Sendo o incondicionado, perfeito, não nascido, mas sempre onipresente e onisciente, de onde e como surgiu a ignorância? A perfeição suprema não pode gerar a imperfeição, bem como a onisciência não pode gerar a ignorância a não ser por um ato de vontade. Se há ignorância, condições e mundo da ilusão onde antes só havia o incondicionado, não ilusão e não ignorância (e tal mundo tem começo, Buda, a ciência e Jesus afirmam também o mesmo) então tal mundo e seres só podem ter surgido da perfeição incondicionada e por um ato de vontade da mesma. Portanto o mundo foi criado e se foi criado pela plenitude da perfeição deve ter um propósito.
Buda nega um mundo criado por um deus perfeito. Mas o que significa deus na linguagem que Buda falava? Em qualquer dos idiomas da índia antiga não existia a palavra deus equivalente ao conceito que se tem hoje de deus em qualquer religião monoteísta. O único conceito parecido a um deus absoluto e mesmo assim não criador e sim emanador do universo é o definido na palavra Brahman, que não era chamado de deus como Brahma ou outros, mas de Eu supremo. Buda nega a existência de um eu permanente individual e de um eu superior individual, mas silencia quanto a um eu absoluto ou supremo no sentido monoteísta, aliás essa questão sequer foi proposta, nem mesmo a questão de uma personalidade de Deus como foi proposto por Krishna é aventada. Buda nega que Brahma criou criou o universo, ele também conhecia muito bem os conceitos brahmanistas como expostos nos upanishads pois a classe guerreira era instruída com a mesma doutrina dos brahmanes na época em que ele era ainda príncipe. Porém sabendo disso Buda não nega Brahman nem qualquer conceito semelhante a ele, pelo contrário ele se recusa a falar de tal tema. O que ele nega é que haja algum deus ou força criadora, coisa que não se pode dizer que o incondicionado seja a não ser no sentido de latência ou potência, conceito tão abstrato que nem a física esclarece por completo.
A perfeição e o incondicionado não podem produzir ao acaso ou por derivação ou automaticamente ou por qualquer outro meio a imperfeição e o incondicionado. A não ser que haja um ato voluntário. Para que haja um ato voluntário de algo incondicionado é preciso que haja ciência do ato, pois se não houvesse estaríamos retornando à afirmação de que o incondicionado produz mecanicamente ou por derivação natural ou por qualquer outro meio. Então está provado, sem necessidade de citar nenhum teórico ou texto budista zen ou jonangpa ou de qualquer outra tradição ou patriarca, que o budismo só pode ser teísta ou seria ilógico e impossível.
terça-feira, 15 de agosto de 2017
DIÁLOGO ENTRE PSICANÁLISE E ZEN
Diálogo entre psicanálise freudiana e zen-budismo a respeito do eu, da subjetividade, e da identidade. Pedro Rodrigo Peñuela Sanches; Gilberto Safra (orientador) Instituto de Psicologia - Universidade de São Paulo 1. Objetivos A atual pesquisa realizou-se como continuação da pesquisa apresentada no 13º SIICUSP, intitulada "O desejo e suas implicações na constituição do eu conforme o zen-budismo e a psicanálise freudiana", de modo a manter e aprofundar a proposta de diálogo teórico entre psicanálise e filosofia zenbudista. Procurou-se, nela aprofundar a investigação a respeito das noções de eu e de subjetividade nos dois sistemas, bem como discutir as implicações para a psicanálise de um debate entre as concepções de Freud e as do zen-budismo. 2. Material e métodos Trata-se de pesquisa bibliográfica – semelhante à anterior –, cujo método consiste na leitura de textos e posterior articulação crítica de suas idéias de acordo com o recorte estabelecido. Concentrou-se a leitura em textos metapsicológicos da obra de Freud (escritos entre 1900 e 1939), e em textos clássicos do budismo primitivo e do zen-budismo. Além disso, foram realizadas entrevistas com psicanalistas e zen-budistas, a fim de permitir uma reflexão sobre as implicações das noções estudadas, no cotidiano de pessoas que praticam algum dos dois sistemas 3. Resultados e conclusões parciais A noção de eu ao longo da obra de Freud já aparece em seus primeiros textos psicológicos conceituada principalmente como uma das partes em tensão no conflito psíquico. Desde os primeiros textos analisados, é parte fundamental do conflito psíquico o esforço do eu para desalojar da consciencia tudo o que, ainda que também o constitua, é contraditório com a trama identitária construída e amada no processo narcísico. É nas relações com o outro que em grande parte o eu se constitui, tendo de renunciar ao lugar de objeto narcísico, erigindo um ideal de eu a perseguir, e passando a ser instância defensora da renúncia à satisfação pulsional imediata, promotora do processo secundário, e do princípio de realidade. Nesse sentido, é à relação com os outros e com a cultura que o eu deve sua gênese e também a fonte principal de seu conflito com sua raiz pulsional, mas é também no campo dessa relação que pode encontrar formas alternativas de algum tipo de integração entre sua identidade e as pressões pulsionais. No budismo, por sua vez, procura-se desmantelar a noção de eu, por ser entendida como a principal das ilusões fontes de sofrimento. Na argumentação dos textos clássicos budistas escritos em páli, coloca-se que o a ilusão do eu nasce da ilusão de que algum ou todos os "cinco agregados" – quais sejam, matéria, sensação, percepção, formações mentais, consciência –, constituem base de uma identidade permanente; o que, na argumentação budista é impossível, na medida em que estes "agregados" são dependentes de causas e condições constantemente mutáveis, não tendo portanto nenhuma solidez ou fixidez. O zen-budismo introduz um posicionamento mais paradoxal, expresso na frase de um de seus fundadores, Ehei Dogen, de que "estudar o budismo é estudar a si mesmo; estudar a si mesmo é esquecer de si mesmo". O que esse sistema, como desenvolvimento histórico do budismo inicial coloca é a possibilidade de o sujeito constituirse como dotado de uma ipseidade ainda que destituído de identidade permanente. Nesse sentido, seria possível pensar um sujeito que possa agir no mundo de maneira mais livre do esforço neurótico por manter a coerência com uma identidade mormente imaginária.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
O EVANGELHO E SUA AUTORIA
Apologética do Novo Testamento - Universidade da Bíblia
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No período em que os evangelhos foram escritos, não existia a lei de copyright, que garante o direito exclusivo ao autor da obra de imprimir, reproduzir ou vender, enfim, de deter exclusivamente seus direitos autorais. Naquela época remota, sem o recurso da imprensa, quando os livros eram escritos com tintas em pergaminhos ou códices, mais de uma vez a obra de um autor foi atribuída a outro, devido às muitas semelhanças entre elas. E nem mesmo se fazia questão sobre esse assunto, que só ganhou relevância com o advento da imprensa. Por exemplo, Domenico Grasso fornece uma boa lustração a respeito, quando diz: “Durante séculos, acreditou-se que a obra sobre ‘hierarquia celeste’ fosse da autoria de Dionísio Aeropagita, convertido por São Paulo (At 17.34), enquanto se demonstrava pertencer a um filósofo neoplatônico do século 5o, comumente chamado ‘pseudodionísio’. Ainda hoje se discute a autenticidade de algumas obras da antiguidade clássica, conhecidas por Appendix Vergiliana e Epistolae ad Caesarem, atribuídas a Salústio. O problema da autenticidade de um documento é de enorme importância porque dela depende o seu valor”. E Domenico Grasso chega à seguinte conclusão em relação aos escritos sagrados neotestamentário: “O problema também é válido para os evangelhos. Quem são os seus autores?”. Existe alguma maneira de sabermos se esses evangelhos foram escritos pelos apóstolos? É bom frisar (e muitos desconhecem este fato) que nenhum dos evangelhos, como os conhecemos hoje, com os títulos de “Evangelho segundo São Mateus (kata Maththaion), São Lucas ou São João”, veio com a assinatura pessoal de seu autor. E, por conta dessa dificuldade, não podemos, apenas pelo recurso literário, saber quem os escreveu. No começo, os evangelhos eram anônimos. Mas isso não quer dizer que não sabemos, com certeza, quem foram seus autores verdadeiros. Por outro lado, repudiamos a idéia maldosa de que a Igreja tenha escolhido, aleatoriamente, tais nomes com o fim de dar autoridade a essas obras. Além disso, temos outra dificuldade: não possuímos os autógrafos (escritos originais) conforme saíram da pena dos apóstolos. Mas isso não é tão embaraçoso como muitos críticos pensam. Pode ser explicado satisfatoriamente por dois fatores básicos: O material no qual se escrevia, o papiro, era frágil, que logo se desgastava, portanto, os textos tinham de ser recopiados. Tais cópias eram feitas em rolo de papiro (planta) e, mais tarde, em códices (em formato de livro) com letras unciais (escritos em caracteres maiúsculos) ou em códices minúsculos. Os chamados lecionários (antologias de textos para uso litúrgico) vieram depois, também confeccionados em papiro e, posteriormente, em velino e pergaminho (pele de animais). As perseguições sofridas pelos cristãos, quando seus escritos sagrados estavam em constante perigo de ser destruídos. Assim, é provável que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se gastassem, desfazendo-se por completo. Os evangelhos, contendo o título-nome dos autores, vieram das cópias dos códices antigos. Os dois códices mais importantes do Novo Testamento são: o códice vaticano e o códice sinaítico. Se levarmos em consideração que tais códices vieram de todas as províncias do Império, desde o século 4o até o 9o, somando um total de mais de 4 mil, é incrível como a Igreja primitiva, em todas as partes, aceitou com unanimidade os autores dos quatro evangelhos sem contestação. Isso só pode ter ocorrido devido ao fato de que os títulos muito cedo foram partes integrantes dessas obras. Grasso ainda afirma: “Ninguém conhece um autor diferente daquele conhecido pelos outros. Se em alguma região viessem a saber que o autor de determinado evangelho não era o mesmo a quem se atribuía sua autoria em outro lugar, era coisa fácil de ser conhecida”. Todavia, nunca houve divergência no seio da Igreja sobre a autoria dos quatro evangelhos. É improvável até que esses livros tenham circulado durante décadas para somente no século 2o serem estereotipados pela Igreja. Poderia ter havido discordâncias, caso ninguém soubesse quem eram os autores de tais obras. O papirólogo Carsten Peter Thiede corrobora com essa opinião: “É inconcebível que alguém tivesse ousado inventar candidatos tão improváveis e tão pouco conhecidos como Marcos e Mateus (ou até mesmo Lucas), se estes não tivessem sido realmente os nomes dos autores — ou se, de alguma forma, não tivessem uma ligação direta com aqueles escritos”.
Para que possamos ter uma idéia de como era certa a tradição de a autoria dos evangelhos ser atribuída aos quatro evangelistas, nos basta tão-somente considerarmos o fato de que até mesmo os heréticos aceitavam, sem contestação, que a autoria dos evangelhos procedia, respectivamente, de Mateus, Marcos, Lucas e João. Irineu, em seu livro apologético, nos assegura que “o valor dos evangelhos é tão grande que recebe o testemunho até dos próprios hereges...”. Prosseguindo, ele diz “que cada um pretendia apoiar suas teorias particulares em um dos evangelhos. Por exemplo, a seita dos ebionitas tinha preferência pelo evangelho de Mateus. O herege Marcião, pelo de Lucas. Já os valentinianos se apegavam ao de João”. Pelo depoimento de Irineu, percebe-se que até mesmo os mais primitivos heréticos aceitavam Mateus, Marcos, Lucas e João como respectivos autores dos quatro evangelhos que levam os seus nomes. Além disso, temos o testemunho de outros pais da Igreja primitiva. O escritor e historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, em sua obra História eclesiástica, conserva fragmentos dos escritos de Papias, bispo de Hierápolis e escritor cristão do início do século 2o (c. 130 a.D.), que conheceu os discípulos dos apóstolos. Papias nos dá a seguinte informação quanto aos autores dos dois primeiros evangelhos: Mateus e Marcos. Quanto a Marcos, diz o seguinte: “Marcos, sendo o intérprete de Pedro, tudo o que registrou escreveu com grande exatidão, mas não na ordem em que foi falado ou realizado por nosso Senhor, pois ele não ouviu nem seguiu nosso Senhor, mas, conforme disse, esteve em companhia de Pedro, que lhe deu tanta instrução quanto necessária [...] Assim Marcos não errou em nada ao escrever algumas coisas como ele as recordava...”. Quanto a Mateus, escreve: “Mateus compôs sua história em dialeto hebraico e cada um traduzia segunda a sua capacidade”. Em 170, Irineu de Lião, refutando os hereges de seu tempo, menciona Lucas como autor do terceiro evangelho: “Ora, se Lucas, que sempre pregou e evangelizou com Paulo, que teve confiada a missão de sempre nos transmitir o evangelho...”. Por isso, D. A. Carson chega à seguinte conclusão: “... O único evangelho circulou cedo sob quatro formas distintas: ‘Segundo Mateus’ [...], sendo que a preposição apresenta a pessoa que se acreditava ser o seu autor”. Esses dados fornecem provas confiáveis que nos permitem afirmar com segurança que seus autores são verdadeiramente aqueles a quem são atribuídos. 4.1. Por Que Apenas Quatro Evangelhos? Entre os estudiosos da numerologia bíblica (a numerologia bíblica é apenas simbólica), o número quatro representa universalidade. Quatro são os pontos cardeais. Quatro são as estações do ano em todo o mundo. E quatro foram os impérios mundiais. O evangelho de Cristo também é transcultural, não se restringe a nenhuma raça, cor ou cultura específica, mas se estende a toda a criatura debaixo do céu em todos os tempos. Seu alcance é universal. Diz Josh MacDowell que os “quatro evangelhos haviam-se tornado tão axiomáticos no mundo cristão que Irineu pôde se referir a eles como um fato comprovado e reconhecido tal como os quatro pontos cardeais”. Vejamos o que disse Irineu: “Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que esses quatro. Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos [...] Por isso é evidente que o Verbo, Artífice de todas as coisas, que está sentado acima dos querubins [...] nos deu um evangelho quadriforme sustentado por um único Espírito”. Já bem cedo, em 160 d.C, um cristão chamado Taciano separou os quatro evangelhos em seu Diatessaron (expressão que significa “pelos quatro”). Assim se expressa Eusébio de Cesaréia a respeito: “Taciano, tendo formado certo corpo e coleção de evangelhos, não sei como, deu-lhes este título, Diatessaron, que é o evangelho dos quatro, ou o evangelho formado pelos quatro...”.
Eusébio cita, ainda, outro escritor cristão do século 2o, Clemente de Alexandria (150- 215), que fala dos “quatro evangelhos transmitido até nós”, e conhece uma tradição segundo a qual foram escritos primeiramente aqueles que contêm a genealogia do Senhor, isto é, Mateus e Lucas. Clemente também dá a tradição a respeito da ordem dos evangelhos, conforme transmitida pelos presbíteros mais velhos: “Ele diz que os que contêm as genealogias foram escritos primeiro...”. Orígenes, um dos apologistas da fé cristã da segunda metade do século 2o, conhecia o nome dos quatro evangelistas e a ordem em que escreveram, como conhecemos hoje, a saber: Mateus, Marcos, Lucas e João. Tertuliano (160–223), advogado e apologista, ao escrever, no início do século 3o, contra Marcião, atesta o valor dos quatro evangelhos frente à heresia de Marcião, que só admitia o evangelho de Lucas. O Canon muratoriano também nos fala do reconhecimento dos quatro evangelhos pela Igreja romana. No prólogo de seu evangelho, Lucas deixa claro que, em sua época, já existiam outros escritos sobre a vida de Jesus: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1.1). Não obstante, cremos que Deus quis preservar somente quatro livros contendo a narrativa verdadeira, fiel e inspirada sobre a vida de Cristo. 4.2. Um ou Quatro Evangelhos? Já vimos o motivo pelo qual o Senhor Deus nos deu um evangelho quadriforme. Agora, estamos diante de outra incógnita: “o evangelho” ou “os evangelhos”? Como devemos denominar? Parece que o termo apresenta a mesma aparente dificuldade tal como aconteceu com a expressão “Escritura” ou “Escrituras”. No começo, era um termo geral, significando simplesmente escritos. Mais tarde, deu-se a designação mais precisa: “a Escritura” ou “as Escrituras”, para distinguir os escritos sagrados dos judeus. O apóstolo Pedro classifica alguns textos do apóstolo Paulo como “Escritura”. Paulo, ao escrever a Timóteo (1Tm 5.18), cita o evangelho de Lucas (Lc 10.7) e o livro de Deuteronômio (Dt 25.4), conferindo a mesma autoridade escriturística a ambos. Com respeito aos evangelhos, Carson elucida a questão ao dizer que “nenhum dos quatro relatos sobre o ministério de Jesus recebe no Novo Testamento o nome de evangelho [...] Talvez, perto do fim do século 1o, ou início do 2o, acrescentaram-se títulos aos relatos oficiais da Igreja sobre o ministério de Jesus. Foi certamente aí que se empregou ‘evangelho’ pela primeira vez para designar uma obra literária. [...] Não o evangelho por Marcos, mas o [único] evangelho, segundo [a versão de] Marcos...”. Parece que o uso que Marcos faz dessa palavra, já no início de sua obra (1.1), serviu para consagrar o termo como obra literária. Justino, o mártir (133 d.C.), foi o primeiro a empregar o termo “evangelho” para designar os relatos canônicos do ministério de Jesus. F. F. Bruce, ao comentar sobre os evangelhos, dá o parecer de que “já em data bem remota vieram os quatro evangelhos a constituir uma unidade integrada. E essa coleção de quatro documentos era originalmente conhecida como ‘o evangelho’, no singular, e não ‘os evangelhos’, no plural. Havia apenas um evangelho apresentado em quatro narrativas [...] Por volta de 115 a.D., Inácio, bispo de Antioquia, refere-se ao ‘evangelho’ como escrito revestido de autoridade, e, visto que conhecia mais de um dos quatro ‘evangelhos’, é provável que o título designe a coleção assim chamada, então”. Geralmente, dá-se o nome de “quatro evangelhos” aos primeiros livros do Novo Testamento. Antes do século 4o, todavia, a coleção era designada apenas pelo nome de “o evangelho”, distinguindo-se as diferentes formas por “segundo Mateus”, “segundo Marcos”, e assim por diante.
Mas as expressões “evangelho de Mateus”, “evangelho de Marcos” e “evangelho de Lucas” são apenas nomenclaturas externas provenientes do século 2o. Na verdade, como já vimos, há um só evangelho apresentado em quatro formas, como bem atesta Agostinho em seu Sermão sobre a ressurreição de Cristo, segundo São Marcos: “A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo evangelho”. 4.3. Os “Problemas” dos Sinóticos Aprendemos, nos tópicos anteriores, o que significam e quais são os evangelhos sinópticos. Abordaremos, agora, algumas dificuldades referentes a esses evangelhos. Os evangelhos sinópticos têm sido alvo de extensa pesquisa durante muito tempo. A crítica textual tem feito uma verdadeira devassa em seus textos com o fito de resolver aquilo que denominara de “O problema sinóptico”.Tais problemas, segundo os críticos, seriam supostas contradições apresentadas em alguns trechos. Mas como observa o comentarista Halley, em sua obra Manual bíblico: “O fato de haver pormenores diferentes e ligeiras variantes na descrição de um mesmo incidente faz que o testemunho dos vários escritores se torne tanto mais digno de fé, visto afastar a possibilidade de terem entrado em combinação prévia”. E, citando as palavras do historiador Paul Barnett, “as diferenças entre as narrativas não apenas indicam que Mateus e Lucas estavam isolados um do outro quando escreveram, mas também que as fontes de que dependeram eram bem separadas”. As dificuldades envolvendo os sinópticos foram apresentadas por Champlin, resumidas em forma de várias perguntas, como seguem: Os evangelhos foram escritos “independentemente” uns dos outros, sem qualquer fonte comum oral e escrita, sendo narrativas somente feitas de memória? Se houve fontes comuns escritas ou orais, de que natureza e quantas eram elas? Qual dos evangelhos sinópticos é primário? E esse evangelho foi usado diretamente como fonte de informação pelos demais evangelistas? Qual foi a fonte de material usado pelos evangelhos não primários, naquilo em que estão de acordo entre si, nas passagens que não figuram em Marcos? Quando um evangelho não primário tem material peculiar a si mesmo, qual foi sua fonte informativa? Quais foram as fontes informativas do evangelho primário? Para dirimir esses problemas, os críticos, ao longo dos anos, foram criando várias teorias. Algumas delas já foram abandonadas por completo. Já outras possuem agora apenas alguns raros defensores. E há aqueles, porém, que continuam gozando de grande popularidade entre os eruditos. A seguir, veremos que, indubitavelmente, não se pode tomar qualquer partido em posição dogmática em relação a nenhuma dessas teorias. No trabalho de desvendar o “mistério” da origem dos evangelhos, destacaram-se, principalmente, ao longo dos anos, três teorias que pretenderam apresentar soluções plausíveis para a questão em pauta. Vejamos: 4.4. A Crítica da Forma Os críticos dessa escola se preocupam não com a parte literária dos evangelhos, mas com o hiato deixado entre a transmissão oral até a composição literária dos mesmos. Seus proponentes tentam descobrir como as comunidades cristãs transmitiram os ensinamentos de Jesus. A crítica, neste caso, solapa, de certa forma, a integridade histórica dos evangelhos, pois os críticos dizem que a comunidade cristã criou as fontes das quais os evangelhos derivaram. Propõem que, de acordo com a necessidade enfrentada, as comunidades locais iam inventando episódios ou ensinamentos acerca de Jesus para sanar tais dificuldades. Essas coleções, na opinião de seus defensores, foram as responsáveis pela composição dos evangelhos. Em suma, o evangelho, conforme temos hoje, não seria histórias verídicas de testemunhas oculares, mas refletiria apenas a crença da Igreja primitiva a respeito de Jesus. Essas unidades isoladas foram costuradas com frases cronológicas pelos evangelistas, tais como: “depois disso”, “poucos dias depois”, “imediatamente”, para dar um tom histórico à obra. O papel crucial dessa escola seria descobrir as leis por trás dessa tradição. Seus principais expoentes são: Martin Dibelius, Rudolf Bultmann e Vicent Taylor, o menos radical deles. 4.5. A Crítica da Redação Em verdade, os críticos dessa escola não se preocupam com a origem dos evangelhos e, tampouco, importam-se com quem foram seus autores. O que menos importa é a parte histórica. Seu principal objetivo é o motivo teológico com que cada autor escreveu e por que escreveu, concentrando-se apenas no texto em si. A crítica da redação depende muito da crítica da forma. A maioria dos críticos da redação se baseia na teoria das duas fontes, tendo o evangelho de Marcos como base para os outros dois. Os principais difusores dessa teoria foram: Gunther Bornkamm, Hans Conzelmann e Willi Marxsen. 4.6. A Crítica das Fontes Uma dessas dificuldades nutridas pelos críticos é saber sobre as fontes dos evangelhos. Em virtude de muitos versos nos três primeiros evangelhos serem idênticos, eruditos, por muitos anos, têm debatido o seu relacionamento. A crítica das fontes visa identificar as fontes escritas usadas para compor os evangelhos. E as soluções que apresenta foram dadas em forma de algumas teorias. A seguir, suas principais teorias: A teoria da dependência de um evangelho original, único o Propõe que houve um único evangelho em aramaico do qual os outros três se abeberaram. A teoria da dependência comum de fontes orais o Propõe a existência de um evangelho baseado em fontes orais transmitido pela Igreja, no qual os outros três se basearam. A teoria da dependência de vários fragmentos escritos o Baseando-se no depoimento de Papias, seu proponente asseverava que existiram vários fragmentos sobre a vida de Jesus, os quais foram evoluindo em sua forma até serem inseridos nos evangelhos sinópticos. A teoria do não-documento o Alega que não houve uma fonte comum aos três evangelhos, mas que todos eles se desenvolveram de modo independente. Seus defensores alegam, ainda, que os evangelistas escreveram somente o que viram e ouviram de Jesus. A teoria da interdependência o É a mais aceita atualmente pela maioria dos eruditos da crítica das fontes. Seus críticos defendem a tese de que entre os evangelhos havia uma interdependência, ou seja, um deles foi a fonte dos outros dois. Dentro dessa teoria se desdobram mais algumas hipóteses das quais analisaremos apenas quatro: Hipótese agostiniana, Agostinho, bispo de Hipona, propôs, baseado na tradição, que Mateus foi o primeiro evangelho a ser escrito e que Marcos, posteriormente, serviu-se dele para coletar dados e compor seu evangelho. Lucas, por sua vez, seria uma compilação tanto de Marcos como de Mateus. Hipótese das duas fontes o Segundo muitos, parece ser a que fornece melhor explicação para as similaridades entre os evangelhos. O ponto de vista preponderante, na atualidade, é que o evangelho de Marcos foi escrito primeiro e Mateus e Lucas usaram Marcos como fonte para os seus evangelhos. Visto que Mateus e Lucas são mais extensos que Marcos, é claro que eles contêm materiais que não se encontram em Marcos. Mateus contém material que não se encontra em Lucas e Lucas contém material que não se encontra em Marcos. Mateus e Lucas contêm algum material idêntico que não se encontra em Marcos. Mais tarde, foi acrescentada uma certa fonte “Q” (da língua alemã Queller = fonte). Segundo essa mesma teoria, Mateus e Lucas teriam escolhido apenas o que lhes era conveniente dessas duas fontes. Hipótese dos dois evangelhos o Alguns críticos, como Willian Farmer e C. S. Mann, sustentam a hipótese de Griesbach. E, apesar de sustentarem a crença de que o evangelho de Mateus foi o primeiro a ser escrito, colocam, diferentemente de Agostinho, Lucas em segundo lugar e fazem Marcos depender tanto de Mateus como de Lucas. Hipótese dos quatro documentos o Foi proposta como solução alternativa aos resquícios de problemas deixados pela hipótese das duas fontes. Como resultado do trabalho de B. H. Streeter, a maioria dos eruditos contemporâneos aceita a teoria dos quatro documentos. Esses documentos seriam um proto-evangelho para cada um deles, que são: Marcos foi escrito primeiro e foi usado por Mateus e Lucas. Seu local de origem seria a Igreja em Roma. O documento “Q” era uma fonte que supriu os ensinos ou as atividades de Jesus comuns a Mateus e Lucas, mas que não se encontram em Marcos. Seu local de origem seria Antioquia. “L” era uma fonte usada por Lucas para seu material especial com origem na Igreja de Cesaréia. “M” era uma fonte usada por Mateus para seu material especial e teve origem na Igreja de Jerusalém ou Antioquia. O erudito John P. Meier procura também estender essa questão ao evangelho de João, e nos informa que ainda há muita discussão se o evangelho de João dependeu de Mateus e Lucas ou foi produto de fontes independentes como a fonte “Q” e “Marcos”. Entre os críticos que sustentam a primeira hipótese, está o exegeta Frans Neirynck, que acredita que João se baseou nos três evangelhos sinópticos. Mas essa teoria foi contestada por P. Gardner-Smith, que sustentava uma fonte independente para João. Depois, essa mesma teoria foi mais bem desenvolvida por H. Dodd e aceita por gabaritados comentadores, como, por exemplo, Raymond Brown. Entretanto, é bom lembrar que nenhuma dessas hipóteses favorece uma explicação satisfatória à rica complexidade da origem dos evangelhos. F. F. Bruce diz acertadamente que a crítica da fonte “conduz necessariamente a resultados muito menos precisos [...] porquanto tem de incluir porção bem mais avultada de elemento especulativo”. Até mesmo a mais popular delas não consegue responder a muitas questões da problemática envolvendo os evangelhos sinópticos. Por exemplo, uma das críticas levantadas contra a teoria das duas fontes é que não existe cópia alguma dessa suposta fonte “Q”. Alguns apelam para Lucas 1.1-3 como meio de provar essa teoria. Todavia, Lucas não diz que copiou ipsis litteris das fontes existentes, mas que fez acurada investigação e consultou as testemunhas oculares ainda existentes. Lucas esteve com muitas pessoas, inclusive com as testemunhas oculares que eram ministros da Palavra e poderiam ter perfeitamente fornecido informações fidedignas envolvendo a vida de Cristo. Há grande possibilidade de Lucas ter tido contato pessoal com os três evangelistas ou algum dos apóstolos. Além disso, existe o fato de Paulo, em 57 d.C., citar uma passagem de Mateus 10.10 e Lucas 10.7 (“Digno é o obreiro de seu salário”) em 1 Timóteo 5.18. Tudo indica que um desses evangelhos já estava circulando naquela época. Ainda sobre Paulo, devemos atentar para o fato de que quando esse apóstolo instrui a Igreja em Corinto, lançou mão de vários ensinamentos proferidos pelo próprio Cristo, tais como: o divórcio, o sustento do obreiro, a santa ceia e a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus. Paulo parece invocar uma antiga tradição apostólica (1Co 15.1-7) para fundamentar esta última doutrina. Pelo fato de ele citar esses ensinamentos como dignos de crédito e observância, pressupõe que já havia alguns ensinamentos circulando nas igrejas paulinas sobre Jesus Cristo. E o mais interessante é que a maioria desses ensinamentos encontra paralelo nos sinópticos. Na verdade, como já tivemos a oportunidade de citar, a voz dos pais da Igreja do século 2o era unânime em professar a crença que diz ter sido Mateus o primeiro evangelho a ser escrito e não Marcos. De fato, os quatro evangelhos, nos primeiros códices, aparecem na mesma seqüência de que se dispõe hoje em dia. Ocasionalmente, João foi posto na frente de Mateus, mas nunca Marcos. Segundo o testemunho de Papias, Marcos compôs seu evangelho usando as informações de Pedro, por isso não havia a necessidade de copiar de Mateus e muito menos de Lucas. Além disso, se Marcos copiou de Mateus e Lucas, por que então seu evangelho foi tão resumido no tocante aos ensinamentos de Cristo? É justo crer que ele iria omitir episódios importantes da vida de Jesus, como, por exemplo, o seu nascimento ou o sermão do Monte? Outro ponto que deve ser considerado é o seguinte: por que Mateus dependeria de Marcos, que, diga-se de passagem, não foi testemunha ocular, para compor seu evangelho? Será que as memórias de Mateus e sua íntima experiência com Cristo, além de sua relação com os demais apóstolos, não seriam suficientes para tal tarefa? São justamente estas algumas dificuldades que se impõem quando confrontamos tais teorias.
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No período em que os evangelhos foram escritos, não existia a lei de copyright, que garante o direito exclusivo ao autor da obra de imprimir, reproduzir ou vender, enfim, de deter exclusivamente seus direitos autorais. Naquela época remota, sem o recurso da imprensa, quando os livros eram escritos com tintas em pergaminhos ou códices, mais de uma vez a obra de um autor foi atribuída a outro, devido às muitas semelhanças entre elas. E nem mesmo se fazia questão sobre esse assunto, que só ganhou relevância com o advento da imprensa. Por exemplo, Domenico Grasso fornece uma boa lustração a respeito, quando diz: “Durante séculos, acreditou-se que a obra sobre ‘hierarquia celeste’ fosse da autoria de Dionísio Aeropagita, convertido por São Paulo (At 17.34), enquanto se demonstrava pertencer a um filósofo neoplatônico do século 5o, comumente chamado ‘pseudodionísio’. Ainda hoje se discute a autenticidade de algumas obras da antiguidade clássica, conhecidas por Appendix Vergiliana e Epistolae ad Caesarem, atribuídas a Salústio. O problema da autenticidade de um documento é de enorme importância porque dela depende o seu valor”. E Domenico Grasso chega à seguinte conclusão em relação aos escritos sagrados neotestamentário: “O problema também é válido para os evangelhos. Quem são os seus autores?”. Existe alguma maneira de sabermos se esses evangelhos foram escritos pelos apóstolos? É bom frisar (e muitos desconhecem este fato) que nenhum dos evangelhos, como os conhecemos hoje, com os títulos de “Evangelho segundo São Mateus (kata Maththaion), São Lucas ou São João”, veio com a assinatura pessoal de seu autor. E, por conta dessa dificuldade, não podemos, apenas pelo recurso literário, saber quem os escreveu. No começo, os evangelhos eram anônimos. Mas isso não quer dizer que não sabemos, com certeza, quem foram seus autores verdadeiros. Por outro lado, repudiamos a idéia maldosa de que a Igreja tenha escolhido, aleatoriamente, tais nomes com o fim de dar autoridade a essas obras. Além disso, temos outra dificuldade: não possuímos os autógrafos (escritos originais) conforme saíram da pena dos apóstolos. Mas isso não é tão embaraçoso como muitos críticos pensam. Pode ser explicado satisfatoriamente por dois fatores básicos: O material no qual se escrevia, o papiro, era frágil, que logo se desgastava, portanto, os textos tinham de ser recopiados. Tais cópias eram feitas em rolo de papiro (planta) e, mais tarde, em códices (em formato de livro) com letras unciais (escritos em caracteres maiúsculos) ou em códices minúsculos. Os chamados lecionários (antologias de textos para uso litúrgico) vieram depois, também confeccionados em papiro e, posteriormente, em velino e pergaminho (pele de animais). As perseguições sofridas pelos cristãos, quando seus escritos sagrados estavam em constante perigo de ser destruídos. Assim, é provável que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que eles se gastassem, desfazendo-se por completo. Os evangelhos, contendo o título-nome dos autores, vieram das cópias dos códices antigos. Os dois códices mais importantes do Novo Testamento são: o códice vaticano e o códice sinaítico. Se levarmos em consideração que tais códices vieram de todas as províncias do Império, desde o século 4o até o 9o, somando um total de mais de 4 mil, é incrível como a Igreja primitiva, em todas as partes, aceitou com unanimidade os autores dos quatro evangelhos sem contestação. Isso só pode ter ocorrido devido ao fato de que os títulos muito cedo foram partes integrantes dessas obras. Grasso ainda afirma: “Ninguém conhece um autor diferente daquele conhecido pelos outros. Se em alguma região viessem a saber que o autor de determinado evangelho não era o mesmo a quem se atribuía sua autoria em outro lugar, era coisa fácil de ser conhecida”. Todavia, nunca houve divergência no seio da Igreja sobre a autoria dos quatro evangelhos. É improvável até que esses livros tenham circulado durante décadas para somente no século 2o serem estereotipados pela Igreja. Poderia ter havido discordâncias, caso ninguém soubesse quem eram os autores de tais obras. O papirólogo Carsten Peter Thiede corrobora com essa opinião: “É inconcebível que alguém tivesse ousado inventar candidatos tão improváveis e tão pouco conhecidos como Marcos e Mateus (ou até mesmo Lucas), se estes não tivessem sido realmente os nomes dos autores — ou se, de alguma forma, não tivessem uma ligação direta com aqueles escritos”.
Para que possamos ter uma idéia de como era certa a tradição de a autoria dos evangelhos ser atribuída aos quatro evangelistas, nos basta tão-somente considerarmos o fato de que até mesmo os heréticos aceitavam, sem contestação, que a autoria dos evangelhos procedia, respectivamente, de Mateus, Marcos, Lucas e João. Irineu, em seu livro apologético, nos assegura que “o valor dos evangelhos é tão grande que recebe o testemunho até dos próprios hereges...”. Prosseguindo, ele diz “que cada um pretendia apoiar suas teorias particulares em um dos evangelhos. Por exemplo, a seita dos ebionitas tinha preferência pelo evangelho de Mateus. O herege Marcião, pelo de Lucas. Já os valentinianos se apegavam ao de João”. Pelo depoimento de Irineu, percebe-se que até mesmo os mais primitivos heréticos aceitavam Mateus, Marcos, Lucas e João como respectivos autores dos quatro evangelhos que levam os seus nomes. Além disso, temos o testemunho de outros pais da Igreja primitiva. O escritor e historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, em sua obra História eclesiástica, conserva fragmentos dos escritos de Papias, bispo de Hierápolis e escritor cristão do início do século 2o (c. 130 a.D.), que conheceu os discípulos dos apóstolos. Papias nos dá a seguinte informação quanto aos autores dos dois primeiros evangelhos: Mateus e Marcos. Quanto a Marcos, diz o seguinte: “Marcos, sendo o intérprete de Pedro, tudo o que registrou escreveu com grande exatidão, mas não na ordem em que foi falado ou realizado por nosso Senhor, pois ele não ouviu nem seguiu nosso Senhor, mas, conforme disse, esteve em companhia de Pedro, que lhe deu tanta instrução quanto necessária [...] Assim Marcos não errou em nada ao escrever algumas coisas como ele as recordava...”. Quanto a Mateus, escreve: “Mateus compôs sua história em dialeto hebraico e cada um traduzia segunda a sua capacidade”. Em 170, Irineu de Lião, refutando os hereges de seu tempo, menciona Lucas como autor do terceiro evangelho: “Ora, se Lucas, que sempre pregou e evangelizou com Paulo, que teve confiada a missão de sempre nos transmitir o evangelho...”. Por isso, D. A. Carson chega à seguinte conclusão: “... O único evangelho circulou cedo sob quatro formas distintas: ‘Segundo Mateus’ [...], sendo que a preposição apresenta a pessoa que se acreditava ser o seu autor”. Esses dados fornecem provas confiáveis que nos permitem afirmar com segurança que seus autores são verdadeiramente aqueles a quem são atribuídos. 4.1. Por Que Apenas Quatro Evangelhos? Entre os estudiosos da numerologia bíblica (a numerologia bíblica é apenas simbólica), o número quatro representa universalidade. Quatro são os pontos cardeais. Quatro são as estações do ano em todo o mundo. E quatro foram os impérios mundiais. O evangelho de Cristo também é transcultural, não se restringe a nenhuma raça, cor ou cultura específica, mas se estende a toda a criatura debaixo do céu em todos os tempos. Seu alcance é universal. Diz Josh MacDowell que os “quatro evangelhos haviam-se tornado tão axiomáticos no mundo cristão que Irineu pôde se referir a eles como um fato comprovado e reconhecido tal como os quatro pontos cardeais”. Vejamos o que disse Irineu: “Por outro lado, os evangelhos não são, nem mais nem menos, do que esses quatro. Com efeito, são quatro as regiões do mundo em que vivemos, quatro são os ventos [...] Por isso é evidente que o Verbo, Artífice de todas as coisas, que está sentado acima dos querubins [...] nos deu um evangelho quadriforme sustentado por um único Espírito”. Já bem cedo, em 160 d.C, um cristão chamado Taciano separou os quatro evangelhos em seu Diatessaron (expressão que significa “pelos quatro”). Assim se expressa Eusébio de Cesaréia a respeito: “Taciano, tendo formado certo corpo e coleção de evangelhos, não sei como, deu-lhes este título, Diatessaron, que é o evangelho dos quatro, ou o evangelho formado pelos quatro...”.
Eusébio cita, ainda, outro escritor cristão do século 2o, Clemente de Alexandria (150- 215), que fala dos “quatro evangelhos transmitido até nós”, e conhece uma tradição segundo a qual foram escritos primeiramente aqueles que contêm a genealogia do Senhor, isto é, Mateus e Lucas. Clemente também dá a tradição a respeito da ordem dos evangelhos, conforme transmitida pelos presbíteros mais velhos: “Ele diz que os que contêm as genealogias foram escritos primeiro...”. Orígenes, um dos apologistas da fé cristã da segunda metade do século 2o, conhecia o nome dos quatro evangelistas e a ordem em que escreveram, como conhecemos hoje, a saber: Mateus, Marcos, Lucas e João. Tertuliano (160–223), advogado e apologista, ao escrever, no início do século 3o, contra Marcião, atesta o valor dos quatro evangelhos frente à heresia de Marcião, que só admitia o evangelho de Lucas. O Canon muratoriano também nos fala do reconhecimento dos quatro evangelhos pela Igreja romana. No prólogo de seu evangelho, Lucas deixa claro que, em sua época, já existiam outros escritos sobre a vida de Jesus: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1.1). Não obstante, cremos que Deus quis preservar somente quatro livros contendo a narrativa verdadeira, fiel e inspirada sobre a vida de Cristo. 4.2. Um ou Quatro Evangelhos? Já vimos o motivo pelo qual o Senhor Deus nos deu um evangelho quadriforme. Agora, estamos diante de outra incógnita: “o evangelho” ou “os evangelhos”? Como devemos denominar? Parece que o termo apresenta a mesma aparente dificuldade tal como aconteceu com a expressão “Escritura” ou “Escrituras”. No começo, era um termo geral, significando simplesmente escritos. Mais tarde, deu-se a designação mais precisa: “a Escritura” ou “as Escrituras”, para distinguir os escritos sagrados dos judeus. O apóstolo Pedro classifica alguns textos do apóstolo Paulo como “Escritura”. Paulo, ao escrever a Timóteo (1Tm 5.18), cita o evangelho de Lucas (Lc 10.7) e o livro de Deuteronômio (Dt 25.4), conferindo a mesma autoridade escriturística a ambos. Com respeito aos evangelhos, Carson elucida a questão ao dizer que “nenhum dos quatro relatos sobre o ministério de Jesus recebe no Novo Testamento o nome de evangelho [...] Talvez, perto do fim do século 1o, ou início do 2o, acrescentaram-se títulos aos relatos oficiais da Igreja sobre o ministério de Jesus. Foi certamente aí que se empregou ‘evangelho’ pela primeira vez para designar uma obra literária. [...] Não o evangelho por Marcos, mas o [único] evangelho, segundo [a versão de] Marcos...”. Parece que o uso que Marcos faz dessa palavra, já no início de sua obra (1.1), serviu para consagrar o termo como obra literária. Justino, o mártir (133 d.C.), foi o primeiro a empregar o termo “evangelho” para designar os relatos canônicos do ministério de Jesus. F. F. Bruce, ao comentar sobre os evangelhos, dá o parecer de que “já em data bem remota vieram os quatro evangelhos a constituir uma unidade integrada. E essa coleção de quatro documentos era originalmente conhecida como ‘o evangelho’, no singular, e não ‘os evangelhos’, no plural. Havia apenas um evangelho apresentado em quatro narrativas [...] Por volta de 115 a.D., Inácio, bispo de Antioquia, refere-se ao ‘evangelho’ como escrito revestido de autoridade, e, visto que conhecia mais de um dos quatro ‘evangelhos’, é provável que o título designe a coleção assim chamada, então”. Geralmente, dá-se o nome de “quatro evangelhos” aos primeiros livros do Novo Testamento. Antes do século 4o, todavia, a coleção era designada apenas pelo nome de “o evangelho”, distinguindo-se as diferentes formas por “segundo Mateus”, “segundo Marcos”, e assim por diante.
Mas as expressões “evangelho de Mateus”, “evangelho de Marcos” e “evangelho de Lucas” são apenas nomenclaturas externas provenientes do século 2o. Na verdade, como já vimos, há um só evangelho apresentado em quatro formas, como bem atesta Agostinho em seu Sermão sobre a ressurreição de Cristo, segundo São Marcos: “A ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo lê-se estes dias, como é costume, segundo cada um dos livros do santo evangelho”. 4.3. Os “Problemas” dos Sinóticos Aprendemos, nos tópicos anteriores, o que significam e quais são os evangelhos sinópticos. Abordaremos, agora, algumas dificuldades referentes a esses evangelhos. Os evangelhos sinópticos têm sido alvo de extensa pesquisa durante muito tempo. A crítica textual tem feito uma verdadeira devassa em seus textos com o fito de resolver aquilo que denominara de “O problema sinóptico”.Tais problemas, segundo os críticos, seriam supostas contradições apresentadas em alguns trechos. Mas como observa o comentarista Halley, em sua obra Manual bíblico: “O fato de haver pormenores diferentes e ligeiras variantes na descrição de um mesmo incidente faz que o testemunho dos vários escritores se torne tanto mais digno de fé, visto afastar a possibilidade de terem entrado em combinação prévia”. E, citando as palavras do historiador Paul Barnett, “as diferenças entre as narrativas não apenas indicam que Mateus e Lucas estavam isolados um do outro quando escreveram, mas também que as fontes de que dependeram eram bem separadas”. As dificuldades envolvendo os sinópticos foram apresentadas por Champlin, resumidas em forma de várias perguntas, como seguem: Os evangelhos foram escritos “independentemente” uns dos outros, sem qualquer fonte comum oral e escrita, sendo narrativas somente feitas de memória? Se houve fontes comuns escritas ou orais, de que natureza e quantas eram elas? Qual dos evangelhos sinópticos é primário? E esse evangelho foi usado diretamente como fonte de informação pelos demais evangelistas? Qual foi a fonte de material usado pelos evangelhos não primários, naquilo em que estão de acordo entre si, nas passagens que não figuram em Marcos? Quando um evangelho não primário tem material peculiar a si mesmo, qual foi sua fonte informativa? Quais foram as fontes informativas do evangelho primário? Para dirimir esses problemas, os críticos, ao longo dos anos, foram criando várias teorias. Algumas delas já foram abandonadas por completo. Já outras possuem agora apenas alguns raros defensores. E há aqueles, porém, que continuam gozando de grande popularidade entre os eruditos. A seguir, veremos que, indubitavelmente, não se pode tomar qualquer partido em posição dogmática em relação a nenhuma dessas teorias. No trabalho de desvendar o “mistério” da origem dos evangelhos, destacaram-se, principalmente, ao longo dos anos, três teorias que pretenderam apresentar soluções plausíveis para a questão em pauta. Vejamos: 4.4. A Crítica da Forma Os críticos dessa escola se preocupam não com a parte literária dos evangelhos, mas com o hiato deixado entre a transmissão oral até a composição literária dos mesmos. Seus proponentes tentam descobrir como as comunidades cristãs transmitiram os ensinamentos de Jesus. A crítica, neste caso, solapa, de certa forma, a integridade histórica dos evangelhos, pois os críticos dizem que a comunidade cristã criou as fontes das quais os evangelhos derivaram. Propõem que, de acordo com a necessidade enfrentada, as comunidades locais iam inventando episódios ou ensinamentos acerca de Jesus para sanar tais dificuldades. Essas coleções, na opinião de seus defensores, foram as responsáveis pela composição dos evangelhos. Em suma, o evangelho, conforme temos hoje, não seria histórias verídicas de testemunhas oculares, mas refletiria apenas a crença da Igreja primitiva a respeito de Jesus. Essas unidades isoladas foram costuradas com frases cronológicas pelos evangelistas, tais como: “depois disso”, “poucos dias depois”, “imediatamente”, para dar um tom histórico à obra. O papel crucial dessa escola seria descobrir as leis por trás dessa tradição. Seus principais expoentes são: Martin Dibelius, Rudolf Bultmann e Vicent Taylor, o menos radical deles. 4.5. A Crítica da Redação Em verdade, os críticos dessa escola não se preocupam com a origem dos evangelhos e, tampouco, importam-se com quem foram seus autores. O que menos importa é a parte histórica. Seu principal objetivo é o motivo teológico com que cada autor escreveu e por que escreveu, concentrando-se apenas no texto em si. A crítica da redação depende muito da crítica da forma. A maioria dos críticos da redação se baseia na teoria das duas fontes, tendo o evangelho de Marcos como base para os outros dois. Os principais difusores dessa teoria foram: Gunther Bornkamm, Hans Conzelmann e Willi Marxsen. 4.6. A Crítica das Fontes Uma dessas dificuldades nutridas pelos críticos é saber sobre as fontes dos evangelhos. Em virtude de muitos versos nos três primeiros evangelhos serem idênticos, eruditos, por muitos anos, têm debatido o seu relacionamento. A crítica das fontes visa identificar as fontes escritas usadas para compor os evangelhos. E as soluções que apresenta foram dadas em forma de algumas teorias. A seguir, suas principais teorias: A teoria da dependência de um evangelho original, único o Propõe que houve um único evangelho em aramaico do qual os outros três se abeberaram. A teoria da dependência comum de fontes orais o Propõe a existência de um evangelho baseado em fontes orais transmitido pela Igreja, no qual os outros três se basearam. A teoria da dependência de vários fragmentos escritos o Baseando-se no depoimento de Papias, seu proponente asseverava que existiram vários fragmentos sobre a vida de Jesus, os quais foram evoluindo em sua forma até serem inseridos nos evangelhos sinópticos. A teoria do não-documento o Alega que não houve uma fonte comum aos três evangelhos, mas que todos eles se desenvolveram de modo independente. Seus defensores alegam, ainda, que os evangelistas escreveram somente o que viram e ouviram de Jesus. A teoria da interdependência o É a mais aceita atualmente pela maioria dos eruditos da crítica das fontes. Seus críticos defendem a tese de que entre os evangelhos havia uma interdependência, ou seja, um deles foi a fonte dos outros dois. Dentro dessa teoria se desdobram mais algumas hipóteses das quais analisaremos apenas quatro: Hipótese agostiniana, Agostinho, bispo de Hipona, propôs, baseado na tradição, que Mateus foi o primeiro evangelho a ser escrito e que Marcos, posteriormente, serviu-se dele para coletar dados e compor seu evangelho. Lucas, por sua vez, seria uma compilação tanto de Marcos como de Mateus. Hipótese das duas fontes o Segundo muitos, parece ser a que fornece melhor explicação para as similaridades entre os evangelhos. O ponto de vista preponderante, na atualidade, é que o evangelho de Marcos foi escrito primeiro e Mateus e Lucas usaram Marcos como fonte para os seus evangelhos. Visto que Mateus e Lucas são mais extensos que Marcos, é claro que eles contêm materiais que não se encontram em Marcos. Mateus contém material que não se encontra em Lucas e Lucas contém material que não se encontra em Marcos. Mateus e Lucas contêm algum material idêntico que não se encontra em Marcos. Mais tarde, foi acrescentada uma certa fonte “Q” (da língua alemã Queller = fonte). Segundo essa mesma teoria, Mateus e Lucas teriam escolhido apenas o que lhes era conveniente dessas duas fontes. Hipótese dos dois evangelhos o Alguns críticos, como Willian Farmer e C. S. Mann, sustentam a hipótese de Griesbach. E, apesar de sustentarem a crença de que o evangelho de Mateus foi o primeiro a ser escrito, colocam, diferentemente de Agostinho, Lucas em segundo lugar e fazem Marcos depender tanto de Mateus como de Lucas. Hipótese dos quatro documentos o Foi proposta como solução alternativa aos resquícios de problemas deixados pela hipótese das duas fontes. Como resultado do trabalho de B. H. Streeter, a maioria dos eruditos contemporâneos aceita a teoria dos quatro documentos. Esses documentos seriam um proto-evangelho para cada um deles, que são: Marcos foi escrito primeiro e foi usado por Mateus e Lucas. Seu local de origem seria a Igreja em Roma. O documento “Q” era uma fonte que supriu os ensinos ou as atividades de Jesus comuns a Mateus e Lucas, mas que não se encontram em Marcos. Seu local de origem seria Antioquia. “L” era uma fonte usada por Lucas para seu material especial com origem na Igreja de Cesaréia. “M” era uma fonte usada por Mateus para seu material especial e teve origem na Igreja de Jerusalém ou Antioquia. O erudito John P. Meier procura também estender essa questão ao evangelho de João, e nos informa que ainda há muita discussão se o evangelho de João dependeu de Mateus e Lucas ou foi produto de fontes independentes como a fonte “Q” e “Marcos”. Entre os críticos que sustentam a primeira hipótese, está o exegeta Frans Neirynck, que acredita que João se baseou nos três evangelhos sinópticos. Mas essa teoria foi contestada por P. Gardner-Smith, que sustentava uma fonte independente para João. Depois, essa mesma teoria foi mais bem desenvolvida por H. Dodd e aceita por gabaritados comentadores, como, por exemplo, Raymond Brown. Entretanto, é bom lembrar que nenhuma dessas hipóteses favorece uma explicação satisfatória à rica complexidade da origem dos evangelhos. F. F. Bruce diz acertadamente que a crítica da fonte “conduz necessariamente a resultados muito menos precisos [...] porquanto tem de incluir porção bem mais avultada de elemento especulativo”. Até mesmo a mais popular delas não consegue responder a muitas questões da problemática envolvendo os evangelhos sinópticos. Por exemplo, uma das críticas levantadas contra a teoria das duas fontes é que não existe cópia alguma dessa suposta fonte “Q”. Alguns apelam para Lucas 1.1-3 como meio de provar essa teoria. Todavia, Lucas não diz que copiou ipsis litteris das fontes existentes, mas que fez acurada investigação e consultou as testemunhas oculares ainda existentes. Lucas esteve com muitas pessoas, inclusive com as testemunhas oculares que eram ministros da Palavra e poderiam ter perfeitamente fornecido informações fidedignas envolvendo a vida de Cristo. Há grande possibilidade de Lucas ter tido contato pessoal com os três evangelistas ou algum dos apóstolos. Além disso, existe o fato de Paulo, em 57 d.C., citar uma passagem de Mateus 10.10 e Lucas 10.7 (“Digno é o obreiro de seu salário”) em 1 Timóteo 5.18. Tudo indica que um desses evangelhos já estava circulando naquela época. Ainda sobre Paulo, devemos atentar para o fato de que quando esse apóstolo instrui a Igreja em Corinto, lançou mão de vários ensinamentos proferidos pelo próprio Cristo, tais como: o divórcio, o sustento do obreiro, a santa ceia e a morte, o sepultamento e a ressurreição de Jesus. Paulo parece invocar uma antiga tradição apostólica (1Co 15.1-7) para fundamentar esta última doutrina. Pelo fato de ele citar esses ensinamentos como dignos de crédito e observância, pressupõe que já havia alguns ensinamentos circulando nas igrejas paulinas sobre Jesus Cristo. E o mais interessante é que a maioria desses ensinamentos encontra paralelo nos sinópticos. Na verdade, como já tivemos a oportunidade de citar, a voz dos pais da Igreja do século 2o era unânime em professar a crença que diz ter sido Mateus o primeiro evangelho a ser escrito e não Marcos. De fato, os quatro evangelhos, nos primeiros códices, aparecem na mesma seqüência de que se dispõe hoje em dia. Ocasionalmente, João foi posto na frente de Mateus, mas nunca Marcos. Segundo o testemunho de Papias, Marcos compôs seu evangelho usando as informações de Pedro, por isso não havia a necessidade de copiar de Mateus e muito menos de Lucas. Além disso, se Marcos copiou de Mateus e Lucas, por que então seu evangelho foi tão resumido no tocante aos ensinamentos de Cristo? É justo crer que ele iria omitir episódios importantes da vida de Jesus, como, por exemplo, o seu nascimento ou o sermão do Monte? Outro ponto que deve ser considerado é o seguinte: por que Mateus dependeria de Marcos, que, diga-se de passagem, não foi testemunha ocular, para compor seu evangelho? Será que as memórias de Mateus e sua íntima experiência com Cristo, além de sua relação com os demais apóstolos, não seriam suficientes para tal tarefa? São justamente estas algumas dificuldades que se impõem quando confrontamos tais teorias.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
Regras Universais do Zazen
Fukanzazengi – Regras universais do zazen
(Manual de meditação de Eihei Dogen Zenji – Japão, 1200‐1253)
Agora, quando procuramos a fonte do Caminho, descobrimos que é universal
e absoluta. Torna-se desnecessário distinguir entre prática e iluminação. O
ensinamento supremo é livre, então por que deveríamos estudar os meios de atingilo?
Sem dúvida, o Caminho está bem longe da delusão. Por que, então, preocupar-nos
com os meios de eliminá-la?
O Caminho está completamente presente onde você está, então qual a
necessidade de prática e de iluminação? Contudo, se no início houver a menor
diferença entre você e o Caminho, o resultado será uma separação maior do que
aquela entre o céu e a Terra.
Se surgir o menor pensamento dualista, você perderá sua mente‐Buda. Por
exemplo, algumas pessoas se orgulham de sua compreensão e acreditam que estão
ricamente dotadas com a sabedoria de Buda. Crêem que já alcançaram o Caminho,
iluminaram sua mente e conquistaram o poder de tocar os céus. Imaginam que estão
andando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o Caminho
absoluto, que está além da própria iluminação.
Ainda se vêem as marcas daquele que por seis anos sentou-se ereto1
e se
ouvem os ecos do Monte Shaolin, onde por nove anos sentou-se de face para a parede
aquele que transmitiu o selo da mente2
. Já que esses antigos sábios eram tão
diligentes, como podem os praticantes dos dias atuais deixarem de praticar zazen?
Devemos parar de correr atrás de palavras e de letras e aprender a nos retirar e refletir
sobre nós mesmos. Quando assim fazemos, nosso corpo e nossa mente são
naturalmente transcendidos, e nossa natureza‐Buda original se manifesta. Se
almejamos realizar3
a sabedoria de Buda, devemos começar a praticar imediatamente.
Para fazer zazen, é desejável um local tranquilo. Devemos ser moderados no
comer e no bebe abandonando todo relacionamento deludido. Deixando tudo delado, não pensemos nem no bem, nem no mal, nem no certo, nem no errado. Assim,
tendo cessado a agitação da mente, abandonamos até mesmo a ideia de nos tornar
Buda. Isso é verdadeiro não só para o zazen, mas para todas as nossas ações
cotidianas, sem apego ao nos sentar ou ao nos deitar.
Geralmente, colocamos um acolchoado quadrado no chão, onde vamos nos
sentar, e sobre ele, uma almofada redonda. Podemos nos sentar na posição de lótus ou
na de meio-lótus. Na primeira, colocamos o pé direito sobre a coxa esquerda e, em
seguida, o pé esquerdo sobre a coxa direita. Na segunda, apenas colocamos o pé
esquerdo sobre a coxa direita. As roupas devem ser folgadas, mas bem arrumadas. Em
seguida, colocamos o dorso da mão direita sobre o pé esquerdo e o dorso da mão
esquerda sobre a palma direita, com a ponta dos polegares se tocando levemente.
Devemos nos sentar perfeitamente eretos, nem inclinados à direita, nem à esquerda,
nem para a frente, nem para trás. As orelhas devem estar alinhadas com os ombros, e
o nariz, alinhado com o umbigo. A ponta da língua deve ser colocada no palato, e os
lábios e os dentes devem se encostar suavemente. Mantendo os olhos entreabertos,
respiramos suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo regulado o corpo e a mente,
fazemos uma respiração profunda, movendo nosso corpo para a esquerda e para a
direita, e então devemos ficar imóveis, sentados tão firmes quanto uma rocha. Existe
o pensar, existe o não pensar e existe o além do pensar e do não pensar. Essa é a
verdadeira base do zazen.
Zazen não é meditação passo a passo. É o portal do Darma da agradável
tranquilidade, é a prática e a realização da iluminação, é tornar-se o koan4
. A verdade
aparece, não mais havendo delusão. Se compreendermos isso, estaremos
completamente livres, como um dragão na água ou um tigre recostado na montanha.
O Darma Correto surge naturalmente, e ficamos completamente livres de todo o
cansaço e confusão. Ao terminarmos o zazen, devemos mover o corpo devagar e nos
levantar com calma. Não devemos nos mover bruscamente.
Pela virtude do zazen, é possível transcender a diferença entre o comum e o
sagrado e obter a capacidade de morrer sentado ou de pé. Além do mais, é impossível
para nossa mente discriminatória compreender como os Budas e Ancestrais do Darma comunicaram a essência do Zen a seus discípulos com o levantar de um dedo, com
uma vara, jogando uma agulha ou batendo com o martelo de madeira5
; ou como eles
transmitiram a iluminação com o levantar de um hossu6
, de um punho, de um bastão
ou com um grito.
Tampouco esse assunto pode ser compreendido por meio de poderes
sobrenaturais ou de uma visão dualista de prática e iluminação. Zazen é a prática além
dos mundos subjetivo e objetivo, além do pensamento discriminatório. Assim,
nenhuma discriminação deverá ser feita entre o inteligente e o não inteligente. Praticar
o Caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação
entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida cotidiana.
Os Budas e Ancestrais do Darma, tanto neste país quanto na Índia e na China,
todos preservaram cuidadosamente a mente‐Buda e incentivaram assiduamente o
treinamento zen. Devemos, pois, nos dedicar exclusivamente e ser completamente
absorvidos pela prática do zazen. Apesar da divulgação de inúmeras maneiras de
compreender o budismo, devemos praticar somente o zazen. Não há motivo para
abandonarmos nosso assento de meditação e fazermos viagens inúteis a outros países.
Se nosso primeiro passo for errado, inevitavelmente tropeçaremos.
Já tivemos a boa fortuna de nascer com um corpo precioso, então não devemos
desperdiçar nosso tempo à toa. Agora que sabemos qual é a coisa mais importante no
budismo, como podemos ficar satisfeitos com o mundo transitório? Nosso corpo é
como o orvalho sobre a relva, e nossa vida, como o clarão de um raio, que desaparece
num instante.
Sinceros praticantes zen, não se espantem com o Verdadeiro Dragão7
, nem
gastem muito tempo inutilmente apalpando apenas uma pequena parte do elefante8
.
Dediquem seus esforços ao Caminho que leva diretamente à natureza‐Buda.
Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento completo, que estão sem intenção
de intenção. Tornem-se um com a sabedoria dos Budas e, assim, sucessores legítimos da iluminação dos Ancestrais. Praticando dessa maneira, certamente serão capazes de
compreender tudo isso. Então, a casa do tesouro naturalmente se abrirá e vocês
poderão se servir à vontade.
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1 Xaquiamun Buda. i 2 Bodidarma. 3 Tornar real, autenticar. Não é exatamente alcançar. O significado aqui é mais próximo de perceber, de despertar, de vivenciar a sabedoria suprema e torná-la real na vida de cada praticante. Permitir que essa sabedoria se manifeste com a prática. Dogen Zenji Sama insiste em afirmar que prática é realização. Não praticamos para nos tornar Buda, mas porque somos Buda praticamos. Sem prática, porém, não há iluminação (estado Buda).
4 Algumas vezes traduzido como “pegadinha zen”, koan originalmente significa um Édito Imperial na China antiga. Atualmente, refere-se a situações históricas de perguntas e respostas de antigos e famosos mestres zen, com o objetivo de levar os praticantes à iluminação, ao despertar (satori ou mezameru, em japonês), por meio da transcendência da mente dualista. Na tradição Soto, a vida diária é considerada o koan essencial, a manifestação da verdade.
5 Alusão ao han, instrumento de ma eira tocado para anunciar atividades no mosteiro. d 6 Bastão com pelos em uma das extremidades, usado nas cerimônias, simbolizando os fios de cabelo que saem do terceiro olho de Buda. 7 Referência a um monge que desenhava e colecionava imagens de dragões, mas, quando encontrou um dragão de verdade, fugiu apavorado. 8 Menção a um ensinamento de Buda segundo o qual um elefante foi apresentado a algumas pessoas om deficiência visual e pediu-se que descrevessem o que era. Cada uma delas conseguiu ter apenas ma ideia parcial do animal, conforme a parte que apalpou.
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1 Xaquiamun Buda. i 2 Bodidarma. 3 Tornar real, autenticar. Não é exatamente alcançar. O significado aqui é mais próximo de perceber, de despertar, de vivenciar a sabedoria suprema e torná-la real na vida de cada praticante. Permitir que essa sabedoria se manifeste com a prática. Dogen Zenji Sama insiste em afirmar que prática é realização. Não praticamos para nos tornar Buda, mas porque somos Buda praticamos. Sem prática, porém, não há iluminação (estado Buda).
4 Algumas vezes traduzido como “pegadinha zen”, koan originalmente significa um Édito Imperial na China antiga. Atualmente, refere-se a situações históricas de perguntas e respostas de antigos e famosos mestres zen, com o objetivo de levar os praticantes à iluminação, ao despertar (satori ou mezameru, em japonês), por meio da transcendência da mente dualista. Na tradição Soto, a vida diária é considerada o koan essencial, a manifestação da verdade.
5 Alusão ao han, instrumento de ma eira tocado para anunciar atividades no mosteiro. d 6 Bastão com pelos em uma das extremidades, usado nas cerimônias, simbolizando os fios de cabelo que saem do terceiro olho de Buda. 7 Referência a um monge que desenhava e colecionava imagens de dragões, mas, quando encontrou um dragão de verdade, fugiu apavorado. 8 Menção a um ensinamento de Buda segundo o qual um elefante foi apresentado a algumas pessoas om deficiência visual e pediu-se que descrevessem o que era. Cada uma delas conseguiu ter apenas ma ideia parcial do animal, conforme a parte que apalpou.
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Quem é Cristiano Rosacruz?
Lectorium Rosicrucianum
Cristão Rosacruz
“Quem é Cristiano Rosacruz?” Quando levantamos essas questões nos dias de hoje, inevitavelmente teremos outras indagações a fazer: “Será que esse homem realmente existiu?” e “Quem são os rosacruzes?”.
As respostas a essas perguntas exigem que nos voltemos para nosso interior, em busca da verdade – não a verdade comum ou os fatos históricos – mas sim a verdade atemporal sobre a natureza e o objetivo da existência humana.
Os rosacruzes do Lectorium Rosicrucianum vêem em Cristiano Rosacruz um protótipo espiritual, seu “Pai e Irmão”, fundador da Ordem espiritual. Ao mesmo tempo, consideram que seu nome indica o campo de força que os alimenta. Nos textos clássicos da Rosacruz do século XVII, esse campo de força é chamado de “Casa Sancti Spiritus”. Essas fontes da história espiritual ocidental contêm referências capazes de tocar profundamente um buscador da verdade e talvez ajudá-lo a abrir a porta do conhecimento intuitivo. Esse é o assunto deste artigo.
Os textos da Rosacruz clássica
Todos os que descobrem os três textos originais da Rosacruz clássica se vêem diante de inúmeros e misteriosos símbolos e imagens.
Esses manuscritos foram publicados nos anos de 1614 a 1616 pelo teólogo alemão Johann Valentin Andrea, natural de Calw, Alemanha. Ele pertencia ao assim chamado “Círculo de Tubingen”, uma irmandade de homens espiritualmente inspirados. Os manuscritos nos falam de Cristiano Rosacruz e da Fraternidade da Rosacruz. Os três títulos são:
Esses manuscritos foram publicados nos anos de 1614 a 1616 pelo teólogo alemão Johann Valentin Andrea, natural de Calw, Alemanha. Ele pertencia ao assim chamado “Círculo de Tubingen”, uma irmandade de homens espiritualmente inspirados. Os manuscritos nos falam de Cristiano Rosacruz e da Fraternidade da Rosacruz. Os três títulos são:
- Fama Fraternitatis R.C.
(O Chamado da Fraternidade Rosacruz, 1614) - Confessio Fraternitatis R.C.
(O Testemunho da Fraternidade Rosacruz, 1615) - As núpcias (al)químicas de Cristiano Rosacruz
(Também “Casamento Alquímico”, ou “Bodas Alquímicas”, 1616)
Essas três obras foram novamente editadas e comentadas por Jan van Rijckenborgh em meados do século XX. Alguns textos e comentários originais podem ser encontrados neste site, na seção de Literatura.
As três descrições de Cristiano Rosacruz
Existem três descrições principais acerca de Cristiano Rosacruz, também chamado de “Irmão CRC”. A primeira é de Rudolf Steiner; a segunda pode ser encontrada na Confessio e na Fama; e a terceira está em As núpcias alquímicas de Christian Rosenkreuz. Todas elas utilizam a linguagem dos mistérios, na qual cada detalhe traz, veladamente, um significado espiritual. Nesses textos, nada é supérfluo ou casual.
Neles, Cristiano Rosacruz é descrito de muitos modos diferentes, porém, em todos eles sempre são destacadas sua grande modéstia e humildade. Ele é absolutamente sincero em sua dedicação e vontade de servir. Ele é percebido pelos leitores como alguém que segue seu caminho espiritual apesar de todas as dificuldades.
Ao mesmo tempo, ele aparece como a personificação luminosa do grande objetivo: a ressurreição do homem imortal. Cristiano Rosacruz é a encarnação de uma realidade espiritual, o protótipo do homem que segue o caminho da iniciação cristã. É a respeito desse homem que lemos no Novo Testamento: “Assim também é a ressurreição dos mortos. O corpo é semeado corruptível, é ressuscitado incorruptível; é semeado em ignomínia, é ressuscitado em glória; é semeado em fraqueza, é ressuscitado em poder. Semeia-se corpo natural, é ressuscitado corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.“ (Primeira Epístola aos Coríntios, 15:42-44).
http://www.rosacruzaurea.org.br
GNOSIS
Lectorium Rosicrucianum
A Gnosis e os gnósticos, na história intelectual da Europa sempre estão associados com o início da cristandade. No entanto, sempre houve gnósticos, em todos os tempos. É que a Gnosis – ou sabedoria divina – sempre foi e ainda é a força que pode comunicar-se diretamente com todos os seres humanos, sem necessitar de sistemas religiosos e tradições.
A palavra Gnosis vem do grego e significa “Luz do Conhecimento”. Geralmente, pouco e raramente se sabe que tipo de conhecimento e crença os gnósticos possuem, ou que caminho espiritual seguem. A Gnosis somente pode ser vivenciada por alguém que está em ligação direta com ela, a partir de seu coração. No entanto, essa ligação muda de tal modo essa pessoa que, no final, ela já não é a mesma de antes. Mesmo depois de séculos, os textos gnósticos ainda fascinam muitos buscadores.
Durante muitos séculos, as diversas tradições escritas dos primeiros gnósticos cristãos somente eram conhecidas a partir de pistas dadas em textos da Inquisição da igreja católica. A opinião pública voltou a prestar atenção a esses escritos quando, em 1945, foram publicados os manuscritos de Nag Hammadi, no Egito. A partir dessa data, muitos textos sobre gnosticismo vêm sendo publicados.
Através desses escritos antigos, flui um poderoso alento
A Gnosis não é uma estrutura complexa de ideias – embora as antigas escrituras falem uma linguagem que não se revela facilmente ao leitor. Qualquer pessoa que tenta abordar os antigos textos gnósticos de modo unicamente intelectual dificilmente será capaz de compreender a essência de sua mensagem espiritual. Neles, parece existir uma força, um poderoso alento que flui através das palavras, que impulsiona o leitor às profundezas de sua mente. Mas, quando ele abre seu coração, sua intuição, e quando ele tem fé, pode descobrir esse transformador “Alento de Deus”.
Um dos mais famosos textos gnósticos é O Mistério da Pistis Sophia. Jan van Rijckenborgh, um dos fundadores da Rosacruz Áurea, republicou o original gnóstico e analisou esse texto para buscadores espirituais. O título indica com muita precisão a natureza da Gnosis como a ligação entre a fé insolúvel (Pistis, Πίστη) e a sabedoria (Sophia, Σοφία).
A Gnosis é uma irradiação, uma Luz espiritual. Ela está concentrada nos textos gnósticos, e está presente na atmosfera. Ela deseja despertar o ser humano e provocá-lo. Especialmente na atual era de Aquarius, todos os que estão buscando o conhecimento espiritual estarão aptos a descobrir a irradiação gnóstica dentro de si mesmos e a trabalhar com ela.
O núcleo espiritual está no coração do homem
A Gnosis é o conhecimento absoluto. Ela é revelada pelo próprio Ser divino. Ela não exige nenhuma habilidade intelectual humana, nem clama por emoções, nem é uma religião. Ela não pode ser escrita, por mais que tantos e tantos escritos sejam testemunhos dela. Ela também não pode ser ensinada por nenhuma pessoa. O mediador é a própira Gnosis.
A Gnosis é revelada ao homem por meio de um caminho interior que não pode ser nem compreendido nem seguido com os poderes do ego. É que a irradiação gnóstica toca o coração do homem. É aí, no coração, que reside o núcleo central espiritual desse ser: a centelha do Espírito, o princípio imortal que repousa no interior do ser humano. Essa centelha do Espírito não provém do mundo mortal world, no qual o homem vive. Ela nasceu na eternidade, a partir da divina esfera na qual a Gnosis existe. Consequentemente, a irradiação gnóstica pode se corresponder com centelha do Espírito, ou como dizem os rosacruzes – com a Rosa do Coração.
V I S Õ E S de M U N D O
No Bundashin, o Livro da Primeira Criação, da
cosmologia de Zaratustra, lemos o seguinte:
“Está desvelado que, desde tempos imemoriais,
Ahura-Mazda (o criador incriado) reside nas
alturas, adornado com onisciência e bondade,
cercado de luz. Essa luz é o lugar e a morada de
Ahura-Mazda. Alguns a denominam luz infinita.
Essa onisciência e bondade formam a veste de
Ahura-Mazda. Alguns a chamam de religião... O
tempo da veste é infinito, pois a bondade e a
religião do criador incriado durarão tanto tempo
quanto Ahura Mazda.”
Henri Corbin diz em seu livro O tempo cíclico e a
Gnosis de Ismail, que o Bundashin é um compêndio
da doutrina de zaratustra e Ahura-Mazda, escrito
em pálavi, uma das línguas do persa médio do
primeiro milênio. Esse compêndio, que data do
século 4 de nossa era, contém certo número de
perguntas que todos os persas com idade superior
a quinze anos deveriam saber responder. As
primeiras perguntas são as seguintes:
“Quem sou eu e a que lugar pertenço? De onde
venho e para onde vou? Qual é a minha filiação e
a que raça pertenço? Qual é a minha missão nesta
existência terrena? ... venho do mundo celeste ou
foi no mundo terreno que comecei a existir? Pertencerei
a Ahura-Mazda ou a Arimã? Faço parte
dos anjos ou dos demônios?”
E aqui estão as respostas:
“venho do mundo celeste. Não foi no mundo
terreno que comecei a existir. Meu estado original
é espiritual; meu estado original não é terreno.
Pertenço a Ahura-Mazda, o Senhor da Sabedoria,
não a Arimã (o espírito da separação e das
trevas). Pertenço aos anjos, não aos demônios...
Sou uma criatura de Ahura-Mazda, não uma criatura
de Arimã. Minha raça e minha ascendência
remontam ao homem original (anthropos). Minha
mãe é Spandarmat, o anjo da terra, meu pai é
Ahura-Mazda... Cumprir minha missão é aprender
que Ahura-Mazda é hoje, que ele sempre foi e
sempre será. É aprender a vê-lo como imortalmente
sublime e perpetuamente puro. E aprender
que Arimã é a pura negatividade que exaure a si
mesmo e retorna ao nada, vê-lo como espírito
da separação (o mal), que antes não existia nesta
criação e que, um dia, deixará de existir na criação
de Ahura-Mazda, e no fim dos tempos desaparecerá.
É considerar que meu ser verdadeiro pertence
a Ahura-Mazda e aos arcanjos”. - Revista Pentagrama 3/2013
quinta-feira, 22 de junho de 2017
NEO-PAGANISMO SOB UMA ÓTICA CRISTÃ
www.universidadedabiblia.com.br
Em 1925, o lendário pensador cristão inglês
G. K. Chesterton
(1) afirmou que, se não
houvesse sido pelo surgimento e fortalecimento da igreja cristã, a
Europa teria continuado
pagã, a civilização ocidental
não teria jamais existido na forma como
a conhecemos, e,
culturalmente, "a Europa
seria hoje muito parecida com a Ásia." (2) Chesterton sugeriu
ainda que, seo paganismo clássico houvesse se prolongado atéhoje [no
ocidente]... haveria
ainda pitagóricos ensinando
reencarnação, assim como
ainda há hinduístas ensinando
reencarnação na Ásia. Haveria ainda estóicos criando uma religião a
partir da razão e da
virtude, assim comoainda há confucionistas na Ásia criando uma religiãoa
partir da razão
e da virtude. Haveria ainda
neo-platonistas estudando verdades transcendentes cujo sentido
seria misteriosopara as outras pessoase disputado até mesmo entre eles,
assim como ainda
há budistasna Ásia estudando um transcendentalismo misterioso para os
outrose disputado
até mesmo entre
eles. Haveria ainda apolonianos inteligentes aparentemente adorando o
deus-sol mas explicando quena verdade elesadoram o princípio divino,
assim como ainda
há na Ásia zoroastrianos aparentemente adorandoo sol mas explicando que
estão adorando
a divindade. Haveria ainda dionisíacos dançando selvagemente nas
montanhas, assim como
ainda há na Ásia derviches
dançando selvagemente no deserto. Haveria ainda multidões
indo às festas dos deuses...e haveria muitos deuses para serem
adorados, como há na Ásia,
ainda pagã... Haveria ainda sacrifícios humanos secretos a Moloque,
assim como ainda há
na Ásia sacrifícios humanos secretos à deusa Kali. Haveria ainda muita
feitiçaria, e boa
parte dessa feitiçaria seria magia negra. Haveria ainda muita
admiraçãopor Sêneca,e muita
imitação de Nero, assim comona Ásiaos elevados epigramasde Confúcio
coexistiram com
as torturas chinesas. (3)
Talvez Chesterton nunca tenha chegado a perceber que suas palavras eram
proféticas. A
civilização ocidental há
muito já caminhava a passos largos
para um quadro
impressionantemente semelhante ao pintado por ele, um quadro que hoje é
a reprodução
fiel da religiosidade moderna.
O que Chesterton não
previu foi que o chamado neo-
paganismo teria características muito piores que as do antigo paganismo
— a cosmovisão
religiosa da antigüidade que
havia sido posta
de lado com o
surgimento da igreja e
a
conversão daEuropa ao cristianismo.A casa foi varrida, mas, como nas
palavrasde Cristo
relatadaspor Mateus,o último estado tornou-sepior doque o primeiro (Mt
12.43-45).
I. Ascensãoe Queda do neo-paganismo (e algumas questões metodológicas)
Uma das principais características da chamada Era Moderna (sécs.16–20)
foio surgimento
do neo-paganismo, cuja decadência estamos hoje assistindo naquilo que
tem-se chamadode
"Nova Era". Esse "movimento" religioso não é,
portanto, genuinamente novo, e nem
é na
verdade um movimento, e, acima de tudo, não é de
fato pós-moderno, como alguns têm
sugerido. O pós-modernismo implica
em ir além do beco sem saída
da modernidade e
inclusive da típica religiosidade moderna. (4) A chamada Nova Era pode ser tudo menos
pós-moderna. Pelo contrário,
ela é moderníssima. Mas,
nesta fase de
transição em que
estamos vivendo, ela representa o
modernismo não no seu apogeu, mas sim na
sua mais
completa decadência. (5)
O neo-paganismo não é novidade.
Trata-se, para começo de conversa, da
recuperação e
apropriação da mentalidade religiosa da antigüidade pré-cristã. Como
ironicamente sugeriu
Chesterton, "trata-sede uma profunda verdadeque o mundo antigo era
mais modernoque o
mundo cristão." (6) Isto é, a Idade Moderna está
mais próxima do paganismo que
do
cristianismo. Além disso, o
neo-paganismo não é novo porque
esta recuperação e
apropriação tiveram início há seis séculos atrás, no princípio da
chamada Idade Moderna.
Os primeirosa estarem envolvidos nesse processo de reapropriaçãodo
paganismoforam os
humanistas dos séculos
XV e XVI. Numa
atividade genuinamente arqueológica,
esses
pensadores e filólogos
dedicaram suas vidas à recuperação da literatura e cultura da
antigüidade greco-romana. (7) Essa atividade não é condenável per se.
Porém, uma vez
levada a cabo, permitiu a reapropriação da mentalidade
pagã por parte dos eruditos
europeus da época que sentiam-se
insatisfeitos com o cristianismo e a
religiosidade que
lhes era oferecida. Em parte, essa insatisfação é compreensível, uma vez que a igreja da
época vivia talvez a maior crise
espiritual de sua história. Mas nem todos os humanistas
sentiram-se atraídos pela religiosidade pagã. Muitos consideraram mais
sensato lutar por
uma reforma eclesiásticae ansiar por um avivamento espiritual. Tantoo
avivamento quanto
a reforma vieram por fim a
acontecer, fruto, em grande parte, do
esforço desses mesmos
pioneiros humanistas. Nesse
sentido, os líderes da
Reforma Protestante também
eram
humanistas, semdeixarem de ser cristãos. (8) A verdade, porém, é que a sementedo neo-
paganismo foi igualmente lançada nos
campos da intelectualidade
européia,e os primeiros
frutos maduros dessa semeadura foram colhidos nos séculos subseqüentes,
dando por fim
início ao movimento intelectual conhecido pelo nome de Iluminismo.
O Iluminismo do século XVIII representouo estabelecimento definitivo do
neo-paganismo
como o ideal intelectual por
excelência da modernidade. (9) Todos os
mais importantes
pensadores iluministas ou
rejeitaram o cristianismo
por completo, trocando-o
por uma
mentalidade religiosa pagã (Diderot, D’Holbach, Hume), ou procuraram
adaptar a fé cristã
às concepções helenistas
recém-recuperadas e assimiladas,
produzindo heterodoxias
gritantes como o deísmo (John
Locke, John Toland, Voltaire, La Metrie) e a
teologia
kantiana. (10) A maçonaria é
outra aberração neo-pagã que teve
origem no iluminismo
francês. Tantoos teóricos da Revolução Francesa quantoos
"Pais" federalistas americanos,
teóricos da Revolução Americana, estavam alicerçados na filosofia
iluminista e no neo-
paganismo.O Modernismo havia chegado ao seu apogeu. Os séculos
subseqüentes, XIX e
XX, assistiriam a partir de
então ao
lento declínio da modernidade
(o marxismo e o
existencialismo marcam, por exemplo, e
de formas diferentes,
esse declíno). Entretanto,
nunca o declínio do
neo-paganismo esteve tão
evidente quanto agora,
em que ele se
manifesta em suas
formas mais cruas e vulgares, nos
diferentes componentes desse
conglomerado de noções religiosas pagãsque chamamosde Nova Era.
Cabe-nos, portanto,
enquanto pensadores cristãos,
compreender a natureza do neo-paganismo, um aspecto
importanteda história da teologia moderna,e também da realidade diária
destes temposde
transição emque estamos vivendo.
A Nova Era é, sem dúvida, um fenômeno cultural, mas não é propriamente uma religião,
uma nova organização
religiosa; não possui
líderes explícitos, membros,
estrutura
hierárquica, estatutos, confissãode fé, etc. Diferentementedo que
muitos livros evangélicos
populares queremnos fazer crer,a Nova Era nãoé tampouco uma conspiração
secreta.(11)
Este tipo de
sensacionalismo evangélico patrocinado
pela liderança de
nossas igrejas,
estimulado por outra falácia teológica chamada "batalha
espiritual", possui um grave efeito
nocivo. (12) Nós, cristãos, passamos a
lutar contra um inimigo inexistente, um fantasma,
uma ficçãoda nossa imaginação, em vez de enfrentarmosa verdadeirahorda
que nos cerca.
A miscelânia chamada Nova Era é composta de manifestações neo-pagãs diferentes umas
das outras, que
vão desde popularizações de religiões
orientais como o hinduísmo, o
budismo e o taoísmo,
até as mais
crassas superstições pagãs
como astrologia, o poder
curativo dos cristais,
adivinhações e necromancia.
Nós, brasileiros, muito
antes de
importarmos dos Estados Unidos o
conceito de Nova Era, já estávamos há
muito tempo
acostumados com as formas mais decadentes da religiosidade moderna,
poiso espiritismoé
um excelente exemplo de neo-paganismo. Do ponto de vista apologético,
cada uma dessas
manifestações neo-pagãs deve ser combatidae derrotada individualmente,
e não como uma
amálgamainforme e uma abstração, como freqüentemente tem acontecido.
Isso não significa, por outro
lado, que o fenômeno não possa ser analisado do ponto de
vista antropológico, filosófico ou
teológico. Sem dúvida, cabe-nos buscar compreender o
neo-paganismo em termos genéricos. Isso nãoé contraditório, pois esta
análise não tempor
objetivo a mistura e a confusão das diferentes manifestações neo-pagãs sob um mesmo
rótulo e o subseqüente
confronto apologético com
esta quimera, este
monstro de
Frankenstein, composto de
partes juntadas de diferentes corpos
e origens. Essa
"arqueologia epistemológica" (13) implica em descobrir as
pressuposições fundamentais do
fenômeno, e produzir dessa maneira
um arsenal de
noções filosóficas e teológicas
que
possam de fato auxiliar no
combate específico e individual dessas
diferentes expressões
religiosas neo-pagãs. (14)
II. O Paganismo,o Neo-Paganismoe a Fé Cristã: Esboço de um Estudo
Comparativo
A religiosidade pagã nada mais é que o
espírito humano submetido à força
da gravidade,
isto é, limitado a um estado de
mínima resistência. Em outra palavras, é
a religiosidade
humana no seu estado natural, sofrendo a pressão e o impacto da
Queda em toda a sua
inteireza. (15) O
termo "paganismo" vem
da palavra latina
pagani que significa
"camponeses" ou "gente do campo, do interior".O termo pagani
ganhou a conotação atual
porque esses camponeses foram os
últimos a se converterem
ao cristianismo após sua
instituição no século
IV como religião
oficial do Império
Romano, e os últimos a
abandonarem as crençase práticasda religiosidade greco-romana. (16)É
curioso notarque,
inversamente, o neo-paganismo
teve origem nas cidades, e até hoje é nos grandes centros
urbanos e nos países mais desenvolvidos que o mesmo encontra maior
aceitação e menos
resistência.
É um erro pensar que o
paganismo é uma grande tolice, que
nada tem de aproveitável
(ainda que o decadente
neo-paganismo às vezes
nos deixe essa
impressão). Chesterton
resume brilhantemente a história espiritual da humanidade em uma de suas
frases mais
famosas: "O paganismo eraa melhor coisa que haviano mundo;e a fé
cristã surgiu,e era
melhor ainda.E tudo o mais depois disso tem sido comparativamentepior e
pequeno."(17)
Como sugere Rist, (18) Agostinho, assim como muitos outros intelectuais
convertidos ao
cristianismo nos primeiros séculos da era cristã, "viu sua
conversão não tanto como uma
substituição mas como uma expansão e um enriquecimento de suas posições
anteriores."
(19) Há pelo menos três elementos no paganismo pré-cristão que o
fazem respeitável: (i)
um senso de piedade, (ii)
uma moralidade objetiva e absoluta, e (iii) um
senso de
transcendência, de percepção do divino e de respeito
em face do misterioso.
(20) O
cristianismo resgatouo queo paganismopossuía de melhorà luzda revelação
divina,num
lento processoque teve início no primeiro séculoe seguiu-se atéo fimda
Idade Média. (21)
No neo-paganismo do nosso tempo
esses elementos desapareceram, e o que
sobra é o
invólucro, a superfície, a
superstição vazia e irracional. O neo-paganismo é, portanto, não
somente um anti-cristianismo mas
também um anti-paganismo, por
incrível que pareça.
Analisemos cada um destes elementos isoladamente.
A. Piedade
O sensode piedade (latim pietas)a que estamos nos referindo refere-se
ao instinto religioso
natural de respeito a algo maior que
o ser humano.
Isto implica na humildade de se
reconhecer como parte subordinada do grande
processo e esquema
universal. Vemos o
reflexo dessa mentalidade no neo-paganismo na adoção do chamado modelo
newtoniano.
(22)O resultado disso no paganismoda antigüidade era uma religiosidade
emque a palavra
de ordem era moderação (grego sophrosyne), (23) expressa na frase
"nada em demasia"
inscrita em todos os templos de Apolo, junto ao famoso "conhece-te
a ti mesmo" (24) (o
mesmo sentimento aparece
na expressão aristotélica
in medio virtus).
(25) As religiões
pagãsda Ásiana sua maioria ainda mantém esta tradição de reverência, de
reticênciae de
moderação. A civilização ocidental não pratica nem compreende essa
reverência e o neo-
paganismo, portanto, diferedo seu ancestral neste importante aspecto.
Ao contrário,o neo-
paganismo divinizao homem,é a religiãodo homem comoo novodeus, pregando
"ovalor
infinito do ser humano" e
"a autonomia do pensamento
crítico." (26) O neo-paganismo
confunde-se, portanto, com o
humanismo contemporâneo, o qual se transformou em uma
quase-religião. (27) No movimento
da Nova Era, que
se trata do neo-paganismo
em
avançado estado de putrefação,o humanismo se manifestade forma mais
crassa, como,por
exemplo, no fato de que quase
todas as práticas, terapias e
crenças da Nova Era são
voltadas parao bem-estardo ser humano,para o seu aperfeiçoamento, parao
seu confortoe
prazer. Além disso, há o
pressuposto implícito em todas as diferentes manifestações neo-
pagãsde queo serhumano é capazde resolveros seus problemas espirituais
por si mesmo,
através de exercícios, meditaçãoou utilização "racional" (ou
irracional) de objetos naturais
como plantase cristais.
É evidente queum retorno mais fiel ao paganismo da antigüidade não
seriaa solução paraa
busca religiosa do ser humano
moderno, e muito menos do
ser humano pós-moderno.
Apenasa fé cristã possui aquiloque o ser humano necessitae busca.A
piedade cristã nãoé
somente superior à piedade pagã (piedade esta que, como dissemos, o
neo-paganismo não
possui), masé uma piedade qualitativamente diferente. Um aspecto
fundamentalda piedade
cristã está em reconhecer-se como criatura diante do Criador. Qualquer
piedade que torne
opacaa distinção entreo Criadore as criaturasé inerentemente
incompatível coma piedade
cristã. Como afirmou Chesterton, a natureza não é minha mãe; na
verdade, ela é minha
irmã, como dizia Francisco de
Assis. Mais importante que isso é
o fato de que a piedade
cristã assume como pressupostoa verdade teológicado pecadooriginal. O
ser humano não
é apenas um ser corrompido atéo mais profundo do seu ser, masé também
corrompido em
todos os aspectosdo seu ser, inclusive sua razão, quesofre os chamados
efeitos noéticos do
pecado. Nossa razão não é confiável, somos constantemente condicionados
pelos impulsos
recebidos do meio
em que vivemos,
e somos igualmente impulsionados
por instintos
inconscientes sobre os quais
não temos qualquer
controle. Mas a diferença crucial e
primordial entrea piedade cristãe a piedade pagã estána certeza cristãde
que nãohá nada
que um ser humano possa
fazer para obter o
favor divino. A piedade
pagã tem como
elemento fundamentalo esforço humanopara obtero favor divinopor meio de
sacrifícios,
rituais e promessas.
Infelizmente muitos cristãos deixam-se iludir pela mentalidade pagã
que continua influenciandoa igreja, levando muitosa abraçar uma
cosmovisão pagã, ainda
que sob o disfarce de elementos cristãos. A piedade
cristã tem, como ponto de partida, o
render-se diante da
soberania divina, o tornar-se receptáculo
da graça divina
imerecidamente outorgada àquelesque humildemente se aproximamde Deus
emum atode
arrependimento pelo pecado, contrição sincerae confiançano
perdãodivino.
B. Moralidade
O que chamamos, a seguir,
de moralidade objetiva e absoluta, refere-se ao fato de que os
antigos pagãos que levavama sérioo seu paganismo insistiam na
existênciade leis morais
inquestionáveis, inegociáveis e permanentes. Essas leis morais eram
vistas como naturais,
evidentesna natureza das coisas, descobertas e não criadas pelo homem.
O neo-paganismo
procurou resgatar essa
moralidade racionalista pagã,
levá-la às últimas
conseqüências e
adaptá-laà realidadeda vida moderna. Esse extremo racionalismo acabou
se revertendo em
um irracionalismo, e por fim tornou-se relativista, subjetivista e
pragmático, chegando-se
lentamente à conclusão de que o
ser humano cria suas próprias leis morais, e
que estas
variam conforme o tempo e a
cultura. Os valores morais de um
indivíduo não podem ser
considerados errados, pois não existe um padrão ou norma absolutos que
determinem o
certo e o errado em questões
éticas. A grande imoralidade do ponto
de vista neo-pagão é
justamente dizer que algo é
moralmente errado. O grande erro é dizer
que algum tipo de
comportamentoé errado.O único absolutoé que nãohá absolutos.A única
coisaque deve
levar alguém a
sentir-se culpado é
essa mesma pessoa
sentir-se culpada por algo.
Este relativismo moral de
hoje em dia é o
correspodente moderno do
politeísmo da
antigüidade. O que está
verdadeiramente por trás dessa grande variedade de moralidades,
de bens morais, é uma enorme variedade de deuses modernos: o sucesso, a
felicidade, o
sexo, o dinheiroe o progresso,por exemplo.O neo-paganismo é, portanto,
não apenas uma
forma de humanismo (de divinização do ser humano),
mas também uma
forma de
politeísmo idólatra em que cada
ser humano torna-se um deus, um absoluto
sagrado,
transmissor em vezde receptorda lei moral. (28)
Mas isso não significaque um retornoà moralidade pré-cristãé a
resposta. Essa aliás, tem
sido a proposta da filosofia moderna racionalista no últimos trezentos anos. (29) A ética
cristã compartilha da objetividade e
da absolutividade características
da ética pagã (que o
neo-paganismo não possui), mas as semelhanças terminam aí. É bem verdade que a ética
cristã tem sofrido a má influência da
filosofia racionalista, e tem adquirido dessa forma
uma similaridade à ética pagã maior do
que é recomendável. Mas sob
o prisma correto
percebe-seque os pontos de vista pagãose cristãos são radicalmente
diferentes. Enquantoa
ética racionalista encontra seu fundamento na supremaciae na autonomia
da razão humana,
a ética cristã fundamenta-se na revelação especial de Deus, nas
Escrituras Sagradas.A ética
racionalista, quando teísta,
sugere que Deus
aprova certa atitude ou comportamento
humanos porque eles são bons em si mesmos. Creioque a ética cristã deve
opor-se a esta
cosmovisão e sugerir o oposto,
isto é, que uma certa atitude ou
comportamento humanos
são bons porque Deus os aprova.
Essa inversão ilustra a natureza essencialmente diversa e
em certo sentido oposta das éticas cristãe clássica-pagã.
C. Religiosidade
Finalmente, o senso de transcendência a que em seguida nos referimos é o
maravilhar-se
diantedo mistério,que levavao pagão pré-cristão ao atode adoração. No
mundo moderno,
o sentido, o instinto e a prática da
adoração per se entraram em declínio. Na civilização
ocidental é cada vez menor
o número de pessoas que adoram seja quem
ou o
que for.
Mesmo em nossas igrejas temos visto essa influência nefasta do
neo-paganismo, levando
nossas comunidades a adotar liturgias em que
o sentimento de
reverência cede lugar à
descontração e o bem-estar do
adorador torna-se mais
importante que sua contrição e
dedicação. Os efeitos se fazem presentes também na teologia moderna, emque
as doutrinas
são desmitologizadas, desmiraculizadas e desdivinizadas. Assim,
até mesmo teólogos
cristãos tornaram-se adeptos da mentalidade moderna
neo-pagã, uma vez que
o neo-
paganismo, diferentemente do
velho paganismo da antigüidade, abandonou a
crença no
sobrenatural e no transcendente e tornou-se naturalista e
imanentista. Aos poucos a
religiosidade neo-pagã foi-se tornando, portanto, não somente uma
forma de humanismo
disfarçado e uma re-edição
piorada do politeísmo, mas
também uma forma
popular de
panteísmo. O panteísmo popular
moderno é uma religiosidade muito confortável em que
Deus é transformado numa espécie de "força" à la Guerra nas
Estrelas, disponível sempre
que necessário, masque não incomoda. (30)É convenientepara os seres
humanos verem-se
como "bolhas da grande espuma
divina" em vez de
compreenderem-se como filhos
rebeldesde um Pai divinoe justo, desesperadamente carentesde se
reconciliarem com ele,
e absolutamente impotentes noque se referea essa condição espiritual.O
panteísmo rejeita
qualquer idéia que se assemelhe ao conceito bíblico de pecado porque
pecado implica em
separação entre Deus e o pecador (Rm 3.19-20; 5.12; 8.7-8; 11.32),
e ninguém pode estar
separado da totalidade.
Por isso, não
pode haver temor
de Deus sob uma perspectiva
panteísta. Portanto, do
ponto de vista neo-pagão, o que a
Bíblia chama de "princípio da
sabedoria"(Pv 1.6) é
aquiloque precisa ser erradicado
das mentes acima
de tudo.
A solução, portanto, não se encontra em uma apropriação mais cautelosa
ou mais exata do
paganismo clássico pré-cristão. Apenas a fé cristã possui as respostas
para os problemas
práticos, teóricos e religiosos do mundo de hoje. O senso de
transcendência do paganismo
não pode ser visto
como equivalente ao
senso de transcendência cristão.
Este último é
qualitativamente diferente daquele. Nãoé à toa quea mais explicitamente
pagã de todas as
heterodoxias modernas,o deísmo, seja uma teologiaque enfatizea transcendência
divina ao
preço da imanência divina. A fé
cristã ortodoxa rejeita
ambas as opções
radicais de
transcendência (deísmo)e de imanência
(teologia liberal do século XIX)
das correntes
teológicasque buscarama síntese do paganismo como cristianismo.A
conclusãoa que se
chegaé que o neo-paganismo acabapor cair, ou no racionalismo, ouno
irracionalismo. Os
grandes pensadores cristãos dos últimos séculos, percebendo essa terrível
encruzilhada,
insistiram na necessidadede enfatizara totalidade humana,de salientaro
fatode queo ser
humano precisa ser
compreendido em sua
inteireza, sem ser
dividido, fracionado,
compartimentalizado.O ser humano nãoé apenas razão, ou emoção,ou
vontade,ou corpo,
ou espírito. O ser humano é um todo, e só pode ser compreendido
corretamente se visto
como umtodo. Minha opiniãoé que teorias dicotomistas ou tricotomistas
são racionalismos
que devem ser
rejeitados. Afirmando a unidade
do ser humano, e as
simultâneas e
completas transcendência e
imanência de Deus, o cristianismo não
deixa espaço para
noções panteístas, e
se mostra superior tanto
ao paganismo quanto
ao neo-paganismo.
Post-Scriptum
Como afirmei no início, a chamada Nova Era não é uma conspiração. Mas na unificação
dos inimigos da
fé cristã, a saber,
panteísmo, politeísmo e humanismo,
unificação esta
levada a cabo pelo
neo-paganismo, pode-se perceber a estratégia do inferno, que todavia
não pode prevalecer contraa igreja. Pelo contrário,é a igrejaque
estápor lhe arrombar as
portas (Mt 16.18). No Calvário, quando as forças anti-cristãsdos mundos
grego, romanoe
hebreu se uniram na crucificação de
Cristo (fato este simbolicamente representado na
acusação contra Cristo afixada na cruz, escrita em três línguas: Lc
23.38; Jo 19.19-20), o
triunfo do mal foi também a
derrota do mal, e a morte do Filho de
Deus significou a
redenção do ser humano
(ver Cl 1.13-14). Nós
estávamos condenados pelas
nossas
transgressões, e Deus nos deu
vida em Cristo,
perdoando-nos nossos delitos,
"tendo
canceladoo escrito dedívida que era contranós e que constavade
ordenanças,o qual nos
era prejudicial, removeu-o
inteiramente, encravando-o na
cruz; e, despojando
os
principados e as potestades,
publicamente os expôs ao desprezo, triunfando sobre eles na
cruz" (Cl2.13-15). Certamente,o neo-paganismode nossos dias estará
em breve tão morto
e enterrado quanto o velho paganismo dos antigos está hoje. E o Deus revelado em Jesus
Cristo, aquele que pronuncioua primeira palavra, terá novamentea última
palavra. "Eu sou
o Alfa e o Ômega, diz o Senhor
Deus, aquele que é, que era, e que há de
vir, o Todo-
poderoso" (Ap 1.8).
1 G. K. Chesterton (1874-1936)é um autorque precisa ser mais lido no
Brasil. Chesterton
era um grande amigo de C. S. Lewis. Seus livros ensinam como se faz
filosofia cristã de
primeira qualidade e foram algumas
das melhores respostas
cristãs ao pensamento
moderno. Eu recomendo, por exemplo,os livros Orthodoxy (Nova York:
Doubleday, 1990
[1908]), Heretics
(Londres: G. Lane, 1905)e The Everlasting Man (San Francisco: Ignatius
Press, 1993 [1925]).
2 Chesterton, The
Everlasting Man, 237.
3 Ibid., 237-38. Minha tradução.
4 Para saber
mais sobre o chamado
pós-modernismo, ver Stanley
J. Grenz, Pós-
modernismo: Um Guia para Entendera Filosofia do Nosso Tempo (São Paulo:
VidaNova,
1997). Esse livroé uma boa introdução ao assunto. Outros livrosque
podem serde auxílio
nesse complicado tema filosóficoe cultural são:Brian D. Ingraffia,
PostmodernTheory and
Biblical Theology
(Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press, 1995),
especialmente pp.
167ss.; J. Richard Middleton e Brian J.
Walsh,Truth Is Stranger than It
Used to Be (Downers
Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1995), especialmente a primeira
parte, pp. 7-84;
David S. Dockery,
ed., The Challenge of Postmodernism (Wheaton,
Illinois: BridgePoint,
1995); e Gene Edward Veith,
Jr., Postmodern Times
(Wheaton:
Crossway, 1995). Ver também o
meu artigo "A Morte e a Morte
da Modernidade: Quão
Pós-moderno é o
Posmodernismo?" Fides Reformata 1:2 (Julho-Dezembro 1996), 59-70.
5 O que se chama de modernismo
é a
cosmovisão que prevaleceu durante
os últimos três
séculos, caracterizada pelo
seu cientificismo, historicismo,
racionalismo, e otimismo
humanista, entre outras
coisas. Ver Robert
B. Pippin,
Modernism as a Philosophical
Problem (Oxford:
Blackwell, 1991).
6 Chesterton,
Orthodoxy, 259. Minha tradução.
7 Ver Peter Gay, The
Enlightenment: The Rise of Modern Paganism (Nova York: W. W.
Norton& Company, 1966), 256-321. A teoria básica de Peter Gay
serviu também de base
para este artigo,
isto é, que
"o iluminismo foi
uma mistura volátil de classicismo,
impiedade, e ciência;
les philosophes, resumindo,
eram pagãos modernos." Ibid.,
8.
8 Os especialistas divergem,
contudo, quanto ao
relacionamento e envolvimento entre
humanistase reformadores,e se seria historicamente correto considerar
estesum sub-grupo
daqueles. Ver, por exemplo, os
estudos do erudito calvinista tcheco Josef Bohatec sobre
esse assunto: Die
Religionsphilosophie Kants, 1938,
reimpresso em 1966.
9 Confira Gay, The
Enlightenment,3-27.
10 Ver Immanuel Kant,
Religion within the Limits of Reason Alone (Nova York: Harper
Torchbooks, 1960).
11 Ver, por exemplo, as
populares obras de
ficção de Frank Peretti (e.g.,
Este Mundo
Tenebroso), e livros
como: John Bevere,
The Bait of Satan (Orlando:
Creation House,
1994) e Bob
Larson, Straight Answers on the
New Age (Nashville: Nelson Publishers,
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1989). Não que estes livros sejam imprestáveis, ouque seus autores
sejam charlatães. Mas
há uma atitude que
me parece errada
entre os chamados
"profetas da desgraça"
do
evangelicalismo americano, uma vontade de formular teorias místicas e maniqueístas de
conspiraçãoe de uma espécie de "ocultismo cristão"que
considero heterodoxoe prejudicial
paraa saúde espiritual da igreja.
12 Para saber mais sobreo tema "batalha espiritual," vero
livro de David Powlison, Power
Encounters: Reclaiming
Spiritual Warfare (Grand Rapids: Baker, 1995) e
também o livro
de Augustus Nicodemus G. Lopes,O que Você Precisa Sabersobre Batalha
Espiritual (São
Paulo: Editora CulturaCristã, 1997).
13 Aindaque eu esteja aqui fazendouso da expressão cunhada pelopensador
pós-moderno
Michel Foucault em Arqueologia do
Conhecimento, isso não significa que
estou adotando
ipsis litteriso métododo filósofo francês, quepor sinal possui boas
qualidades.
14 O método aqui adotado enquadra-se melhordentro da tradição
estabelecida pelo filósofo
calvinista holandês
Herman Dooyeweerd. Ver, por exemplo, Roots of the Western Culture
(Toronto:
WedgePublishing Foundation, 1979).
15 Vero capítulo
"Christianity and the New Paganism," em Peter Kreeft, Fundamentals of
the Faith: Essays in
Christian Apologetics (San Francisco: Ignatius Press,1988), 102.
16 Ibid.
17 Citado por Kreeft,
Fundamentals of the Faith, 102. Minha tradução. Vero capítulo "The
Escape from Paganism," em
Chesterton, The Everlasting
Man, 232-49, e o
capítulo
"Authority and
the Adventurer," em Orthodoxy, 141-60.
18 John M. Rist, estudiosode Agostinhoe professorna Universidade de
Toronto, Canadá,
é uma das maiores autoridades vivas sobreo pensamento do celebradobispo
de Hipona.
19 John M. Rist,
Augustine: Ancient Thought Baptized (Cambridge, Inglaterra: Cambridge
University Press, 1994),
12. Minha tradução.
Eu creio, todavia, que
é inadequado
interpretar a experiência de conversão
dessa forma. Ainda que haja uma
inegável
continuidade, a conversão implica numa completa transformação do
indivíduo no mais
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íntimo do seu ser, e toda
continuidade que ocorrer tem que ser interpretada à luz dessa
transformação essencial. Na vidado próprio Agostinho podemos ver como
todaa bagagem
trazida do paganismo recebeu em suas mãos uma nova significação. Mas a
continuidade
existe,e talveza melhor forma de explicá-laé perceberque a conversão
representa, não um
giro de 180 graus, mas sim um giro de 360
graus, isto é, a vida prossegue,
e o
indivíduo
inicia, após sua conversão, um longo processo de reavaliação de suas
idéias e concepções
atravésdo qual ele redimensiona sua existência.
20 Kreeft, Fundamentalsof the Faith, 102-106.
21 Uma das questões mais controvertidas da história da
teologia refere-se justamente ao
graude penetraçãoe influência das idéias pagãs durantea construçãodo
edifício teóricoda
teologia cristã. Não existem respostas fáceis para esse complexo
problema. Muito do que
há de melhorna teologia conservadora dos últimos trezentos anos
representaum esforço no
sentido de procurar uma aproximação maiore mais pura ao ensino das
Escrituras, livre dos
preconceitos e distorções provocados
pela influência pagã na igreja e na teologia
cristã
desdeo primeiro século atéos nossos dias.
22 John Locke e Isaac
Newton foram os mais
importantes mentores do
iluminismo.
Todavia, eles funcionaram mais como ícones, símbolos de uma revolução
do pensamento
que propriamente uma influência concreta em termos de idéias que muitas
vezes não eram
conhecidas ou eram mal compreendidas. Ver, por exemplo, o excelente
estudo de Gerd
Buchdahl, The Image of Newton and
Locke in the Age of Reason (Londres: Sheed &
Ward, 1961). A física newtoniana
teve de qualquer modo
um papel importante
no
iluminismo servindode inspiração e paradigma para todas as áreasdo
conhecimento. Boas
introduções para os aspectos
gerais do pensamento newtoniano, e
boas biografias de
Newton (o método biográfico ajuda bastante aqueles que, como eu, têm
dificuldades de
compreender as nuances da física newtoniana),
são Louis T. More, Isaac
Newton: A
Biography (Nova
York: Dover, 1962);
J. D. North,
Isaac Newton (Oxford:
Oxford
University Press,
1967); Richard S. Westfall, The Life of Isaac Newton (Cambridge, Ingl.:
Cambridge University
Press, 1993); A. Rupert Hall, Isaac Newton: Adventurer in Thought
(Oxford: Blackwell,
1992); Frank E.
Manuel, The Religion of
Isaac Newton (Oxford:
Clarendon Press, 1974)
e I. Bernard Cohen, The Newtonian
Revolution (Cambridge, Ingl.:
CambridgeUniversity Press).
23 Veros diálogosde Platão, especialmente Mênone Êutifron.
24 O famoso gnothi seautonde Sócrates.
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25 Ver Aristóteles, Ética a
Nicômaco. Como sugere Chesterton, "o paganismo declarava
quea virtude estava no equilíbrio;o cristianismo declarou quea virtude
estáno conflito:a
colisão de duas paixões aparentemente opostas". Orthodoxy, 92.
"São Francisco, ao louvar
tudo que é bom, conseguia
ser um otimista mais exagerado
que Walt Whitman.
São
Jerônimo, ao condenartoda maldade, era capaz de pintar um quadro ainda
mais escuro do
que Schopenhauer." Ibid., 96. "O leão se deitará com o cordeiro. Mas note que este texto
tem sido interpretado de forma
muito suave. Nós somos constantemente assegurados por
nossas tendências tolstoyanas que,quando o leão se deita como cordeiro,
ele se tornaigual
a um cordeiro. Mas isso é uma anexação brutal e um imperialismo da parte
do cordeiro.
Isso é apenas o cordeiro
absorvendo o leão em vez de o leão
comendo o cordeiro. O
verdadeiro enigma é: pode o leão se deitar ao lado do cordeiro e todavia manter toda sua
ferocidade real? Esse é o enigma
que a igreja tentou resolver; esse é
o milagre que ela
alcançou." Ibid.,
98.
26 Gay, The
Enlightenment, 226.
27 O conceito de quase-religiões foi criadonos anos60 pelo teólogo
neoliberal Paul Tillich
para referir-se a fenômenos secularistas, como, por exemplo, o marxismo, o
nazismo, o
humanismoe o cientificismo.
28 Ver, por exemplo, o volume de
ensaios sobre cristianismo e cultura editado por Os
Guinness e John Seel, No God but God: Breaking with the Idols of our Age (Chicago:
Moody Press, 1992).
29 A ética moderna em geral tem privilegiado uma metodologia
racionalista. Tantoa ética
deontológica de Kant e seus
seguidores, quanto a ética utilitarista dos ingleses Bentham e
Stuart Mill são calcadas na ética pagã, e desconhecem a noção de uma
ética baseada na
revelação especial de Deus. Os pressupostos básicos por trás das éticas
racionalistas são a
supremaciae a autonomia da razão humana.
30 Vera críticaque o celebrado pensador cristão inglêsC. S. Lewis já
fazia nos anos 40a
essa mentalidade em seu livro Miracles(Nova York: Macmillan, 1947).
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