segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Parte 2: Anarcocapitalismo, conservadorismo e demais libertarianismos

O anarcocapitalismo (ou anarquismo de propriedade privada) é uma filosofia política que defende a abolição total do Estado em favor da soberania individual, da propriedade privada e do livre mercado. Segundo seus proponentes, todas as funções sociais — incluindo segurança e justiça — devem ser providas por instituições privadas e voluntárias.

1. Definição segundo os proponentes 


Para os principais teóricos, o anarcocapitalismo é a conclusão lógica da não agressão e do direito de autopropriedade:
Murray Rothbard (O Fundador): Definiu o sistema como uma sociedade onde não há "agressor legal" (Estado) e onde todos os serviços são fornecidos por indivíduos ou empresas em um mercado livre. Para Rothbard, o Estado é inerentemente uma "organização criminosa" porque se sustenta via impostos (roubo).
Hans-Hermann Hoppe: Introduziu a ideia da "Ordem Natural", argumentando que uma sociedade de leis privadas seria mais estável e civilizada do que a democracia estatal. Ele utiliza a "ética da argumentação" para provar que a autopropriedade é um pressuposto básico de qualquer debate racional.
2. Paralelos com o Conservadorismo

A relação é complexa e varia conforme a vertente:
  • Convergência (Paleolibertarianismo): Rothbard e Hoppe buscaram alianças com conservadores ("paleoconservadores") por compartilharem valores como a importância da família, da religião e de tradições culturais locais como barreiras contra o poder estatal.
  • Divergência: Enquanto o conservadorismo tradicional aceita ou exige uma autoridade central forte para manter a ordem moral, o anarcocapitalista rejeita qualquer autoridade que não seja baseada em contrato voluntário. Rothbard criticava conservadores que apoiavam o militarismo e a regulação da moralidade individual pelo Estado.
3. Paralelos com outras formas de Libertarianismo

O anarcocapitalismo é frequentemente visto como a ala radical do movimento libertário:
Vs. Minarquismo: O minarquismo (Estado Mínimo) defende que o governo deve existir apenas para proteger a propriedade e a vida. O anarcocapitalista argumenta que, se o mercado é melhor para produzir comida e tecnologia, também será melhor e mais ético para produzir justiça.
Vs. Agorismo e Libertarianismo de Esquerda: Ambas as vertentes buscam a abolição do Estado. No entanto, o anarquismo clássico de esquerda rejeita a propriedade privada e as hierarquias de mercado (como patrão-empregado), enquanto o anarcocapitalismo as vê como expressões naturais da liberdade.

  • Para os maiores especialistas no assunto, não se trata de uma ênfase num novo sistema económico (senäo as mesmas leis naturais de livre mercado), nem uma nova ideologia, mas o tema é tratado mais  enfaticamente como um sistema de "Lei Privada". O foco não seria a "ausência de regras", mas a substituição do monopólio estatal da força por um ecossistema de agências de proteção concorrentes e tribunais de arbitragem privados. A transição para esse modelo é frequentemente discutida através do Agorismo (contraeconomia) ou da Secessão em níveis locais.

Relação com o agorismo e os pontos de divergência e convergência
Agorismo, formulado por Samuel Edward Konkin III (SEK3), é uma estratégia política e filosofia libertária que propõe a criação de uma sociedade livre através da contraeconomia. Diferente de vertentes que focam apenas na teoria, o agorismo é eminentemente prático: ele busca tornar o Estado obsoleto ao retirar dele sua base econômica.
O Agorismo e a Contra-economiaA contrae-conomia é a prática de atos econômicos pacíficos que são proibidos ou regulados pelo Estado. Isso inclui o "mercado negro" (bens ilegais como drogas, desde que não violem o direito alheio) e o "mercado cinza" (bens legais vendidos sem impostos ou licenças).A lógica é que se todos passarem a transacionar fora do controle estatal, o Estado perderá sua capacidade de arrecadar impostos e, consequentemente, sua capacidade de exercer poder.
Convergências com o Anarcocapitalismo
Ambas as filosofias compartilham o objetivo final e os fundamentos éticos:
  • Fim do Estado: Ambas defendem a abolição total do monopólio estatal da força.
  • Ética Libertária: Baseiam-se no Princípio da Não Agressão (PNA) e na autopropriedade.
  • Mercado Livre: Acreditam que o mercado é capaz de prover todos os serviços, incluindo segurança e justiça.
Divergências Fundamentais
Apesar dos objetivos comuns, os pontos de ruptura são profundos, especialmente na estratégia e na visão de mundo:
Ponto de DivergênciaAgorismo (Konkin)Anarcocapitalismo (Rothbard/Hoppe)
Estratégia PolíticaAnti-partidária. Rejeita o voto e a política institucional como formas de legitimar o agressor.Aceita o "gradualismo". Rothbard apoiou candidaturas políticas para reduzir o Estado por dentro.
Visão do CapitalismoDistingue entre o "livre mercado" e o "capitalismo" (visto como um sistema de privilégios estatais para grandes empresas).Vê o "capitalismo de mercado" como a aplicação prática ideal da liberdade.
Alianças CulturaisTende à esquerda libertária. Konkin era simpático a cooperativas e causas sociais, desde que voluntárias.Tende ao paleolibertarianismo (direita). Proponentes como Hoppe valorizam tradições conservadoras e estruturas familiares.
Propriedade IntelectualGeralmente a rejeita, considerando-a um monopólio artificial criado pelo Estado.É um ponto de debate interno, mas muitos proponentes clássicos a defendiam originalmente como extensão da propriedade.
Enquanto o anarcocapitalista rothbardiano foca na mudança de consciência e, por vezes, na ação política, o agorista foca na desobediência civil econômica para "sangrar" o Estado até sua extinção.

A estratégia de implementação ou de passagem para o anarcocapitalismo
Para os especialistas, a transição do estatismo para o anarcocapitalismo não é um evento único (como uma revolução armada), mas um processo de 
erosão da legitimidade estatal.
As estratégias variam conforme a vertente, mas podem ser resumidas em quatro pilares principais:
1. Contraeconomia e Agorismo
Como mencionado, o objetivo aqui é "secar" a fonte de poder do Estado: o dinheiro.
  • Desobediência Fiscal: Utilizar criptomoedas, troca de serviços e mercados informais para evitar a tributação.
  • Inovação Tecnológica: Criar tecnologias que o Estado não consegue controlar ou regular (como o Bitcoin e redes de comunicação criptografadas). O Instituto Mises Brasil frequentemente discute como a tecnologia descentralizada retira o monopólio da moeda das mãos dos bancos centrais.
2. Secessão e Descentralização
Esta é a estratégia preferida de Hans-Hermann Hoppe. Em vez de tentar mudar o país inteiro, a ideia é quebrar o Estado em unidades cada vez menores.
  • Micronacionalismo: Apoiar movimentos separatistas e a criação de "Cidades Privadas Livres" (Free Private Cities).
  • Efeito Dominó: Se uma pequena região se torna um paraíso de liberdade e prosperidade, ela atrai capital e força de trabalho, forçando os Estados vizinhos a competirem (reduzindo impostos) ou colapsarem.
3. A Estratégia Rothbardiana (Educação e Política)
Murray Rothbard acreditava em uma abordagem de "mordida dupla":
  • Educação: Criar uma massa crítica de intelectuais e cidadãos que entendam que o Estado é desnecessário. Sem o consentimento (ou a resignação) dos governados, o Estado cai.
  • Ação Política Radical: Embora pareça contraditório, Rothbard defendia usar a política para aprovar leis que desmantelem órgãos estatais, privatizem tudo e reduzam o orçamento público até o zero absoluto. É o "usar o sistema para destruir o sistema".
4. Privatização de "Capa a Capa"
A passagem prática envolveria a transferência de todas as propriedades públicas para o setor privado.
  • Justiça e Segurança: A implementação gradual de agências de arbitragem privada que já existem hoje (como câmaras de comércio internacionais) até que elas substituam os tribunais estatais.
  • Devolução: Em vez de vender estatais para "amigos do rei", muitos proponentes sugerem entregar as ações dessas empresas diretamente aos cidadãos ou aos trabalhadores daquelas unidades.
O maior desafio teórico dessa "passagem" é o problema da segurança: como impedir que uma milícia privada se torne o novo Estado? A resposta anarcocapitalista reside na concorrência e no custo proibitivo da guerra em um mercado aberto.
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