que deveríamos estudar os meios de atingilo? Sem dúvida, o Caminho está bem longe da delusão. Por que, então, preocupar-nos com os meios de eliminá-la? O Caminho está completamente presente onde você está, então qual a necessidade de prática e de iluminação? Contudo, se no início houver a menor diferença entre você e o Caminho, o resultado será uma separação maior do que aquela entre o céu e a Terra. Se surgir o menor pensamento dualista, você perderá sua mente‐Buda. Por exemplo, algumas pessoas se orgulham de sua compreensão e acreditam que estão ricamente dotadas com a sabedoria de Buda. Crêem que já alcançaram o Caminho, iluminaram sua mente e conquistaram o poder de tocar os céus. Imaginam que estão andando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o Caminho absoluto, que está além da própria iluminação. Ainda se vêem as marcas daquele que por seis anos sentou-se ereto1 e se ouvem os ecos do Monte Shaolin, onde por nove anos sentou-se de face para a parede aquele que transmitiu o selo da mente2 . Já que esses antigos sábios eram tão diligentes, como podem os praticantes dos dias atuais deixarem de praticar zazen? Devemos parar de correr atrás de palavras e de letras e aprender a nos retirar e refletir sobre nós mesmos. Quando assim fazemos, nosso corpo e nossa mente são naturalmente transcendidos, e nossa natureza‐Buda original se manifesta. Se almejamos realizar3 a sabedoria de Buda, devemos começar a praticar imediatamente. Para fazer zazen, é desejável um local tranquilo. Devemos ser moderados no comer e no bebe abandonando todo relacionamento deludido. Deixando tudo delado, não pensemos nem no bem, nem no mal, nem no certo, nem no errado. Assim, tendo cessado a agitação da mente, abandonamos até mesmo a ideia de nos tornar Buda. Isso é verdadeiro não só para o zazen, mas para todas as nossas ações cotidianas, sem apego ao nos sentar ou ao nos deitar. Geralmente, colocamos um acolchoado quadrado no chão, onde vamos nos sentar, e sobre ele, uma almofada redonda. Podemos nos sentar na posição de lótus ou na de meio-lótus. Na primeira, colocamos o pé direito sobre a coxa esquerda e, em seguida, o pé esquerdo sobre a coxa direita. Na segunda, apenas colocamos o pé esquerdo sobre a coxa direita. As roupas devem ser folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, colocamos o dorso da mão direita sobre o pé esquerdo e o dorso da mão esquerda sobre a palma direita, com a ponta dos polegares se tocando levemente. Devemos nos sentar perfeitamente eretos, nem inclinados à direita, nem à esquerda, nem para a frente, nem para trás. As orelhas devem estar alinhadas com os ombros, e o nariz, alinhado com o umbigo. A ponta da língua deve ser colocada no palato, e os lábios e os dentes devem se encostar suavemente. Mantendo os olhos entreabertos, respiramos suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo regulado o corpo e a mente, fazemos uma respiração profunda, movendo nosso corpo para a esquerda e para a direita, e então devemos ficar imóveis, sentados tão firmes quanto uma rocha. Existe o pensar, existe o não pensar e existe o além do pensar e do não pensar. Essa é a verdadeira base do zazen. Zazen não é meditação passo a passo. É o portal do Darma da agradável tranquilidade, é a prática e a realização da iluminação, é tornar-se o koan4 . A verdade aparece, não mais havendo delusão. Se compreendermos isso, estaremos completamente livres, como um dragão na água ou um tigre recostado na montanha. O Darma Correto surge naturalmente, e ficamos completamente livres de todo o cansaço e confusão. Ao terminarmos o zazen, devemos mover o corpo devagar e nos levantar com calma. Não devemos nos mover bruscamente. Pela virtude do zazen, é possível transcender a diferença entre o comum e o sagrado e obter a capacidade de morrer sentado ou de pé. Além do mais, é impossível para nossa mente discriminatória compreender como os Budas e Ancestrais do Darma comunicaram a essência do Zen a seus discípulos com o levantar de um dedo, com uma vara, jogando uma agulha ou batendo com o martelo de madeira5 ; ou como eles transmitiram a iluminação com o levantar de um hossu6 , de um punho, de um bastão ou com um grito. Tampouco esse assunto pode ser compreendido por meio de poderes sobrenaturais ou de uma visão dualista de prática e iluminação. Zazen é a prática além dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminatório. Assim, nenhuma discriminação deverá ser feita entre o inteligente e o não inteligente. Praticar o Caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida cotidiana. Os Budas e Ancestrais do Darma, tanto neste país quanto na Índia e na China, todos preservaram cuidadosamente a mente‐Buda e incentivaram assiduamente o treinamento zen. Devemos, pois, nos dedicar exclusivamente e ser completamente absorvidos pela prática do zazen. Apesar da divulgação de inúmeras maneiras de compreender o budismo, devemos praticar somente o zazen. Não há motivo para abandonarmos nosso assento de meditação e fazermos viagens inúteis a outros países. Se nosso primeiro passo for errado, inevitavelmente tropeçaremos. Já tivemos a boa fortuna de nascer com um corpo precioso, então não devemos desperdiçar nosso tempo à toa. Agora que sabemos qual é a coisa mais importante no budismo, como podemos ficar satisfeitos com o mundo transitório? Nosso corpo é como o orvalho sobre a relva, e nossa vida, como o clarão de um raio, que desaparece num instante. Sinceros praticantes zen, não se espantem com o Verdadeiro Dragão7 , nem gastem muito tempo inutilmente apalpando apenas uma pequena parte do elefante8 . Dediquem seus esforços ao Caminho que leva diretamente à natureza‐Buda. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento completo, que estão sem intenção de intenção. Tornem-se um com a sabedoria dos Budas e, assim, sucessores legítimos da iluminação dos Ancestrais. Praticando dessa maneira, certamente serão capazes de compreender tudo isso. Então, a casa do tesouro naturalmente se abrirá e vocês poderão se servir à vontade.
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1 Xaquiamun Buda. i 2 Bodidarma. 3 Tornar real, autenticar. Não é exatamente alcançar. O significado aqui é mais próximo de perceber, de despertar, de vivenciar a sabedoria suprema e torná-la real na vida de cada praticante. Permitir que essa sabedoria se manifeste com a prática. Dogen Zenji Sama insiste em afirmar que prática é realização. Não praticamos para nos tornar Buda, mas porque somos Buda praticamos. Sem prática, porém, não há iluminação (estado Buda).
4 Algumas vezes traduzido como “pegadinha zen”, koan originalmente significa um Édito Imperial na China antiga. Atualmente, refere-se a situações históricas de perguntas e respostas de antigos e famosos mestres zen, com o objetivo de levar os praticantes à iluminação, ao despertar (satori ou mezameru, em japonês), por meio da transcendência da mente dualista. Na tradição Soto, a vida diária é considerada o koan essencial, a manifestação da verdade.
5 Alusão ao han, instrumento de ma eira tocado para anunciar atividades no mosteiro. d 6 Bastão com pelos em uma das extremidades, usado nas cerimônias, simbolizando os fios de cabelo que saem do terceiro olho de Buda. 7 Referência a um monge que desenhava e colecionava imagens de dragões, mas, quando encontrou um dragão de verdade, fugiu apavorado. 8 Menção a um ensinamento de Buda segundo o qual um elefante foi apresentado a algumas pessoas om deficiência visual e pediu-se que descrevessem o que era. Cada uma delas conseguiu ter apenas ma ideia parcial do animal, conforme a parte que apalpou.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quem é Cristiano Rosacruz?

Lectorium Rosicrucianum

Cristão Rosacruz
Cristão Rosacruz
Cristiano Rosacruz é um dos personagens mais enigmáticos da história intelectual europeia. Que mistério se esconde por detrás desse nome?
“Quem é Cristiano Rosacruz?” Quando levantamos essas questões nos dias de hoje, inevitavelmente teremos outras indagações a fazer: “Será que esse homem realmente existiu?” e “Quem são os rosacruzes?”.
As respostas a essas perguntas exigem que nos voltemos para nosso interior, em busca da verdade – não a verdade comum ou os fatos históricos – mas sim a verdade atemporal sobre a natureza e o objetivo da existência humana.
Os rosacruzes do Lectorium Rosicrucianum vêem em Cristiano Rosacruz um protótipo espiritual, seu “Pai e Irmão”, fundador da Ordem espiritual. Ao mesmo tempo, consideram que seu nome indica o campo de força que os alimenta. Nos textos clássicos da Rosacruz do século XVII, esse campo de força é chamado de “Casa Sancti Spiritus”. Essas fontes da história espiritual ocidental contêm referências capazes de tocar profundamente um buscador da verdade e talvez ajudá-lo a abrir a porta do conhecimento intuitivo. Esse é o assunto deste artigo.

Os textos da Rosacruz clássica

Todos os que descobrem os três textos originais da Rosacruz clássica se vêem diante de inúmeros e misteriosos símbolos e imagens.
Esses manuscritos foram publicados nos anos de 1614 a 1616 pelo teólogo alemão Johann Valentin Andrea, natural de Calw, Alemanha. Ele pertencia ao assim chamado “Círculo de Tubingen”, uma irmandade de homens espiritualmente inspirados. Os manuscritos nos falam de Cristiano Rosacruz e da Fraternidade da Rosacruz. Os três títulos são:
  1. Fama Fraternitatis R.C.
    (O Chamado da Fraternidade Rosacruz, 1614)
  2. Confessio Fraternitatis R.C.
    (O Testemunho da Fraternidade Rosacruz, 1615)
  3. As núpcias (al)químicas de Cristiano Rosacruz
    (Também “Casamento Alquímico”, ou “Bodas Alquímicas”, 1616)
Essas três obras foram novamente editadas e comentadas por Jan van Rijckenborgh em meados do século XX. Alguns textos e comentários originais podem ser encontrados neste site, na seção de Literatura.

As três descrições de Cristiano Rosacruz

Existem três descrições principais acerca de Cristiano Rosacruz, também chamado de “Irmão CRC”. A primeira é de Rudolf Steiner; a segunda pode ser encontrada na Confessio e na Fama; e a terceira está em As núpcias alquímicas de Christian Rosenkreuz. Todas elas utilizam a linguagem dos mistérios, na qual cada detalhe traz, veladamente, um significado espiritual. Nesses textos, nada é supérfluo ou casual.
Neles, Cristiano Rosacruz é descrito de muitos modos diferentes, porém, em todos eles sempre são destacadas sua grande modéstia e humildade. Ele é absolutamente sincero em sua dedicação e vontade de servir. Ele é percebido pelos leitores como alguém que segue seu caminho espiritual apesar de todas as dificuldades.
Ao mesmo tempo, ele aparece como a personificação luminosa do grande objetivo: a ressurreição do homem imortal. Cristiano Rosacruz é a encarnação de uma realidade espiritual, o protótipo do homem que segue o caminho da iniciação cristã. É a respeito desse homem que lemos no Novo Testamento: “Assim também é a ressurreição dos mortos. O corpo é semeado corruptível, é ressuscitado incorruptível; é semeado em ignomínia, é ressuscitado em glória; é semeado em fraqueza, é ressuscitado em poder. Semeia-se corpo natural, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.“ (Primeira Epístola aos Coríntios, 15:42-44).
http://www.rosacruzaurea.org.br

GNOSIS

Lectorium Rosicrucianum

Ensinamentos religiosos secretos, a busca pela sabedoria divina – esses são alguns dos pensamentos associados com a palavra Gnosis. Mas será que isso significa vivenciar a Gnosis dentro de seu próprio ser? Para descobrir isso, o buscador terá de se voltar à fonte onde nasce a Gnosis.
A Gnosis e os gnósticos, na história intelectual da Europa sempre estão associados com o início da cristandade. No entanto, sempre houve gnósticos, em todos os tempos. É que a Gnosis – ou sabedoria divina – sempre foi e ainda é a força que pode comunicar-se diretamente com todos os seres humanos, sem necessitar de sistemas religiosos e tradições.
A palavra Gnosis vem do grego e significa “Luz do Conhecimento”. Geralmente, pouco e raramente se sabe que tipo de conhecimento e crença os gnósticos possuem, ou que caminho espiritual seguem. A Gnosis somente pode ser vivenciada por alguém que está em ligação direta com ela, a partir de seu coração. No entanto, essa ligação muda de tal modo essa pessoa que, no final, ela já não é a mesma de antes. Mesmo depois de séculos, os textos gnósticos ainda fascinam muitos buscadores.
Durante muitos séculos, as diversas tradições escritas dos primeiros gnósticos cristãos somente eram conhecidas a partir de pistas dadas em textos da Inquisição da igreja católica. A opinião pública voltou a prestar atenção a esses escritos quando, em 1945, foram publicados os manuscritos de Nag Hammadi, no Egito. A partir dessa data, muitos textos sobre gnosticismo vêm sendo publicados.

Através desses escritos antigos, flui um poderoso alento

A Gnosis não é uma estrutura complexa de ideias – embora as antigas escrituras falem uma linguagem que não se revela facilmente ao leitor. Qualquer pessoa que tenta abordar os antigos textos gnósticos de modo unicamente intelectual dificilmente será capaz de compreender a essência de sua mensagem espiritual. Neles, parece existir uma força, um poderoso alento que flui através das palavras, que impulsiona o leitor às profundezas de sua mente. Mas, quando ele abre seu coração, sua intuição, e quando ele tem fé, pode descobrir esse transformador “Alento de Deus”.
Um dos mais famosos textos gnósticos é O Mistério da Pistis Sophia. Jan van Rijckenborgh, um dos fundadores da Rosacruz Áurea, republicou o original gnóstico e analisou esse texto para buscadores espirituais. O título indica com muita precisão a natureza da Gnosis como a ligação entre a fé insolúvel (Pistis, Πίστη) e a sabedoria (Sophia, Σοφία).
A Gnosis é uma irradiação, uma Luz espiritual. Ela está concentrada nos textos gnósticos, e está presente na atmosfera. Ela deseja despertar o ser humano e provocá-lo. Especialmente na atual era de Aquarius, todos os que estão buscando o conhecimento espiritual estarão aptos a descobrir a irradiação gnóstica dentro de si mesmos e a trabalhar com ela.

O núcleo espiritual está no coração do homem

A Gnosis é o conhecimento absoluto. Ela é revelada pelo próprio Ser divino. Ela não exige nenhuma habilidade intelectual humana, nem clama por emoções, nem é uma religião. Ela não pode ser escrita, por mais que tantos e tantos escritos sejam testemunhos dela. Ela também não pode ser ensinada por nenhuma pessoa. O mediador é a própira Gnosis.
A Gnosis é revelada ao homem por meio de um caminho interior que não pode ser nem compreendido nem seguido com os poderes do ego. É que a irradiação gnóstica toca o coração do homem. É aí, no coração, que reside o núcleo central espiritual desse ser: a centelha do Espírito, o princípio imortal que repousa no interior do ser humano. Essa centelha do Espírito não provém do mundo mortal world, no qual o homem vive. Ela nasceu na eternidade, a partir da divina esfera na qual a Gnosis existe. Consequentemente, a irradiação gnóstica pode se corresponder com centelha do Espírito, ou como dizem os rosacruzes – com a Rosa do Coração.

V I S Õ E S de M U N D O

No Bundashin, o Livro da Primeira Criação, da cosmologia de Zaratustra, lemos o seguinte: “Está desvelado que, desde tempos imemoriais, Ahura-Mazda (o criador incriado) reside nas alturas, adornado com onisciência e bondade, cercado de luz. Essa luz é o lugar e a morada de Ahura-Mazda. Alguns a denominam luz infinita. Essa onisciência e bondade formam a veste de Ahura-Mazda. Alguns a chamam de religião... O tempo da veste é infinito, pois a bondade e a religião do criador incriado durarão tanto tempo quanto Ahura Mazda.” Henri Corbin diz em seu livro O tempo cíclico e a Gnosis de Ismail, que o Bundashin é um compêndio da doutrina de zaratustra e Ahura-Mazda, escrito em pálavi, uma das línguas do persa médio do primeiro milênio. Esse compêndio, que data do século 4 de nossa era, contém certo número de perguntas que todos os persas com idade superior a quinze anos deveriam saber responder. As primeiras perguntas são as seguintes: “Quem sou eu e a que lugar pertenço? De onde venho e para onde vou? Qual é a minha filiação e a que raça pertenço? Qual é a minha missão nesta existência terrena? ... venho do mundo celeste ou foi no mundo terreno que comecei a existir? Pertencerei a Ahura-Mazda ou a Arimã? Faço parte dos anjos ou dos demônios?” E aqui estão as respostas: “venho do mundo celeste. Não foi no mundo terreno que comecei a existir. Meu estado original é espiritual; meu estado original não é terreno. Pertenço a Ahura-Mazda, o Senhor da Sabedoria, não a Arimã (o espírito da separação e das trevas). Pertenço aos anjos, não aos demônios... Sou uma criatura de Ahura-Mazda, não uma criatura de Arimã. Minha raça e minha ascendência remontam ao homem original (anthropos). Minha mãe é Spandarmat, o anjo da terra, meu pai é Ahura-Mazda... Cumprir minha missão é aprender que Ahura-Mazda é hoje, que ele sempre foi e sempre será. É aprender a vê-lo como imortalmente sublime e perpetuamente puro. E aprender que Arimã é a pura negatividade que exaure a si mesmo e retorna ao nada, vê-lo como espírito da separação (o mal), que antes não existia nesta criação e que, um dia, deixará de existir na criação de Ahura-Mazda, e no fim dos tempos desaparecerá. É considerar que meu ser verdadeiro pertence a Ahura-Mazda e aos arcanjos”. - Revista Pentagrama 3/2013

quinta-feira, 22 de junho de 2017

NEO-PAGANISMO SOB UMA ÓTICA CRISTÃ


www.universidadedabiblia.com.br

Em 1925, o  lendário  pensador cristão  inglês  G.  K.  Chesterton  (1)  afirmou  que, se não
houvesse sido pelo surgimento e fortalecimento da igreja cristã, a Europa teria continuado
pagã, a  civilização ocidental não teria jamais existido na  forma como a conhecemos, e,
culturalmente, "a Europa  seria hoje muito parecida com a Ásia." (2) Chesterton sugeriu
ainda que, seo paganismo clássico houvesse se prolongado atéhoje [no ocidente]... haveria
ainda  pitagóricos  ensinando  reencarnação,  assim  como  ainda há hinduístas  ensinando
reencarnação na Ásia. Haveria ainda estóicos criando uma religião a partir da razão e  da
virtude, assim comoainda há confucionistas na Ásia criando uma religiãoa partir da razão
e  da virtude. Haveria ainda neo-platonistas estudando verdades transcendentes cujo sentido
seria misteriosopara as outras pessoase disputado até mesmo entre eles, assim como ainda
há budistasna Ásia estudando um transcendentalismo misterioso para os outrose disputado
até  mesmo  entre  eles.  Haveria  ainda apolonianos inteligentes  aparentemente adorando o
deus-sol mas explicando quena verdade elesadoram o princípio divino, assim como ainda
há na Ásia zoroastrianos aparentemente adorandoo sol mas explicando que estão adorando
a divindade. Haveria ainda dionisíacos dançando selvagemente nas montanhas, assim como
ainda há  na Ásia derviches dançando selvagemente no deserto. Haveria ainda multidões
indo às festas dos deuses...e haveria muitos deuses para serem adorados, como há na Ásia,
ainda pagã... Haveria ainda sacrifícios humanos secretos a Moloque, assim como ainda há
na Ásia sacrifícios humanos secretos à deusa Kali. Haveria ainda muita feitiçaria, e  boa
parte dessa feitiçaria seria magia negra. Haveria ainda muita admiraçãopor Sêneca,e muita
imitação de Nero, assim comona Ásiaos elevados epigramasde Confúcio coexistiram com
as torturas chinesas. (3)
Talvez Chesterton nunca tenha chegado a perceber que suas palavras eram proféticas. A
civilização  ocidental  há  muito  já  caminhava a passos  largos  para  um  quadro
impressionantemente semelhante ao pintado por ele, um quadro que  hoje é  a reprodução
fiel da religiosidade  moderna. O  que Chesterton  não  previu  foi  que o  chamado  neo-
paganismo teria características muito piores que as do antigo paganismo —  a cosmovisão
religiosa da  antigüidade que havia  sido  posta  de  lado  com o  surgimento  da  igreja e  a
conversão daEuropa ao cristianismo.A casa foi varrida, mas, como nas palavrasde Cristo
relatadaspor Mateus,o último estado tornou-sepior doque o primeiro (Mt 12.43-45).
I. Ascensãoe Queda do neo-paganismo (e algumas questões metodológicas)
Uma das principais características da chamada Era Moderna (sécs.16–20) foio surgimento
do neo-paganismo, cuja decadência estamos hoje assistindo naquilo que tem-se chamadode
"Nova Era". Esse "movimento" religioso não é, portanto, genuinamente novo, e  nem é  na
verdade um movimento, e, acima de tudo, não é  de  fato pós-moderno, como alguns têm
sugerido. O  pós-modernismo  implica  em ir além do beco  sem  saída  da modernidade e
inclusive da típica religiosidade moderna. (4) A  chamada Nova Era pode ser tudo menos
pós-moderna.  Pelo  contrário,  ela é  moderníssima.  Mas,  nesta  fase  de  transição  em  que
estamos vivendo, ela representa o  modernismo não no seu apogeu, mas sim na  sua mais
completa decadência. (5)
O neo-paganismo não é  novidade. Trata-se, para começo de  conversa, da recuperação e
apropriação da mentalidade religiosa da antigüidade pré-cristã. Como ironicamente sugeriu
Chesterton, "trata-sede uma profunda verdadeque o mundo antigo era mais modernoque o
mundo  cristão."  (6) Isto é, a Idade Moderna  está  mais  próxima do  paganismo que  do
cristianismo.  Além disso,  o  neo-paganismo  não é novo  porque  esta  recuperação e
apropriação tiveram início há seis séculos atrás, no princípio da chamada Idade Moderna.
Os primeirosa estarem envolvidos nesse processo de reapropriaçãodo paganismoforam os
humanistas  dos  séculos  XV e  XVI.  Numa  atividade  genuinamente  arqueológica,  esses
pensadores e filólogos  dedicaram  suas  vidas à recuperação da literatura e cultura da
antigüidade greco-romana. (7) Essa atividade não é condenável per se. Porém, uma vez
levada a cabo,  permitiu a  reapropriação da  mentalidade  pagã por parte  dos  eruditos
europeus da época que  sentiam-se insatisfeitos com o  cristianismo e  a  religiosidade que
lhes era oferecida. Em parte, essa insatisfação é  compreensível, uma vez que a igreja da
época vivia talvez a  maior crise espiritual de  sua  história. Mas nem todos os humanistas
sentiram-se atraídos pela religiosidade pagã. Muitos consideraram mais sensato lutar por
uma reforma eclesiásticae ansiar por um avivamento espiritual. Tantoo avivamento quanto
a reforma vieram por fim a  acontecer, fruto, em grande parte, do  esforço desses mesmos
pioneiros  humanistas.  Nesse  sentido, os  líderes da Reforma  Protestante  também  eram
humanistas, semdeixarem de ser cristãos. (8) A  verdade, porém, é que a sementedo neo-
paganismo foi igualmente lançada nos  campos da  intelectualidade européia,e  os primeiros
frutos maduros dessa semeadura foram colhidos nos séculos subseqüentes, dando por fim
início ao movimento intelectual conhecido pelo nome de Iluminismo.
O Iluminismo do século XVIII representouo estabelecimento definitivo do neo-paganismo
como o  ideal intelectual por excelência da  modernidade. (9) Todos os mais importantes
pensadores  iluministas  ou  rejeitaram o cristianismo  por  completo,  trocando-o  por uma
mentalidade religiosa pagã (Diderot, D’Holbach, Hume), ou procuraram adaptar a fé cristã
às  concepções  helenistas  recém-recuperadas  e   assimiladas,  produzindo  heterodoxias
gritantes como o deísmo  (John Locke,  John Toland,  Voltaire, La Metrie) e  a  teologia
kantiana. (10)  A  maçonaria é  outra aberração neo-pagã que teve  origem no  iluminismo
francês. Tantoos teóricos da Revolução Francesa quantoos "Pais" federalistas americanos,
teóricos da Revolução Americana, estavam alicerçados na filosofia iluminista e  no  neo-
paganismo.O Modernismo havia chegado ao seu apogeu. Os séculos subseqüentes, XIX e
XX,  assistiriam a partir de então  ao  lento  declínio da  modernidade  (o  marxismo e  o
existencialismo marcam,  por  exemplo, e  de  formas  diferentes,  esse declíno).  Entretanto,
nunca o  declínio  do  neo-paganismo  esteve  tão  evidente  quanto  agora,  em que  ele  se
manifesta  em  suas  formas  mais  cruas e vulgares,  nos  diferentes  componentes  desse
conglomerado de noções religiosas pagãsque chamamosde Nova Era. Cabe-nos, portanto,
enquanto  pensadores  cristãos,  compreender a  natureza do  neo-paganismo, um  aspecto
importanteda história da teologia moderna,e também da realidade diária destes temposde
transição emque estamos vivendo.
A Nova Era é, sem dúvida, um fenômeno cultural, mas não é  propriamente uma religião,
uma  nova  organização  religiosa;  não  possui  líderes  explícitos,  membros,  estrutura
hierárquica, estatutos, confissãode fé, etc. Diferentementedo que muitos livros evangélicos
populares queremnos fazer crer,a Nova Era nãoé tampouco uma conspiração secreta.(11)
Este  tipo de sensacionalismo  evangélico  patrocinado  pela  liderança  de  nossas  igrejas,
estimulado por outra falácia teológica chamada "batalha espiritual", possui um grave efeito
nocivo. (12) Nós, cristãos, passamos a  lutar contra um inimigo inexistente, um fantasma,
uma ficçãoda nossa imaginação, em vez de enfrentarmosa verdadeirahorda que nos cerca.
A miscelânia chamada Nova Era é composta de  manifestações neo-pagãs diferentes umas
das  outras,  que  vão desde  popularizações de  religiões  orientais  como o hinduísmo,  o
budismo e  o  taoísmo,  até  as  mais  crassas  superstições  pagãs  como  astrologia, o poder
curativo  dos  cristais,  adivinhações e necromancia.  Nós,  brasileiros,  muito  antes  de
importarmos dos  Estados Unidos o conceito de  Nova Era, já estávamos há muito tempo
acostumados com as formas mais decadentes da religiosidade moderna, poiso espiritismoé
um excelente exemplo de neo-paganismo. Do ponto de vista apologético, cada uma dessas
manifestações neo-pagãs deve ser combatidae derrotada individualmente, e não como uma
amálgamainforme e uma abstração, como freqüentemente tem acontecido.
Isso não significa, por outro  lado, que  o  fenômeno não possa ser analisado do  ponto de
vista antropológico, filosófico ou  teológico. Sem dúvida, cabe-nos buscar compreender o
neo-paganismo em termos genéricos. Isso nãoé contraditório, pois esta análise não tempor
objetivo a  mistura e  a confusão das diferentes  manifestações neo-pagãs sob  um mesmo
rótulo e  o  subseqüente  confronto  apologético  com  esta  quimera,  este  monstro  de
Frankenstein,  composto de partes  juntadas de diferentes  corpos  e   origens.  Essa
"arqueologia epistemológica" (13) implica em descobrir as pressuposições fundamentais do
fenômeno, e produzir  dessa  maneira  um  arsenal  de  noções  filosóficas e teológicas que
possam de  fato auxiliar no combate específico e  individual dessas diferentes expressões
religiosas neo-pagãs. (14)
II. O Paganismo,o Neo-Paganismoe a Fé Cristã: Esboço de um Estudo Comparativo
A religiosidade pagã nada mais é que o  espírito humano submetido à  força da gravidade,
isto é, limitado a  um estado de mínima resistência. Em outra palavras, é  a religiosidade
humana no seu estado natural, sofrendo a pressão e  o impacto da  Queda em toda  a  sua
inteireza.  (15)  O  termo  "paganismo"  vem  da  palavra  latina  pagani  que  significa
"camponeses" ou "gente do  campo, do interior".O termo pagani ganhou a conotação atual
porque  esses camponeses foram os últimos a  se  converterem  ao cristianismo após sua
instituição  no  século  IV  como  religião  oficial  do  Império  Romano, e os  últimos a
abandonarem as crençase práticasda religiosidade greco-romana. (16)É curioso notarque,
inversamente, o  neo-paganismo teve origem nas cidades, e  até hoje  é  nos  grandes centros
urbanos e nos países mais desenvolvidos que o mesmo encontra maior aceitação e menos
resistência.
É  um erro pensar que  o  paganismo é uma grande tolice, que  nada tem de aproveitável
(ainda que  o decadente neo-paganismo  às  vezes  nos  deixe  essa  impressão).  Chesterton
resume brilhantemente a história espiritual  da humanidade em uma de  suas  frases  mais
famosas: "O paganismo eraa melhor coisa que haviano mundo;e a fé cristã surgiu,e era
melhor ainda.E tudo o mais depois disso tem sido comparativamentepior e pequeno."(17)
Como sugere Rist, (18) Agostinho, assim como muitos outros intelectuais convertidos ao
cristianismo nos primeiros séculos da era cristã, "viu sua conversão não tanto como uma
substituição mas como uma expansão e um enriquecimento de suas posições anteriores."
(19) Há pelo menos três elementos no paganismo pré-cristão que  o  fazem respeitável: (i)
um senso de  piedade,  (ii)  uma  moralidade  objetiva e absoluta, e (iii)  um  senso de
transcendência, de percepção do divino e  de respeito  em  face do  misterioso.  (20) O
cristianismo resgatouo queo paganismopossuía de melhorà luzda revelação divina,num
lento processoque teve início no primeiro séculoe seguiu-se atéo fimda Idade Média. (21)
No  neo-paganismo do nosso  tempo  esses  elementos  desapareceram, e  o que  sobra é  o
invólucro, a  superfície, a superstição vazia e irracional. O neo-paganismo é, portanto, não
somente  um  anti-cristianismo  mas  também um  anti-paganismo,  por  incrível  que  pareça.
Analisemos cada um destes elementos isoladamente.
A. Piedade
O sensode piedade (latim pietas)a que estamos nos referindo refere-se ao instinto religioso
natural  de  respeito a algo  maior que  o  ser  humano.  Isto  implica na  humildade de se
reconhecer  como parte  subordinada do  grande  processo e esquema  universal.  Vemos o
reflexo dessa mentalidade no neo-paganismo na adoção do chamado modelo newtoniano.
(22)O resultado disso no paganismoda antigüidade era uma religiosidade emque a palavra
de ordem era moderação (grego sophrosyne), (23) expressa na frase "nada em demasia"
inscrita em todos os templos de Apolo, junto ao famoso "conhece-te a ti mesmo" (24) (o
mesmo  sentimento  aparece  na  expressão  aristotélica  in  medio  virtus).  (25)  As  religiões
pagãsda Ásiana sua maioria ainda mantém esta tradição de reverência, de reticênciae de
moderação. A civilização ocidental não pratica nem compreende essa reverência e  o neo-
paganismo, portanto, diferedo seu ancestral neste importante aspecto. Ao contrário,o neo-
paganismo divinizao homem,é a religiãodo homem comoo novodeus, pregando "ovalor
infinito do  ser humano" e "a  autonomia do  pensamento  crítico."  (26) O  neo-paganismo
confunde-se, portanto, com o  humanismo contemporâneo, o qual se transformou em uma
quase-religião.  (27)  No  movimento da Nova  Era,  que  se  trata do  neo-paganismo  em
avançado estado de putrefação,o humanismo se manifestade forma mais crassa, como,por
exemplo, no fato de  que quase todas as práticas, terapias e  crenças  da Nova Era  são
voltadas parao bem-estardo ser humano,para o seu aperfeiçoamento, parao seu confortoe
prazer. Além disso, há o  pressuposto implícito em todas as diferentes manifestações neo-
pagãsde queo serhumano é capazde resolveros seus problemas espirituais por si mesmo,
através de exercícios, meditaçãoou utilização "racional" (ou irracional) de objetos naturais
como plantase cristais.
É evidente queum retorno mais fiel ao paganismo da antigüidade não seriaa solução paraa
busca  religiosa do ser humano moderno, e  muito  menos do  ser  humano pós-moderno.
Apenasa fé cristã possui aquiloque o ser humano necessitae busca.A piedade cristã nãoé
somente superior à piedade pagã (piedade esta que, como dissemos, o neo-paganismo não
possui), masé uma piedade qualitativamente diferente. Um aspecto fundamentalda piedade
cristã está em reconhecer-se como criatura diante do Criador. Qualquer piedade que  torne
opacaa distinção entreo Criadore as criaturasé inerentemente incompatível coma piedade
cristã. Como afirmou Chesterton, a natureza não é minha mãe; na verdade, ela é minha
irmã, como dizia Francisco de  Assis. Mais importante que isso é  o fato de que a piedade
cristã assume como pressupostoa verdade teológicado pecadooriginal. O ser humano não
é apenas um ser corrompido atéo mais profundo do seu ser, masé também corrompido em
todos os aspectosdo seu ser, inclusive sua razão, quesofre os chamados efeitos noéticos do
pecado. Nossa razão não é confiável, somos constantemente condicionados pelos impulsos
recebidos  do  meio  em  que  vivemos,  e somos  igualmente  impulsionados  por  instintos
inconscientes  sobre os  quais  não  temos  qualquer  controle.  Mas a diferença  crucial e
primordial entrea piedade cristãe a piedade pagã estána certeza cristãde que nãohá nada
que um ser  humano possa fazer  para  obter o  favor  divino. A  piedade  pagã  tem  como
elemento fundamentalo esforço humanopara obtero favor divinopor meio de sacrifícios,
rituais e promessas.  Infelizmente muitos cristãos deixam-se iludir pela mentalidade pagã
que continua influenciandoa igreja, levando muitosa abraçar uma cosmovisão pagã, ainda
que sob  o  disfarce de elementos cristãos. A piedade cristã tem, como ponto de partida, o
render-se  diante da soberania  divina, o tornar-se  receptáculo  da  graça  divina
imerecidamente outorgada àquelesque humildemente se aproximamde Deus emum atode
arrependimento pelo pecado, contrição sincerae confiançano perdãodivino.
B. Moralidade
O  que chamamos, a seguir, de  moralidade objetiva  e absoluta, refere-se ao fato de  que os
antigos pagãos que levavama sérioo seu paganismo insistiam na existênciade leis morais
inquestionáveis, inegociáveis e permanentes. Essas leis morais eram vistas como naturais,
evidentesna natureza das coisas, descobertas e não criadas pelo homem. O neo-paganismo
procurou  resgatar  essa  moralidade  racionalista  pagã,  levá-la  às  últimas  conseqüências e
adaptá-laà realidadeda vida moderna. Esse extremo racionalismo acabou se revertendo em
um irracionalismo, e por fim tornou-se relativista, subjetivista e pragmático, chegando-se
lentamente à  conclusão de que o ser humano cria suas próprias leis morais, e  que  estas
variam conforme o tempo e  a cultura. Os valores morais de  um indivíduo não podem ser
considerados errados, pois não existe um padrão ou norma absolutos que determinem o
certo e  o errado em questões éticas. A grande imoralidade do  ponto de  vista neo-pagão é
justamente dizer que  algo é moralmente errado. O grande erro é  dizer que  algum tipo de
comportamentoé errado.O único absolutoé que nãohá absolutos.A única coisaque deve
levar  alguém  a  sentir-se  culpado  é  essa  mesma  pessoa  sentir-se  culpada por  algo.
Este  relativismo  moral de  hoje em  dia é  o  correspodente  moderno  do  politeísmo da
antigüidade. O  que está verdadeiramente por trás dessa grande variedade de moralidades,
de bens morais, é uma enorme variedade de deuses modernos: o sucesso, a felicidade, o
sexo, o dinheiroe o progresso,por exemplo.O neo-paganismo é, portanto, não apenas uma
forma de humanismo (de divinização do ser  humano),  mas  também  uma  forma  de
politeísmo  idólatra  em que cada  ser  humano  torna-se um deus,  um absoluto  sagrado,
transmissor em vezde receptorda lei moral. (28)
Mas isso não significaque um retornoà moralidade pré-cristãé a resposta. Essa aliás, tem
sido a proposta da filosofia moderna racionalista no  últimos trezentos anos. (29) A  ética
cristã compartilha da objetividade e  da  absolutividade características da ética pagã (que o
neo-paganismo não possui), mas as semelhanças terminam aí. É  bem verdade que a ética
cristã tem sofrido a má influência da  filosofia racionalista, e tem adquirido dessa forma
uma similaridade à ética pagã maior do  que é recomendável. Mas sob  o  prisma correto
percebe-seque os pontos de vista pagãose cristãos são radicalmente diferentes. Enquantoa
ética racionalista encontra seu fundamento na supremaciae na autonomia da razão humana,
a ética cristã fundamenta-se na revelação especial de Deus, nas Escrituras Sagradas.A ética
racionalista,  quando  teísta,  sugere  que  Deus  aprova  certa  atitude ou comportamento
humanos porque eles são bons em si mesmos. Creioque a ética cristã deve opor-se a esta
cosmovisão e sugerir o  oposto, isto é, que uma certa atitude ou  comportamento humanos
são bons porque Deus os  aprova. Essa inversão ilustra a natureza essencialmente diversa e
em certo sentido oposta das éticas cristãe clássica-pagã.
C. Religiosidade
Finalmente, o  senso de  transcendência a  que em seguida nos referimos é  o  maravilhar-se
diantedo mistério,que levavao pagão pré-cristão ao atode adoração. No mundo moderno,
o sentido, o  instinto e  a prática da  adoração per se entraram em declínio. Na civilização
ocidental é  cada vez menor o  número de pessoas que adoram seja quem ou  o  que for.
Mesmo em nossas igrejas temos visto essa influência nefasta do neo-paganismo, levando
nossas  comunidades a  adotar liturgias  em que  o  sentimento  de  reverência cede  lugar à
descontração e  o  bem-estar do  adorador torna-se  mais importante  que sua  contrição e
dedicação. Os efeitos se fazem presentes também na teologia moderna, emque as doutrinas
são  desmitologizadas,  desmiraculizadas e  desdivinizadas.  Assim,  até  mesmo  teólogos
cristãos  tornaram-se  adeptos da mentalidade  moderna  neo-pagã,  uma  vez que  o  neo-
paganismo,  diferentemente  do  velho  paganismo da antigüidade,  abandonou a  crença  no
sobrenatural e  no  transcendente e tornou-se  naturalista e  imanentista.  Aos  poucos a
religiosidade neo-pagã foi-se tornando, portanto, não somente uma forma  de humanismo
disfarçado e uma re-edição  piorada do  politeísmo,  mas  também  uma  forma  popular de
panteísmo. O  panteísmo popular moderno é uma religiosidade muito confortável em que
Deus é transformado numa espécie de "força" à la Guerra nas Estrelas, disponível sempre
que necessário, masque não incomoda. (30)É convenientepara os seres humanos verem-se
como  "bolhas da grande  espuma  divina"  em  vez de  compreenderem-se  como  filhos
rebeldesde um Pai divinoe justo, desesperadamente carentesde se reconciliarem com ele,
e absolutamente impotentes noque se referea essa condição espiritual.O panteísmo rejeita
qualquer idéia que se assemelhe ao conceito bíblico de pecado porque pecado implica em
separação entre Deus e  o  pecador (Rm 3.19-20; 5.12; 8.7-8; 11.32), e  ninguém pode estar
separado  da  totalidade.  Por  isso,  não  pode  haver  temor  de  Deus sob uma  perspectiva
panteísta. Portanto, do  ponto  de vista neo-pagão, o  que  a Bíblia chama de "princípio da
sabedoria"(Pv  1.6)  é  aquiloque precisa  ser  erradicado  das  mentes  acima  de tudo.
A solução, portanto, não se encontra em uma apropriação mais cautelosa ou mais exata do
paganismo clássico pré-cristão. Apenas a fé cristã possui as respostas para  os problemas
práticos, teóricos e religiosos do mundo de hoje. O senso de transcendência do  paganismo
não pode  ser  visto  como  equivalente  ao  senso  de  transcendência  cristão.  Este último é
qualitativamente diferente daquele. Nãoé à toa quea mais explicitamente pagã de todas as
heterodoxias modernas,o deísmo, seja uma teologiaque enfatizea transcendência divina ao
preço  da  imanência divina.  A  fé cristã  ortodoxa  rejeita  ambas  as  opções  radicais  de
transcendência  (deísmo)e  de imanência  (teologia  liberal do século  XIX)  das  correntes
teológicasque buscarama síntese do paganismo como cristianismo.A conclusãoa que se
chegaé que o neo-paganismo acabapor cair, ou no racionalismo, ouno irracionalismo. Os
grandes pensadores cristãos dos últimos séculos,  percebendo essa  terrível  encruzilhada,
insistiram na necessidadede enfatizara totalidade humana,de salientaro fatode queo ser
humano  precisa  ser  compreendido  em sua inteireza,  sem  ser  dividido,  fracionado,
compartimentalizado.O ser humano nãoé apenas razão, ou emoção,ou vontade,ou corpo,
ou espírito. O ser humano  é  um todo, e só pode ser compreendido corretamente se visto
como umtodo. Minha opiniãoé que teorias dicotomistas ou tricotomistas são racionalismos
que  devem  ser  rejeitados.  Afirmando a  unidade  do ser humano,  e  as  simultâneas e
completas  transcendência e imanência  de Deus, o cristianismo não deixa  espaço  para
noções  panteístas,  e  se  mostra superior  tanto  ao  paganismo  quanto  ao  neo-paganismo.
Post-Scriptum
Como afirmei no início, a chamada Nova Era não é  uma conspiração. Mas na unificação
dos  inimigos  da  fé  cristã, a  saber,  panteísmo,  politeísmo e  humanismo,  unificação  esta
levada a  cabo pelo neo-paganismo, pode-se perceber a estratégia do inferno, que todavia
não pode prevalecer contraa igreja. Pelo contrário,é a igrejaque estápor lhe arrombar as
portas (Mt 16.18). No Calvário, quando as forças anti-cristãsdos mundos grego, romanoe
hebreu  se uniram  na crucificação  de  Cristo (fato  este  simbolicamente  representado na
acusação contra Cristo afixada na cruz, escrita em três línguas: Lc 23.38; Jo 19.19-20), o
triunfo do mal foi  também a derrota do mal, e  a morte do  Filho de  Deus significou a
redenção do  ser  humano  (ver Cl  1.13-14).  Nós  estávamos  condenados  pelas  nossas
transgressões, e Deus  nos  deu  vida  em  Cristo,  perdoando-nos  nossos  delitos,  "tendo
canceladoo escrito dedívida que era contranós e que constavade ordenanças,o qual nos
era  prejudicial,  removeu-o  inteiramente,  encravando-o  na  cruz;  e,  despojando  os
principados e  as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando sobre eles na
cruz" (Cl2.13-15). Certamente,o neo-paganismode nossos dias estará em breve tão morto
e enterrado quanto o velho paganismo dos  antigos está hoje. E  o Deus revelado em Jesus
Cristo, aquele que pronuncioua primeira palavra, terá novamentea última palavra. "Eu sou
o Alfa e  o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que  é, que era, e  que  há  de  vir,  o  Todo-
poderoso" (Ap 1.8).
1 G. K. Chesterton (1874-1936)é um autorque precisa ser mais lido no Brasil. Chesterton
era um grande amigo de C. S. Lewis. Seus livros ensinam como se faz filosofia cristã de
primeira  qualidade e foram  algumas  das  melhores  respostas  cristãs  ao  pensamento
moderno. Eu recomendo, por exemplo,os livros Orthodoxy (Nova York: Doubleday, 1990
[1908]), Heretics (Londres: G. Lane, 1905)e The Everlasting Man (San Francisco: Ignatius
Press, 1993 [1925]).
2 Chesterton, The Everlasting Man, 237.
3 Ibid., 237-38. Minha tradução.
4  Para  saber  mais  sobre o  chamado  pós-modernismo,  ver  Stanley  J.  Grenz,  Pós-
modernismo: Um Guia para Entendera Filosofia do Nosso Tempo (São Paulo: VidaNova,
1997). Esse livroé uma boa introdução ao assunto. Outros livrosque podem serde auxílio
nesse complicado tema filosóficoe cultural são:Brian D. Ingraffia, PostmodernTheory and
Biblical  Theology  (Cambridge,  Inglaterra:  Cambridge University Press,  1995),
especialmente pp. 167ss.; J. Richard Middleton e  Brian J. Walsh,Truth Is Stranger than It
Used to Be (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1995), especialmente a primeira
parte,  pp. 7-84;  David  S.  Dockery,  ed.,  The  Challenge of Postmodernism  (Wheaton,
Illinois:  BridgePoint,  1995); e Gene  Edward  Veith,  Jr.,  Postmodern  Times  (Wheaton:
Crossway, 1995).  Ver também o meu artigo "A Morte e  a Morte da  Modernidade: Quão
Pós-moderno é  o Posmodernismo?" Fides Reformata 1:2 (Julho-Dezembro 1996), 59-70.
5 O que se chama de  modernismo é  a  cosmovisão que prevaleceu durante  os últimos três
séculos,  caracterizada  pelo  seu  cientificismo,  historicismo,  racionalismo, e otimismo
humanista,  entre  outras  coisas.  Ver  Robert  B.  Pippin,  Modernism  as a Philosophical
Problem (Oxford: Blackwell, 1991).
6 Chesterton, Orthodoxy, 259. Minha tradução.
7 Ver Peter Gay, The Enlightenment: The Rise of Modern Paganism (Nova York: W. W.
Norton& Company, 1966), 256-321. A teoria básica de Peter Gay serviu também de base
para  este  artigo,  isto  é,  que  "o  iluminismo  foi  uma  mistura  volátil de classicismo,
impiedade,  e  ciência;  les  philosophes,  resumindo,  eram  pagãos  modernos."  Ibid.,  8.
8 Os  especialistas  divergem,  contudo,  quanto  ao  relacionamento e envolvimento entre
humanistase reformadores,e se seria historicamente correto considerar estesum sub-grupo
daqueles. Ver, por  exemplo, os estudos do erudito calvinista tcheco Josef Bohatec sobre
esse  assunto:  Die  Religionsphilosophie  Kants,  1938,  reimpresso  em  1966.
9 Confira Gay, The Enlightenment,3-27.
10 Ver Immanuel Kant, Religion within the Limits of Reason Alone (Nova York: Harper
Torchbooks, 1960).
11 Ver, por  exemplo,  as  populares  obras  de  ficção de  Frank Peretti  (e.g.,  Este  Mundo
Tenebroso), e livros como:  John  Bevere,  The  Bait of Satan  (Orlando:  Creation  House,
1994) e  Bob  Larson, Straight Answers on  the New Age (Nashville: Nelson Publishers,
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1989). Não que estes livros sejam imprestáveis, ouque seus autores sejam charlatães. Mas
há uma  atitude  que  me  parece  errada  entre  os  chamados  "profetas da desgraça"  do
evangelicalismo americano, uma vontade de  formular teorias místicas e maniqueístas de
conspiraçãoe de uma espécie de "ocultismo cristão"que considero heterodoxoe prejudicial
paraa saúde espiritual da igreja.
12 Para saber mais sobreo tema "batalha espiritual," vero livro de David Powlison, Power
Encounters: Reclaiming Spiritual Warfare (Grand Rapids: Baker, 1995) e  também o  livro
de Augustus Nicodemus G. Lopes,O que Você Precisa Sabersobre Batalha Espiritual (São
Paulo: Editora CulturaCristã, 1997).
13 Aindaque eu esteja aqui fazendouso da expressão cunhada pelopensador pós-moderno
Michel Foucault em Arqueologia do  Conhecimento, isso não significa que  estou adotando
ipsis litteriso métododo filósofo francês, quepor sinal possui boas qualidades.
14 O método aqui adotado enquadra-se melhordentro da tradição estabelecida pelo filósofo
calvinista holandês Herman Dooyeweerd. Ver, por exemplo, Roots of the Western Culture
(Toronto: WedgePublishing Foundation, 1979).
15 Vero capítulo "Christianity and the New Paganism," em Peter Kreeft, Fundamentals of
the Faith: Essays in Christian Apologetics (San Francisco: Ignatius Press,1988), 102.
16 Ibid.
17 Citado por Kreeft, Fundamentals of the Faith, 102. Minha tradução. Vero capítulo "The
Escape from  Paganism,"  em  Chesterton,  The  Everlasting  Man,  232-49, e  o  capítulo
"Authority and the Adventurer," em Orthodoxy, 141-60.
18 John M. Rist, estudiosode Agostinhoe professorna Universidade de Toronto, Canadá,
é uma das maiores autoridades vivas sobreo pensamento do celebradobispo de Hipona.
19 John M. Rist, Augustine: Ancient Thought Baptized (Cambridge, Inglaterra: Cambridge
University  Press,  1994),  12.  Minha  tradução.  Eu  creio,  todavia, que  é inadequado
interpretar a experiência de conversão  dessa  forma.  Ainda que haja  uma  inegável
continuidade, a conversão implica numa completa transformação do indivíduo  no mais
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íntimo do seu ser, e  toda continuidade que ocorrer tem que ser interpretada à  luz dessa
transformação essencial. Na vidado próprio Agostinho podemos ver como todaa bagagem
trazida do paganismo recebeu em suas mãos uma nova significação. Mas a continuidade
existe,e talveza melhor forma de explicá-laé perceberque a conversão representa, não um
giro de  180  graus, mas sim um  giro de 360  graus, isto é, a  vida prossegue, e  o  indivíduo
inicia, após sua conversão, um longo processo de reavaliação de suas idéias e concepções
atravésdo qual ele redimensiona sua existência.
20 Kreeft, Fundamentalsof the Faith, 102-106.
21 Uma das questões mais controvertidas da  história da  teologia refere-se justamente ao
graude penetraçãoe influência das idéias pagãs durantea construçãodo edifício teóricoda
teologia cristã. Não existem respostas fáceis para esse complexo problema. Muito do  que
há de melhorna teologia conservadora dos últimos trezentos anos representaum esforço no
sentido de procurar uma aproximação maiore mais pura ao ensino das Escrituras, livre dos
preconceitos e  distorções  provocados  pela influência pagã na  igreja e  na teologia  cristã
desdeo primeiro século atéos nossos dias.
22 John  Locke e  Isaac  Newton  foram os  mais  importantes  mentores  do  iluminismo.
Todavia, eles funcionaram mais como ícones, símbolos de uma revolução do  pensamento
que propriamente uma influência concreta em termos de idéias que muitas vezes não eram
conhecidas ou eram mal compreendidas. Ver, por exemplo, o excelente estudo de  Gerd
Buchdahl, The  Image of Newton  and  Locke in  the Age  of Reason (Londres: Sheed &
Ward, 1961).  A física  newtoniana  teve de  qualquer  modo  um  papel  importante  no
iluminismo servindode inspiração e paradigma para todas as áreasdo conhecimento. Boas
introduções para  os  aspectos  gerais do  pensamento  newtoniano, e  boas  biografias  de
Newton (o método biográfico ajuda bastante aqueles que, como eu, têm dificuldades de
compreender  as  nuances da física  newtoniana),  são  Louis  T.  More,  Isaac  Newton: A
Biography  (Nova  York:  Dover,  1962);  J.  D.  North,  Isaac  Newton  (Oxford:  Oxford
University Press, 1967); Richard S. Westfall, The Life of Isaac Newton (Cambridge, Ingl.:
Cambridge University Press, 1993); A. Rupert Hall, Isaac Newton: Adventurer in Thought
(Oxford:  Blackwell,  1992);  Frank  E.  Manuel,  The  Religion of  Isaac  Newton  (Oxford:
Clarendon Press, 1974) e  I. Bernard Cohen, The Newtonian Revolution (Cambridge, Ingl.:
CambridgeUniversity Press).
23 Veros diálogosde Platão, especialmente Mênone Êutifron.
24 O famoso gnothi seautonde Sócrates.
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25 Ver Aristóteles, Ética a  Nicômaco. Como sugere Chesterton, "o paganismo declarava
quea virtude estava no equilíbrio;o cristianismo declarou quea virtude estáno conflito:a
colisão de duas paixões aparentemente opostas". Orthodoxy, 92. "São Francisco, ao louvar
tudo  que é bom,  conseguia  ser um otimista  mais  exagerado  que  Walt  Whitman.  São
Jerônimo, ao condenartoda maldade, era capaz de pintar um quadro ainda mais escuro do
que Schopenhauer." Ibid., 96. "O leão se deitará com o  cordeiro. Mas note que este texto
tem sido interpretado de  forma muito suave. Nós somos constantemente assegurados por
nossas tendências tolstoyanas que,quando o leão se deita como cordeiro, ele se tornaigual
a  um cordeiro. Mas isso é  uma anexação brutal e  um imperialismo da  parte  do cordeiro.
Isso é apenas o  cordeiro absorvendo o leão em vez de o  leão comendo o  cordeiro. O
verdadeiro enigma é: pode  o  leão se deitar ao lado do  cordeiro e todavia manter toda sua
ferocidade real? Esse é  o enigma que a igreja tentou resolver; esse é  o  milagre que ela
alcançou." Ibid., 98.
26 Gay, The Enlightenment, 226.
27 O conceito de quase-religiões foi criadonos anos60 pelo teólogo neoliberal Paul Tillich
para referir-se a fenômenos secularistas, como, por exemplo, o  marxismo, o  nazismo, o
humanismoe o cientificismo.
28 Ver, por exemplo, o volume de  ensaios sobre cristianismo e cultura editado por Os
Guinness e  John Seel, No God but  God: Breaking with the Idols of  our Age (Chicago:
Moody Press, 1992).
29 A ética moderna em geral tem privilegiado uma metodologia racionalista. Tantoa ética
deontológica de  Kant e seus seguidores, quanto  a  ética utilitarista dos ingleses Bentham e
Stuart Mill são calcadas na ética pagã, e desconhecem a noção de uma ética baseada na
revelação especial de Deus. Os pressupostos básicos por trás das éticas racionalistas são a
supremaciae a autonomia da razão humana.
30 Vera críticaque o celebrado pensador cristão inglêsC. S. Lewis já fazia nos anos 40a
essa mentalidade em seu livro Miracles(Nova York: Macmillan, 1947).

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