quarta-feira, 10 de abril de 2024

Nikolai Berdiaev - Espírito e Liberdade

 

 - Introdução





Em seu livro O Peregrino do Absoluto, Léon Bloy diz: “Sofrer passa; ter sofrido não passa jamais”. É preciso dar a esse aforismo seu sentido mais amplo. Podemos superar a experiência da vida, mas a experiência vivida permanece para sempre como o apanágio do homem e a realidade engrandecida se sua vida espiritual. Não existe possibilidade alguma de apagar o que foi vivido. Aquilo que foi continua a existir sob uma forma transfigurada. O homem não é um ser absolutamente finito, ele se forma e se cria na experiência da vida, na luta do espírito, nas provas de seu destino. O homem não é senão o desígnio de Deus.

O passado é superável e pode ser vencido, ele pode ser resgatado e perdoado, nos ensina o Cristianismo: o nascimento para uma nova vida é possível. Mas nessa nova vida transfigurada entram essas experiências, que não podem desaparecer sem deixar traços. Um sofrimento pode ser superado e a alegria e a felicidade podem renascer, mas em toda nova alegria, em toda nova felicidade, entrará misteriosamente o sofrimento que foi vivido; a alegria e a felicidade serão doravante diferentes. As dúvidas torturantes podem ser dominadas, mas na fé adquirida se revelará a profundidade das incertezas. A mesma fé será de outra qualidade do que a dos homens que não tiveram essas dúvidas e que creram por “herança”, pelo nascimento ou pela tradição. O homem que viajou bastante por mundos espirituais, que passou por provas no decurso de sua busca e de suas peregrinações, terá uma formação espiritual diferente da de um homem sedentário, para que esses mundos permanecem desconhecidos. O homem está ligado ao seu destino, e mão tem poder para renunciar a ele. Meu destino é sempre particular, ele não se renova, ele é um e único. Na experiência de minha vida, nas minhas provas e buscas, cria-se a formação do meu espírito. Tudo o que eu vivi faz parte das mais altas aquisições de minha vida espiritual, de minha fé, de minha Verdade, eu enriqueço com minhas experiências, mesmo que essas tenham sido torturantes e terríveis, mesmo se, para escapar do abismo, eu tenha tido que apelar para outras forças além das forças humanas.

Quando o homem retorna a Deus depois de uma experiência de apostasia, ele desfruta, em suas relações com Ele, de uma liberdade desconhecida por quem passou toda a vida numa fé tranquila e tradicional, que viveu numa “herança patrimonial”. O sofrimento passa, mas haver sofrido não passa jamais. Essa verdade é exata, seja em relação ao indivíduo em particular, seja em relação às sociedades humanas. Vivemos numa época transitória de crise espiritual, na qual muitos peregrinos errantes voltam ao Cristianismo, à fé de seus pais, à Igreja, à Ortodoxia. Esses homens retornam, tendo passado pela prova da nova história, da qual eles atingiram os limites extremos. Essas almas, do final do século XIX e início do século XX, são almas trágicas. São almas novas, das quais não se pode desenraizar as consequências das experiências vividas.

Como esse viajam são recebidos quando retornam à Casa do Pai? Frequentemente, é de outro modo do que aquele como foi recebido o filho pródigo da parábola, a voz do filho mais velho, que se glorifica de ter permanecido junto ao Pai e de tê-lo servido, se faz ouvir com força. E no entanto, dentre esses peregrinos do espírito, não existem apenas homens depravados, existem também os famintos, os sedentos da Verdade; e esses serão mais justificados perante Deus do que inúmeros “cristãos burgueses” que se orgulham de seu farisaísmo e se creem “grandes proprietários” da vida religiosa.

A alma humana se tornou diferente do que era quando recebeu o Cristianismo em suas origens, quando ensinavam os grandes doutores da Igreja, quando se dogmatizava nos concílios ecumênicos, quando se formava o estado monástico, quando o regime teocrático dominava e se forjava a religiosidade medieval e bizantina. Essa transformação e essa depuração da psique se produziram, antes de tudo, sob a influência da ação misteriosa, tantas vezes invisível e profunda, do próprio Cristianismo, que triunfava interiormente sobre a barbárie e a rudeza da alma, enquanto educava os homens.

Não encontramos resposta às angustiantes questões de Nietzsche nos catecismos ou nos ensinamentos dos starzi[1]; elas exigem d Cristianismo um complemento criativo. Todo o nosso movimento de filosofia religiosa russa das últimas décadas passou por uma experiência indelével que não pode deixar de enriquecer o Cristianismo. Ela não resultou de um processo de aperfeiçoamento individual ou de uma aquisição de santidade. Entretanto, o espírito eclesiástico reacionário (não a Igreja) se opôs ao pensamento criativo da filosofia religiosa e a renegou. O mundo Ortodoxo, de espírito tradicional, ainda não compreendeu que o Cristianismo deixou de ser, por excelência, a religião dos simples de espírito, e que ele deve se voltar para almas mais complexas e descobrir uma espiritualidade mais profunda.

Aqueles que conheceram uma liberdade d e espírito ilimitada e que retornaram livremente à fé Cristã, não podem apagar de suas almas essa experiência, nem negar sua existência. A liberdade, com sua dialética interior, o destino trágico que ela traz em si, é uma experiência de ordem particular, inerente ao próprio Cristianismo. Quem superou de modo definitivo as seduções e as tentações do humanismo, que descobriu o vazio da adivinhação do homem pelo homem, não poderá jamais renunciar à liberdade que o conduziu a Deus, a essa experiência definitiva que o libertou do Mal. Não podemos manter sobre um terreno abstrato a questão da liberdade religiosa e tratá-la de uma perspectiva estática. Eu cheguei a Cristo pela liberdade, pela experiencia intima dos caminhos da liberdade; minha fé Cristã não é a fé dos costumes patrimoniais recebidos em herança, ela foi obtida através de uma experiência torturante de vida interior. Eu não conheço constrangimentos na minha vida religiosa, nem reconheço experiência de fé ou de religiosidade autoritárias. Podemos opor a esse fato fórmulas dogmáticas e teologias abstratas? Não, porque para mim elas não serão jamais realmente convincentes.

Continua...




segunda-feira, 8 de abril de 2024

EX-MARXISTAS CONDENAM O MARXISMO E O MATERIALISMO


— Leszek Kolakowski 


Em 1903, apareceu "Problemas do idealismo", uma coleção de ensaios, muitos deles de autores que haviam sido marxistas até recentemente, mas que condenavam o marxismo e o materialismo pelo seu niilismo moral, desprezo à personalidade, determinismo e a busca fanática de valores sociais independentemente dos indivíduos que compunham a sociedade; eles também atacavam o marxismo por sua adoração não-crítica ao progresso e pelo sacrifício do presente ao futuro. 

Nenhum sistema ético, alegava Berdiaev, poderia ser baseado numa visão de mundo materialista, visto que a ética pressupunha a distinção kantiana entre o que é e o que deve ser. 

As normas morais não podem ser deduzidas da experiência, e as ciências experimentais são portanto inúteis para a ética. 

Para que essas normas sejam válidas deve haver um mundo inteligível no qual elas têm o seu ser, um mundo que não é o da experiência, e a sua validade também pressupõe a natureza livre e numenal do homem. 

A consciência moral postula assim a liberdade, a existência de Deus, e a imortalidade da alma. 

O positivismo e o utilitarismo não podem fornecer ao homem critérios absolutos de valor. 

Bulgakov atacou o materialismo e o positivismo com fundamento no fato de que eram incapazes de solucionar enigmas metafísicos, viam o mundo e a existência humana como o produto do acaso, negavam a existência da liberdade e não ofereciam nenhum critério de valor moral. 

O mundo e a presença do homem nele eram inteligíveis somente à luz da fé na harmonia divina, e o comprometimento social não poderia ser baseado em nada além de um sentido do dever religioso. 

É somente quando os nossos atos recebem significado em razão da sua relação com a divindade que podemos falar da verdadeira auto-realização e da integração da personalidade, que é o valor humano supremo.

A TEORIA DO MATERIALISMO HISTÓRICO CARECE DE FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS OU MORAIS

 Leszek Kolakowski 


O historicismo de Hegel havia desempenhado um papel importante na origem do marxismo, ao fornecer uma base para a visão evolucionista da história. 

Graças a Darwin e Spencer, contudo, a teoria da evolução universal tinha agora melhores fundamentos na biologia e não necessitava do auxílio da metafísica hegeliana. 

O que havia de mais prejudicial na tradição hegeliana, por outro lado, era a rejeição da distinção entre "Sein" e  "Sollen", o que é e o que deve ser. 

No esquema de Hegel, a noção de "dever ser" aparecia "post festum", como uma tomada de consciência da impotência. 

Marx havia seguido Hegel ao ignorar a distinção, mas sem ela não havia base para a ideia de socialismo. 

Assim, a teoria do materialismo histórico não foi bem pensada e carecia de fundamentos epistemológicos ou morais. 

A crítica feita a Kant por Marx e Engels era de pequena importância, visto que claramente não sabiam muito a respeito dele: o ataque de Engels ao conceito de "coisa em si" mostrou a sua compreensão completamente errônea do problema. 

Se coubesse à teoria de Marx formar a consciência de um movimento social, ela deveria representar o socialismo como um objetivo pelo qual se deve lutar: mas o marxismo fracassou em validar o socialismo enquanto objetivo. 

Em geral, a ideia de progresso envolvia avaliação, e não poderia haver nenhuma teoria do progresso a não ser de um ponto de vista teleológico. 

Assim, a teoria moral de Kant era uma forma natural de completar o marxismo.

(Resumido por  Yuri Fagundes)


LIVRARIA LIBERTÁRIA 



sexta-feira, 5 de abril de 2024

DOSTOIÉVSKI: O FIM DA VIDA E A RELAÇÃO COM A IGREJA

 



Dostoievski foi educado no seio de uma família muito religiosa, assumindo-se, até ao fim da sua vida, como Cristão Ortodoxo. 


Enquanto esteve preso, a sua obsessão com a figura de Cristo cresceu ainda mais, uma vez que o único livro que lhe era permitido ler na prisão era a Bíblia. 


Durante esse período, escreveu uma carta, onde confessa que  “mesmo que alguém me provasse que a verdade não mora em Cristo, ainda assim eu escolheria permanecer ao seu lado, em vez do lado da verdade” . 


No leito da sua morte (a 9 de fevereiro de 1881), provocada por três hemorragias pulmonares, pediu que a Parábola do Filho Pródigo (do Evangelho de São Lucas) fosse lida aos seus filhos – tendo sido o seu último desejo deixar esta mensagem de redenção como a sua derradeira herança.


Com apenas 59 anos, tinha atingido o auge da sua carreira literária (algo que se pode denotar no fato de terem comparecido cerca de 50.000 pessoas ao seu funeral, de acordo com alguns relatos), e foi sepultado  no cemitério  Tikhvin, em São Petersburgo,  junto aos seus poetas preferidos,  Nikolay Karamzin e Vasily Zhukovsky.  


Na sua lápide pode ler-se a seguinte frase do Novo Testamento:  “*Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto.*” 


https://www.bertrand.pt/evento/5-curiosidades-sobre-fiodor-dostoievski/159790




"Mesmo que alguém me provasse que a verdade não mora em Cristo, ainda assim eu escolheria permanecer ao seu lado, em vez do lado da verdade”.


— Fiódor Dostoiévski 


Mediante essa frase supracitada de Dostoiévski, percebo que ele capturou a essência da mensagem cristã, em contraposição ao objetivismo radical que hipotastisa a Verdade em detrimento de seu Autor.


Amar o Autor da Verdade e à Sua Verdade enquanto expressão d'Ele Próprio. 


Eis o grande tesouro.


Yuri Fagundes



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domingo, 31 de março de 2024

Livro da Ordem de Cavalaria - prólogo



Livro da Ordem de Cavalaria  

Ramon Llull 

(1279-1283) 




IT 



O.I.T.O.

 





E.T.C.A.  

Escola Terapêutica das Ciências Antigas 
 

 

 

 

 

Deus honrado, glorioso, que sois cumprimento de todos os bens, por vossa graça e vossa bênção começa este livro que é da Ordem de Cavalaria. 

 

 

INICIA O PRÓLOGO 

1. Por significação dos VII planetas, que são corpos celestiais e governam e ordenam os corpos terrenais, dividimos este Livro de cavalaria em VII partes, para demonstrar que os cavaleiros tem honra e senhorio sobre o povo para o ordenar e defender. A primeira parte é do começo de cavalaria; a segunda, do ofício de cavalaria; a terceira, do exame que convém que seja feito ao escudeiro com vontade de entrar na ordem de cavalaria; a quarta, da maneira segundo a qual deve ser armado o cavaleiro; a quinta, do que significam as armas do cavaleiro; a sexta é dos costumes que pertencem ao cavaleiro; a sétima, da honra que se convém ser feita ao cavaleiro.  

2. Em uma terra aconteceu que um sábio cavaleiro que longamente havia mantido a ordem de cavalaria na nobreza e força de sua alta coragem, e a quem a sabedoria e ventura o haviam mantido na honra da cavalaria em guerras e em torneios, em assaltos e em batalhas, elegeu a vida ermitã quando viu que seus dias eram breves e a natureza o impedia, pela velhice, de usar as armas. Então, desamparou suas herdades e herdou-as a seus infantes, e em um bosque grande, abundante de águas e árvores frutuosas, fez sua habitação e fugiu do mundo para que o enfraquecimento de seu corpo, no qual chegara pela velhice, não lhe desonrasse naquelas coisas que, com sabedoria e ventura ao longo do tempo o haviam honrado tanto. E, por isso, o cavaleiro cogitou na morte, relembrando a passagem deste século ao outro, e entendeu a sentença perdurável a qual havia de vir.  

3. Em um belo prado havia uma árvore muito grande, toda carregada de frutos, onde o cavaleiro vivia naquela floresta. Debaixo daquela árvore havia uma fonte muito bela e clara, da qual eram abundantes o prado e as árvores que ali eram ao redor. E o cavaleiro havia em seu costume, todos os dias, de vir àquele lugar adorar e contemplar e pregar a Deus, a qual fazia graças e mercês da grande honra que Lhe havia feito todos os tempos de sua vida neste mundo.  

4. Em aquele tempo, na entrada do grande inverno, aconteceu que um grande rei muito nobre e de bons e bem abundantes costumes, mandou haver cortes. E pela grande fama que tinha nas terras de suas cortes, um escudeiro de assalto, só, cavalgando em seu palafrém, dirigia-se à corte para ser armado novo cavaleiro; e pelo esforço que havia suportado em sua cavalgada, enquanto ia em seu palafrém, adormeceu; e naquela hora,  

o cavaleiro que na floresta fazia sua penitência chegou à fonte para contemplar a Deus e menosprezar a vaidade daquele mundo, segundo que cada um dos dias havia se acostumado.  

5. Enquanto o escudeiro cavalgava assim, seu palafrém saiu do caminho e meteu-se pelo bosque, e andou tão à vontade pelo bosque, até que chegou na fonte onde o cavaleiro estava em oração. O cavaleiro, que viu chegar o escudeiro, deixou sua oração e assentou-se no belo prado, à sombra da árvore, e começou a ler em um livro que tinha em sua falda. O palafrém, quando foi à fonte, bebeu da água; e o escudeiro, que sentiu em sua dormência que seu palafrém não se movia, despertou e viu diante de si o cavaleiro, que era muito velho e tinha grande barba e longos cabelos e rotas vestes por seu uso; e pela penitência que fazia, era magro e pálido, e pelas lágrimas que vertia, seus olhos eram humildes, tudo dando uma aparência de vida muito santa. Muito se maravilharam um do outro, pois o cavaleiro havia longamente estado em seu eremitério, no qual não havia visto nenhum homem depois de haver desamparado o mundo e deixado de portar armas; e o escudeiro se maravilhou fortemente como tinha chegado naquele lugar.  

6. O escudeiro desceu de seu palafrém saudando agradavelmente o cavaleiro, e o cavaleiro o acolheu o mais belamente que pôde, e sentaram-se na bela erva, um ao lado do outro. O cavaleiro, que percebeu que o escudeiro não queria primeiramente falar porque lhe queria dar honra, falou primeiramente e disse: — Belo amigo, qual é a vossa coragem, onde ides e por que vieste aqui? — Senhor — disse o escudeiro — é fama por longínquas terras que um rei muito sábio mandou haver cortes, e fará a si mesmo cavaleiro e logo armará cavaleiros outros barões estrangeiros e privados. E por isso, eu vou àquela corte para ser novo cavaleiro; e meu palafrém, enquanto dormia pelo trabalho que tive nas grandes jornadas, conduziu-me neste lugar.  

7. Quando o cavaleiro ouviu falar de cavalaria e relembrou a ordem de cavalaria e o que é pertencente ao cavaleiro, verteu um suspiro e entrou em considerações lembrando a honraria no qual a cavalaria o havia mantido tanto tempo. Enquanto o cavaleiro assim cogitava, o escudeiro perguntou ao cavaleiro quais eram suas considerações. O cavaleiro disse:  

— Belo filho, meus pensamentos são sobre a ordem de cavalaria e do grande dever que é do cavaleiro manter a alta honra de cavalaria.8O escudeiro rogou ao cavaleiro que lhe dissesse o que era a ordem de cavalaria, e de que maneira o homem pode melhor honrá-la e conservar a honra que Deus lhe havia dado. — Como, filho? — disse o cavaleiro — e tu não sabes qual é a regra e a ordem da cavalaria? E como tu podes aspirar à cavalaria se não tem sapiência da ordem de cavalaria? Pois nenhum cavaleiro pode manter a ordem que não sabe, nem pode amar sua ordem, nem o que pertence à sua ordem, se não sabe a ordem de cavalaria, nem sabe conhecer as faltas que são contra sua ordem. Nem nenhum cavaleiro deve ser cavaleiro se não sabe a ordem de cavalaria, porque desonrado cavaleiro é que faz cavaleiro e não sabe lhe mostrar os costumes que pertencem ao cavaleiro.  

9. Enquanto o cavaleiro dizia aquelas palavras e repreendia o escudeiro que desejava cavalaria, o escudeiro perguntou ao cavaleiro: — Senhor, se a vós aprouver dizer-me em que consiste a ordem de cavalaria, assim sentirei coragem de aprender a ordem e seguir a regra e a ordem de cavalaria. — Belo amigo — disse o cavaleiro — a regra e a ordem de cavalaria estão neste livro que leio algumas vezes para que me faça relembrar a graça e a mercê que Deus me fez neste mundo; porque eu honrei e mantive a ordem de cavalaria com todo meu poder; porque assim como a cavalaria dá tudo que pertence ao cavaleiro, assim o cavaleiro deve empenhar todas as suas forças para honrar a cavalaria.  

10. O cavaleiro entregou o livro ao escudeiro; e quando o escudeiro acabou de o ler, entendeu que o cavaleiro é um eleito entre mil homens para haver o mais nobre ofício de todos, e tendo então entendido a regra e ordem de cavalaria, pensou consigo um pouco e disse: — Ah, senhor Deus! Bendito sejais Vós, que me haveis conduzido em lugar e em tempo para que eu tenha conhecimento de cavalaria, a qual foi longo tempo desejada sem que soubesse a nobreza de sua ordem nem a honra em que Deus pôs todos aqueles que são da ordem da cavalaria.  

11. — Amável filho — disse o cavaleiro — eu estou perto da morte e meus dias não são muitos, ora, como este livro foi feito para retornar a devoção e a lealdade e o ordenamento que o cavaleiro deve haver em ter sua ordem, por isso, belo filho, portai este livro à corte onde ides e mostrai-o a todos aqueles que desejam ser novos cavaleiros; guardai-o e apreciai-o se amais a ordem de cavalaria. E quando fores armado novo cavaleiro, retornai a este lugar e dizei-me quais são aqueles que foram feitos novos cavaleiros e não foram tão obedientes à doutrina da cavalaria.  

12. O cavaleiro deu sua bênção ao escudeiro, e o escudeiro pegou o livro e muito devotadamente se despediu do cavaleiro, e subiu em seu palafrém e se foi para a corte muito alegremente. E sábia e ordenadamente deu e apresentou aquele livro ao muito nobre rei e toda a grande corte, e permitiu que todo cavaleiro que quisesse entrar na ordem de cavalaria o pudesse trasladar, para que de vez em quando o lesse e recordasse a ordem de cavalaria.  

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