sábado, 17 de fevereiro de 2024

Qual é o núcleo da Tradição Ortodoxa?

 (Pe. John Romanides)




O assunto em questão é qual é o núcleo da tradição Ortodoxa. A tradição Ortodoxa nos oferece um método para curar o nous e a alma humana. Esta cura, como já dissemos, tem dois estágios: iluminação e theosis. A theosis - o estado no qual a pessoa é capaz de ver Deus - é nossa garantia de que é possível ser curado, completamente curado. Este método terapêutico, este curso terapêutico de tratamento que a tradição Ortodoxa tem a oferecer, foi transmitido de geração em geração por pessoas que, tendo alcançado o estado de iluminação ou theosis, se tornaram terapeutas para outros. Não estamos falando aqui simplesmente de conhecimentos que foram transmitidos através de livros, mas da experiência - tanto a experiência da iluminação quanto a experiência da theosis - que tem sido passada adiante, de uma pessoa para outra, sucessivamente.


No Antigo Testamento, entretanto, apenas os patriarcas e profetas dos israelitas foram observados como tendo alcançado os estados de iluminação e theosis. Este é um fenômeno histórico. Antes dos profetas, nós temos os patriarcas. Antes de Moisés, temos Abraão. No Antigo Testamento, no entanto, descobrimos que existia uma consciência dos estados de iluminação e theosis antes mesmo de Abraão. O próprio Abraão tinha visto Deus. Isto é, ele tinha alcançado a theosis. Isto é bastante óbvio. Também temos evidências a partir da tradição judaica de que a iluminação e a theosis existiram no período anterior a Abraão entre os antepassados de Abraão, tais como Noé. Afinal, esta tradição de iluminação e theosis é algo que foi passado adiante. Ela não apareceu assim, do nada. Não apareceu apenas de repente no século XI ou XII antes de Cristo.


Temos o Antigo Testamento, mas também temos o Novo Testamento. É mais fácil ver estas coisas no Novo Testamento, porque o período de tempo que ele abrange é mais limitado, ao passo que o Antigo Testamento contém 1500 anos de história. Existe uma tradição central e unificadora em torno da qual gira este período de 1500 anos. E esta tradição, que é a tradição da iluminação e da theosis, que foi passada adiante de profeta para profeta, é o núcleo da tradição Ortodoxa. Em outras palavras, o núcleo da tradição Ortodoxa é esta transmissão da experiência da iluminação e da theosis de uma geração para a próxima. Ela se estende cronologicamente de Abraão no Antigo Testamento até João, o Precursor. É a tradição profética, a tradição dos patriarcas e dos profetas.


Mas mesmo antes do período de que estamos falando, há o primeiro período, que se estende de Adão passando por Noé até Abraão. Hoje, a veracidade dos acontecimentos históricos mencionados no Antigo Testamento tem sido confirmada arqueologicamente, pelo menos desde a época de Moisés. E hoje, ninguém duvida do grande valor histórico do Antigo Testamento como um texto. Mas mesmo antes de Moisés, desde a época de Abraão, eles descobriram achados arqueológicos que verificam o que é mencionado no Antigo Testamento a respeito da pessoa de Abraão.


Portanto, podemos ver que o núcleo da tradição Ortodoxa não é o livro da Sagrada Escritura, mas a transmissão desta experiência de iluminação e theosis, que tem sido passada adiante sucessivamente de Adão até o nosso próprio tempo.



https://skemmata.blogspot.com/2022/01/qual-e-o-nucleo-da-tradicao-ortodoxa-pe.html?m=1

Trecho retirado do livro Patristic Theology do Pe. John Romanides

Fonte: https://skemmata.blogspot.com/2022/01/qual-e-o-nucleo-da-tradicao-ortodoxa-pe.html

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Chê - O Porco assassino - parte 3


Continuação do artigo 

Che Guevara, o homem que não gostava de trabalhar, mas sentia prazer em matar

Por

Tiago Cordeiro

Mitos e lendas

De fato, quase toda a trajetória de Che é marcada por versões distorcidas da realidade. Não há, por exemplo, provas de que ele tenha de fato terminado a faculdade de medicina em Buenos Aires. “Ele concluiu os ensinos num tempo mais curto do que seria possível, e a Universidade de Buenos Aires alega que não tem mais os documentos da época”, escreve Fernando Díaz Villanueva em Vida y mentira de Ernesto “Che” Guevara. “Não havia tempo hábil entre o período em que ele retomou os estudos e as exigências da instituição de ensino para os estudantes de medicina, que incluíam um período obrigatório de prática”.


Talvez por isso, não conseguiu empregos como médico em diferentes países por onde passou em meados da década de 1950, incluindo Colômbia e Peru, num momento em que ele sonhava em chegar aos Estados Unidos para fazer dinheiro. Ele tampouco participou ativamente da defesa do governo de esquerda na Guatemala, como se diria posteriormente – na época, enquanto o presidente Jacobo Árbenz Guzmán renunciava e tinha início uma ditadura militar, ele se escondeu na embaixada argentina, enquanto sua noiva a economista peruana Hilda Gadea Acosta, que o sustentava, era presa. Aliás, depender financeiramente de Hilda não representava um constrangimento para o revolucionário, que poucas vezes na vida trabalhou em emprego fixo. Quando o fez, foi sempre por pouco tempo.


Mesmo como presidente do Banco Central e ministro da Indústria, em Cuba, Che era conhecido por aparecer perto do meio-dia, com roupas militares, lançar as botas sobre a mesa e acompanhar, entediado, os relatórios de seus funcionários, economistas que tentavam, sem sucesso, explicar ao líder os fundamentos mais básicos da rotina do trabalho. Guevara dizia que, caso os técnicos o desagradassem, poderia colocar camponeses para exercer a mesma função. A reforma agrária que ele liderou, assim como o esforço de industrialização do país, tiveram resultados catastróficos. Ele era mais eficiente em gerenciar assassinatos. E em escrever e ditar artigos e panfletos, se deixar fotografar e criar comendas e honrarias para si mesmo.


Campo de reeducação

Entediado, Che deixou Cuba em 1965, em busca de incentivar guerras e revoluções em outros países, especialmente Congo e Bolívia, onde seria preso e executado em 9 de outubro de 1967. Seu interesse maior estava em liderar homens armados. “Precisamos seguir o exemplo perene da guerrilha. O ódio é um elemento básico da luta. Devemos alimentar um ódio sem fim em relação ao inimigo, que nos impele a abandonar quaisquer limitações naturais para nos tornarmos máquinas de matar eficientes e violentas”, ele escreveu, em 1967.


A violência não abria espaço algum para a democracia. Em 1959, ele já tinha declarado: “Precisamos eliminar todos os jornais. Não se faz revolução com imprensa livre, porque os jornais são instrumentos da oligarquia”. Em 1961, fundara na península de Guanahacabibes, no extremo oeste de Cuba, o primeiro campo de trabalho para “reabilitação” para cidadãos considerados transgressores. Entre as punições previstas por Che estavam: beber, apresentar sinais de preguiça, tocar música alta, praticar uma religião ou demonstrar sinais de homossexualidade – o líder era obcecado em perseguir gays.


Ainda assim, a imagem que insiste em permanecer, inclusive nos cinemas, é a do motociclista aventureiro, do revolucionário romântico que se tornou um símbolo sexual e um exemplo de comprometimento com a humanidade. O fato de que ele se instalou em uma das maiores mansões de Havana, com piscina, salão de massagens e cais para iates, não costuma aparecer nos filmes. Nem o fato de que ele promoveu queimas de livros e ajudou a construir a polícia secreta cubana, aos moldes da Stasi da Alemanha Oriental.


Como resume Villanueva: “Che é um quase médico que se especializou em matar. Um comunista que queria fazer fortuna nos Estados Unidos. Um inimigo da propriedade privada que tomava mansões para si. Um defensor dos trabalhadores que quase nunca trabalhou. Um humanista desumano”.


(Continua com outros artitigos)


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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Chê - O Porco assassino - parte 2

Che Guevara, o homem que não gostava de trabalhar, mas sentia prazer em matar

Por

Tiago Cordeiro

Em 17 de fevereiro de 1958, em Sierra Maestra, o camponês Eutimio Guerra foi julgado e condenado à morte por Ernesto Che Guevara. Ele havia se unido à guerrilha que combatia o governo cubano, atuando como guia, mas teria colaborado com o exército do presidente Fulgencio Batista. As evidências contra ele eram tão fracas que ninguém queria executar a sentença. Guevara então pegou uma pistola calibre .32 e disparou contra a têmpora do cubano de 37 anos.

Este é o primeiro caso documentado de assassinato a sangue frio liderado por Che. Centenas de outros se seguiriam. Quando a revolução fora vitoriosa e os guerrilheiros se instalaram em Havana, em 1959, o argentino, que dizia ter abandonado a vida confortável de classe média para lutar pelos mais pobres, conduziu fuzilamentos diários ao longo de meses. No posto de juiz chefe do Tribunal Revolucionário, agiu dentro da fortaleza La Cabaña, uma antiga fortaleza espanhola transformada em prisão. O fosso em torno das instalações ficou lotado de cadáveres. As famílias autorizadas a visitar detentos eram conduzidas diante do paredão ensanguentado onde aconteciam os fuzilamentos.

Foi em La Cabaña que Jesús Carrera Zayas, de 27 anos, tombou em 11 de março de 1961. Deixou uma viúva de 20 anos e uma filha de seis meses. Zayas era comandante do exército rebelde. Após a vitória, passou a se opor a uma série de decisões de Che. Acabou detido, acusado de trair os companheiros. Seu assassinato foi conduzido por Fernando Flores Ibarra, mais conhecido pelo apelido “Charco de Sangre” (algo como “poça de sangue”). Uma escola enviou crianças para assistir à execução. Elas eram encorajadas a gritar: “Morte ao verme!”. “Foi Che quem determinou a morte de Zayas. Ele presenciou a execução”, relata, no livro Che Guevara's Forgotten Victims, María C. Werlau, diretora executiva do Free Society Project, uma organização que atua a partir de Washington para denunciar crimes contra a humanidade cometidos em Cuba.

O livro é referência quando se trata dos crimes de Che. Relata as histórias de vítimas como Angel Maria Clausell García, Demetrio Clausell González, Fidel Díaz Merquías, Cornelio Rojas Fernández e José Castaño Quevedo. “Ernesto Guevara é o maior símbolo do ‘revolucionário chique’, um ícone da cultura de massa. Ironicamente, a maior parte de seus devotos sabe muito pouco, ou mesmo nada, sobre ele”, argumenta Werlau em seu texto. “Na Sierra Maestra, por exemplo, ele se mostrou um verdadeiro serial killer”.


Em La Cabaña, ela prossegue, “durante os julgamentos, regras básicas da jurisprudência foram ignoradas e as acusações do promotor eram consideradas provas irrefutáveis. Cuba, que até então não tinha pena de morte, viu Che Guevara conduzir uma máquina de matar. Ele insistia com seus subordinados: ‘Não atrasem os procedimentos. Esta é uma revolução. Não usem métodos legais burgueses; a evidência é secundária’”.


Com relação aos assassinatos, o próprio Che admitiu, em 1964, diante da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas: “É claro que executamos! E continuaremos executando enquanto for necessário”. Em 1957, durante as atividades da guerrilha, escreveu para o pai: “Hoje descobri que realmente gosto de matar”.

CONTINUA....


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terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Psicologia da Evolução Possível ao Homem - Primeira Conferência

 


[Sobre definições e procedimentos fundamentais]

PRIMEIRA CONFERÊNCIA


[Notas: 

1. Como essa primeira conferência é um tanto extensa, ela será dividida em partes aqui no blog.

2. Todas as notas aqui são de Fra. J..] 


Vou falar do estudo da psicologia, mas devo preveni-los de que a psicologia a que me refiro é muito diferente do que possam conhecer por esse nome. Antes de tudo, devo dizer que nunca, no curso da história, a psicologia se encontrou em nível tão baixo. Perdeu todo contato com sua origem e todo o seu sentido, a tal ponto que hoje é difícil definir o termo “psicologia”, isto é, precisar o que é a psicologia e o que ela estuda. E isto, apesar de, no curso da história, jamais se ter visto tantas teorias psicológicas nem tantos livros sobre psicologia. A psicologia é, às vezes, chamada uma ciência nova. Nada mais falso. Ela é, talvez, a ciência mais antiga; infelizmente, em seus aspectos essenciais, é uma ciência esquecida. Como definir a psicologia? Para compreender isso, é preciso dar-se conta de que, exceto nos tempos modernos, a psicologia jamais existiu com seu próprio nome. Por vários motivos, sempre foi suspeita de apresentar tendências falsas e subversivas, de caráter religioso, político ou moral, e sempre teve que se ocultar sob diferentes disfarces. Durante milênios, a psicologia existiu com o nome de filosofia. Na Índia, todas as formas de Ioga, que são essencialmente psicologia, são descritas como um dos seis sistemas de filosofia. Os ensinamentos sufis, que são, antes de tudo, de ordem psicológica, são considerados em parte religiosos, em parte metafísicos. Na Europa, até pouco tampo atrás, nos últimos anos do século XIX, muitas obras de psicologia eram citadas como obras de “filosofia”. E embora quase todas as subdivisões da filosofia, tais como a lógica, a teoria do conhecimento, a ética e a estética, refiram-se ao trabalho do pensamento humano ou ao dos sentidos, considerava-se a psicologia inferior à filosofia e relacionada somente com os aspectos mais baixos ou mais triviais da natureza humana. Ao mesmo tempo que subsistia com o nome de filosofia, a psicologia permaneceu por mais tempo ainda associada a uma ou outra religião. Isso não significa que religião e psicologia jamais tenham sido uma única e mesma coisa, nem que a relação entre religião e psicologia tenha sido sempre reconhecida. Mas não há dúvida de que quase todas as religiões conhecidas – evidentemente não falo das pseudo-religiões modernas – desenvolveram esta ou aquela espécie de ensinamento psicológico, acompanhado, muitas vezes, de certa prática, de modo que freqüentemente o estudo da religião comportava, já por si mesmo, o da psicologia. Na literatura religiosa mais ortodoxa de diferentes países e diversas épocas encontram-se excelentes obras sobre psicologia. Por exemplo, esta compilação de autores que datam dos primeiros tempos do cristianismo e que se conhece pelo título geral de Philokalia, livros que ainda hoje estão em uso na igreja oriental, onde são reservados principalmente para a instrução dos monges. No tempo em que a psicologia estava ligada à filosofia e à religião, ela existia também sob a forma de Arte. Poesia, Tragédia, Escultura, Dança, a própria Arquitetura, eram meios de transmissão do conhecimento 5 psicológico. Certas catedrais góticas, por exemplo, eram essencialmente tratados de psicologia. Na antiguidade, antes que a filosofia, a religião e a arte adotassem as formas independentes sob as quais as conhecemos hoje, a psicologia encontrava sua expressão nos Mistérios, tais como os do Egito e da Grécia antiga. Mais tarde, desaparecidos os Mistérios, a psicologia sobreviveu a eles sob a forma de ensinamentos simbólicos, que ora se encontravam ligados à religião da época, ora não, tais como a Astrologia, a Alquimia, a Magia e, entre os mais modernos, a Maçonaria, o Ocultismo e a Teosofia. Aqui é indispensável observar que todos os sistemas e doutrinas psicológicos, tanto os que existiram ou existem abertamente, como aqueles que permaneceram ocultos ou disfarçados, podem dividir-se em duas categorias principais. 

 Primeira: as doutrinas que estudam o homem tal como o encontram ou tal como o supõem ou imaginam. A “psicologia científica” moderna, ou o que se conhece por esse nome, pertence a essa categoria. Segunda: as doutrinas que estudam o homem não do ponto de vista do que ele é ou parece ser, mas do ponto de vista do que ele pode chegar a ser, ou seja, do ponto de vista de sua evolução possível.*

[Nota: Lembre da visão  oriental. No ocidente as pessoas dão significados, no oriente admite-se que tudo tem significado próprio e as pessoas devem descobrir o verdadeiro; no ocidente lida-se apenas com o que todos podem ver, no oriente busca-se ampliar a visão.]

Estas últimas são, na realidade, as doutrinas originais ou, em todo caso, as mais antigas e as únicas que podem fazer compreender a origem esquecida da psicologia e sua significação. Quanto tivermos reconhecido como é importante, no estudo do homem, o ponto de vista de sua evolução possível, compreenderemos que a primeira resposta à pergunta: o que é psicologia? deveria ser: psicologia é o estudo dos princípios, leis e fatos relativos à evolução possível do homem. Nestas conferências, colocar-me-ei exclusivamente em tal ponto de vista. Nossa primeira pergunta será: o que significa a evolução do homem? E a segunda: ela exige condições especiais? Devo dizer, antes de tudo, que não poderíamos aceitar as concepções modernas sobre a origem do homem e sua evolução passada. Devemos dar nos conta de que nada sabemos sobre essa origem e de que carecemos de qualquer prova de uma evolução física ou mental do homem. Muito ao contrário, se tomarmos a humanidade histórica, isto é, a dos dez ou quinze mil últimos anos, podemos encontrar sinais inconfundíveis de um tipo superior de humanidade, cuja presença pode ser demonstrada por múltiplos testemunhos e monumentos da antiguidade, os quais os homens atuais seriam incapazes de recriar ou imitar. Quanto ao “homem pré-histórico”, ou a essas criaturas de aspecto semelhante ao homem e, todavia, tão diferentes dele, cujos ossos se encontram, às vezes, em depósitos do período glacial ou pré-glacial, podemos aceitar a idéia muito plausível de que essas ossadas pertenciam a um ser bem distinto do homem, desaparecido há muito tempo. Ao negar a evolução passada do homem, devemos recusar-lhe toda possibilidade de uma evolução mecânica futura, isto é, de uma evolução que se operaria por si só, segundo as leis da hereditariedade e da seleção, 6 sem esforços conscientes por parte do homem e sem que este tenha compreendido sequer a possibilidade de sua evolução. Nossa idéia fundamental é a de que o homem, tal qual o conhecemos, não é um ser acabado. A natureza o desenvolve até certo ponto e logo o abandona., deixando-o prosseguir em seu desenvolvimento por seus próprios esforços e sua própria iniciativa, ou viver e morrer tal como nasceu, ou, ainda, degenerar e perder a capacidade de desenvolvimento. No primeiro caso, a evolução do homem significará o desenvolvimento de certas qualidades e características interiores que habitualmente permanecem embrionárias e que não podem se desenvolver por si mesmas. A experiência e a observação mostram que esse desenvolvimento só é possível em condições bem definidas, que exige esforços especiais por parte do próprio homem, e uma ajuda suficiente por parte daqueles que, antes dele, empreenderam um trabalho da mesma ordem e chegaram a um certo grau de desenvolvimento ou, pelo menos, a um certo conhecimento dos métodos. Devemos partir da idéia de que sem esforços a evolução é impossível e de que, sem ajuda, é igualmente impossível. Depois disso, devemos compreender que, no caminho do desenvolvimento, o homem deve tornar-se um ser diferente e devemos estudar e conceber de que modo e em que direção deve o homem converter se num ser diferente, isto é, o que significa um ser diferente. Depois, devemos compreender que nem todos os homens podem desenvolver-se e tornar-se seres diferentes. A evolução é questão de esforços pessoais e, em relação à massa da humanidade, continua a ser exceção rara. Isso talvez possa parecer estranho, mas devemos dar-nos conta não só de que a evolução é rara, mas também que se torna cada vez mais rara. Isso, naturalmente, provoca numerosas perguntas: Que significa esta frase: “No caminho da evolução o homem deve tornar-se um ser diferente”? O que quer dizer “um ser diferente”? Quais são essas qualidades e características interiores que podem ser desenvolvidas no homem e como chegar até elas? Por que nem todos os homens podem desenvolver-se e tornar-se seres diferentes? Por que semelhante injustiça? Tentarei responder a essas perguntas, começando pela última. Por que nem todos os homens podem desenvolver-se e tornar-se seres diferentes? 

[Nota: os obstáculos  mentais, condicionamentos prejudiciais, pecados, desvios psicológicos... também são a causa do embasamento e distorção da visão clara.]

A resposta é muito simples. Porque não o desejam. Porque nada sabem a respeito e ainda que se lhes diga, não o compreenderão antes de uma longa preparação. A idéia essencial é que, para tornar-se um ser diferente, o homem deve desejá-lo intensamente e por muito tempo. Um desejo passageiro ou vago, nascido de uma insatisfação no que diz respeito às condições exteriores, não criará um impulso suficiente. 7 A evolução do homem depende de sua compreensão do que pode adquirir e do que deve dar para isso. Se o homem não o desejar, ou não o desejar com bastante intensidade e não fizer os esforços necessários, jamais se desenvolverá. Não há, pois, injustiça alguma nisso. Por que haveria de ter o homem o que não deseja? Se o homem fosse forçado a tornar-se um ser diferente, quando está satisfeito com o que é, aí sim, haveria injustiça.

[Nota: além disso existem outros obstáculos mentais, bloqueios, vícios, pecados e tudo mais que dificulta e tira a visão, impedindo não só de ver, mas tambem de buscar, de querer, de conseguir...]

Perguntemo-nos, agora, o que significa um ser diferente. Se examinarmos todos os dados que podemos reunir sobre essa questão, encontraremos sempre a afirmação de que, ao tornar-se um ser diferente, o homem adquire numerosas qualidades novas que antes não possuía. Essa afirmação é comum a todas as doutrinas que admitem a idéia de um crescimento interior do homem. Isso, porém, não basta. As descrições, ainda que as mais detalhadas, desses novos poderes não nos ajudarão de modo algum a compreender como aparecem nem de onde vêm. Falta um elo nas teorias geralmente admitidas, mesmo naquelas de que acabo de falar e que têm por base a idéia da possibilidade de uma evolução do homem.

A verdade é que antes de adquirir novas faculdades ou novos poderes, que não conhece e ainda não possui, o homem deve adquirir faculdades e poderes que tampouco possui, mas que se atribui, isto é, que crê conhecer e crê ser capaz de usar e de usar até com maestria. Esse é o “elo que falta”, e aí está o ponto de maior importância. No caminho da evolução, definido como um caminho baseado no esforço e na ajuda, o homem deve adquirir qualidades que crê já possuir, mas sobre as quais se ilude. Para compreender isso melhor, para saber que faculdades novas, que poderes insuspeitados pode o homem adquirir e quais são aqueles que imagina possuir, devemos partir da idéia geral que o homem tem de si mesmo. E encontramo-nos, de imediato, ante um fato importante. 

1 O homem não se conhece. 

Não conhece nem os próprios limites, nem suas possibilidades. Não conhece sequer até que ponto não se conhece. O homem inventou numerosas máquinas e sabe que, às vezes, são necessários anos de sérios estudos para poder servir-se de uma máquina complicada ou para controlá-la. Mas, quando se trata de si mesmo, ele esquece esse fato, ainda que ele próprio seja uma máquina muito mais complicada do que todas aquelas que inventou. Está cheio de idéias falsas sobre si mesmo. 

Antes de tudo, não se dá conta de que ele é realmente uma máquina.

[Nota: no sentido de ser mecânico, do agir autômato, condicionado, programado, no sentido de que age inconscientemente.] 

O que quer dizer: “O homem é uma máquina”? Quer dizer que não tem movimentos independentes, seja interior, seja exteriormente.

[Nota: significa que funciona mecanicamente; uma máquina bio-psíquica, pois essas duas partes, biológica e psíquica seguem suas leis mecânicas próprias]. 

É uma máquina posta em movimento por influências exteriores e choques exteriores. Todos os seus movimentos, ações, palavras, idéias, emoções, humores e pensamentos são provocados por influências exteriores. Por si mesmo, é tão-somente um autômato com certa provisão de 8 lembranças de experiências anteriores e certo potencial de energia em reserva.

2 Devemos compreender que o homem não pode fazer nada. 

O homem, porém não se apercebe disso e se atribui a capacidade de fazer. É o primeiro dos falsos poderes que se arroga. Isso deve ser compreendido com toda a clareza. O homem não pode fazer nada. Tudo o que crê fazer, na realidade, acontece. Isso acontece exatamente como “chove”, “neva” ou “venta”. Infelizmente, não há em nosso idioma verbos impessoais que possam ser aplicados aos atos humanos. Devemos, pois, continuar a dizer que o homem pensa, lê, escreve, ama, detesta, empreende guerras, combate, etc. Na realidade, tudo isso acontece. O homem não pode pensar, falar nem mover-se como quer [mas como é levado a querer]. É uma marionete, puxada para cá e para lá por fios invisíveis. Se compreender isso, poderá aprender mais coisas sobre si mesmo e talvez, então, tudo comece a mudar para ele. Mas, se não puder admitir nem compreender sua profunda mecanicidade, ou não quiser aceitá-la como um fato, não poderá aprender mais nada e as coisas não poderão mudar para ele. 

3 O homem é uma máquina, mas uma máquina muito singular. Pois, se as circunstâncias se prestarem a isso, e se bem dirigida, essa máquina poderá saber que é uma máquina. E se der-se conta disso plenamente, ela poderá encontrar os meios para deixar de ser máquina. 

[Nota: exteriormente ao verdadeiro "eu" existem muitos elementos, os falsos "eus", a carga genética, as pressões e condicionantes culturais, etc.]

4 Antes de tudo, o homem deve saber que ele não é um, mas múltiplo. 

Não tem um Eu único, permanente e imutável. Muda continuamente. Num momento é uma pessoa, no momento seguinte outra, pouco depois uma terceira e sempre assim, quase indefinidamente. O que cria no homem a ilusão da própria unidade ou da própria integralidade é, por um lado, a sensação que ele tem de seu corpo físico; por outro, seu nome, que em geral não muda e, por último, certo número de hábitos mecânicos implantados nele pela educação ou adquiridos por imitação. Tendo sempre as mesmas sensações físicas, ouvindo sempre ser chamado pelo mesmo nome e, encontrando em si hábitos e inclinações que sempre conheceu, imagina permanecer o mesmo. Na realidade não existe unidade no homem, não existe um centro único de comando, nem um “Eu”, ou ego, permanente. Eis aqui um esquema geral do homem: 



[Nota: além disso esses "eus" são mutáveis, impermanentes, uns se repetem e se imitam, outros não]

Cada pensamento, cada sentimento, cada sensação, cada desejo, cada “eu gosto” ou “eu não gosto”, é um “eu”. Esses “eus” não estão ligados entre si, nem coordenados de modo algum. Cada um deles depende das mudanças de circunstâncias exteriores e das mudanças de impressões. Tal “eu” desencadeia mecanicamente toda uma série de outros “eus”. Alguns andam sempre em companhia de outros. Não existe aí, porém, nem ordem nem sistema. Alguns grupos de “eus” têm vínculos naturais entre si. Falaremos desses grupos mais adiante. Por enquanto, devemos tratar de compreender que as ligações de certos grupos de “eus” constituem-se unicamente de associações acidentais, complementares imaginárias. recordações fortuitas ou semelhanças Cada um desses “eus” não representa, em dado momento, mais que uma ínfima parte de nossas funções, porém cada um deles crê representar o todo. Quando o homem diz “eu”, tem-se a impressão de que fala de si em sua totalidade, mas, na realidade, mesmo quando crê que isso é assim, é só um pensamento passageiro, um humor passageiro ou um desejo passageiro. Uma hora mais tarde, pode tê-lo esquecido completamente e expressar, com a mesma convicção, opinião, ponto de vista ou interesses opostos. O pior é que o homem não se lembra disso. Na maioria dos casos, dá crédito ao último “eu” que falou, enquanto este permanece, ou seja, enquanto um novo “eu” – às vezes sem conexão alguma com o precedente – ainda não tenha expressado com mais força sua opinião ou seu desejo. E agora, voltemos às outras perguntas. O que se deve entender por “desenvolvimento”? E o que quer dizer tornar-se um ser diferente? Em outras palavras, qual é a espécie de mudança possível ao homem? Quando e como se inicia essa mudança? Já dissemos que a mudança deve começar pela aquisição desses poderes e capacidades que o homem se atribui, mas que, na realidade, não possui. Isso significa que, antes de adquirir qualquer poder novo ou qualquer capacidade nova, o homem deve desenvolver nele as qualidades que crê possuir e sobre as quais ele cria para si as maiores ilusões. O desenvolvimento não pode se basear na mentira a si mesmo, nem no enganar-se a si mesmo. O homem deve saber o que é seu e o que não é seu. Deve dar-se conta de que não possui as qualidades que se atribui: 

1. a capacidade de fazer, 2. a individualidade ou a unidade, o Ego permanente, bem como 3. a consciência e a 

4. vontade. 

E é necessário que o homem saiba disso, pois enquanto imaginar possuir essas qualidades, não fará os esforços necessários para adquiri-las, da mesma maneira que um homem não comprará objetos preciosos, nem estará disposto a pagar um preço elevado por eles, se acreditar que já os possui. A mais importante e a mais enganosa dessas qualidades é a consciência. E a mudança no homem começa por uma mudança em sua maneira de compreender a significação da consciência e continua com a aquisição gradual de um domínio da consciência. 10 







segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

A Grande Controvérsia Iconoclasta

 


5. Nicéia: o VII Concílio Ecumênico

Os santos ícones

https://ecclesia.com.br/biblioteca/igreja_ortodoxa/a_igreja_ortodoxa_historia5.html


As disputas referentes à Pessoa do Cristo não cessaram com o Concílio de 681, mas foram expandidas de forma diferente nos séculos oitavo e nono: a luta centrada nos Santos Ícones, as pinturas de Cristo, da Mãe de Deus, e dos Santos, que eram mantidas e veneradas nas igrejas e nas casas. Os iconoclastas ou destruidores de ícones, desconfiados de qualquer arte religiosa que representasse seres humanos ou Deus, exigiam a destruição dos ícones; o partido oposto, os defensores ou veneradores de ícones, defendiam vigorosamente o lugar dos ícones na vida da Igreja. A luta não foi apenas um conflito entre duas concepções de arte cristã. Questões mais profundas estavam envolvidas aí, o caráter da natureza humana de Cristo, a atitude cristã em relação ao assunto, o significado verdadeiro da redenção cristã.

Os iconoclastas podem ter sido influenciados por conceitos dos judeus e islâmicos, e é significativo que três anos antes da primeira erupção do iconoclasmo no Império Bizantino, o califa maometano Yezid ordenou a remoção de todos os ícones de seus domínios, Mas o iconoclasmo não foi simplesmente importado de fora; mesmo no cristianismo sempre existiram posições "puritanas”, que condenavam os ícones porque parecia haver nas imagens uma latente idolatria. Quando os imperadores isaurianos atacaram os ícones, eles encontravam bastante apoio dentro da Igreja. Exemplo típico dessa posição puritana é a atitude de São Epifânio de Salamis (315-403), que ao encontrar numa igreja do interior da Palestina uma cortina de pano com figura de Cristo, rasgou-a com indignação. Esta atitude foi sempre violenta na Ásia Menor, e alguns afirmam que o movimento iconoclasta foi um protesto asiático contra a tradição grega. Mas há dificuldades em tal ponto de vista; a controvérsia foi realmente uma divisão dentro da tradição grega.

A controvérsia iconoclasta que durou por volta de 120 anos se dá em duas fases. O primeiro período iniciou-se em 726 quando Leão III começou seu ataque aos ícones, e terminou em 780 quando a Imperatriz Irene suspendeu a perseguição. A posição dos defensores foi mantida pelo sétimo e último Concílio Ecumênico (787), que se reuniu (como o primeiro) em Nicéia. Ícones, o concílio proclamou, devem ser mantidos nas Igrejas e honrados com a mesma relativa veneração como outros símbolos materiais, como "a cruz preciosa e vivificante" e o Livro dos Evangelhos. Um novo ataque aos ícones, começou, com Leão V, o Armênio, em 815, e continuou até 843 quando os ícones foram novamente reintegrados, desta vez permanentemente por outra Imperatriz, Teodora. A vitória final das Santas Imagens em 843 é conhecida como "Triunfo da Ortodoxia”, e é comemorada com o ofício especial celebrado no "Domingo da Ortodoxia," o primeiro domingo da Grande Quaresma. Durante este ofício a fé verdadeira - Ortodoxia - é proclamada, seus defensores são honrados e anátemas são declarados a todos os que atacam os santos ícones ou os Concílios Ecumênicos:A todos aqueles que rejeitam os Concílios dos Santos Padres e suas tradições as quais estão de acordo com a revelação divina as quais a Igreja Católica Ortodoxa piamente mantém, ANÁTEMA! ANÁTEMA! ANÁTEMA!

O maior defensor dos ícones no primeiro período foi São João Damasceno (675?-749), no segundo São Teodoro Estudita (759-826). João pode trabalhar mais livremente porque ele trabalhava em território islâmico, fora do alcance do governo bizantino. Não foi a última vez que o Islam agiu, sem intenção, como protetor da ortodoxia. Uma das características mais distintas da ortodoxia é a posição que ela atribui aos ícones. Uma igreja ortodoxa de hoje é cheia deles: dividindo o santuário da nave existe uma parede, a iconostase totalmente coberta de ícones, enquanto outros ícones são colocados em sacrários em volta da igreja; e as paredes são cobertas por ícones às vezes em afresco ou mosaico. Um ortodoxo prostra-se em frente desses ícones, beija-os e acende velas na frente deles; eles são incensados pelo padre e levados em procissão. O que significam estes gestos e as atitudes? O que significam os ícones e porque João Damasceno e os outros os consideravam tão importantes?


Devemos considerar primeiro a carga de idolatria que os iconoclastas lançaram contra os defensores dos ícones; e então o valor positivo dos ícones como meio de instrução; e finalmente sua importância doutrinal. A questão da idolatria. Quando um ortodoxo beija um ícone ou se prostra diante dele, ele não está cometendo idolatria. O ícone não é um ídolo, mas um símbolo; a veneração feita às imagens é direta, não dirigida à pedra, madeira e tinta, mas dirigida à pessoa retratada. Isto foi salientado por Leôncio de Nápoles (morto cerca de 650) algum tempo antes da controvérsia iconoclasta: Não nos prostramos diante da natureza da madeira, mas reverenciamos e nos prostramos diante d'Ele que foi crucificado na Cruz... Quando dois eixos da Cruz são postos juntos adoro a figura do Cristo que foi crucificado na Cruz, mas se os dois eixos são separados, jogo-os fora e os queimo. Pelo fato dos ícones serem apenas símbolos, os ortodoxos não os adoram, mas os reverenciam e veneram. João Damasceno distinguiu cuidadosamente entre a honra relativa ou veneração dedicada aos símbolos materiais e a adoração devida somente a Deus.

Os ícones como parte dos ensinamentos da Igreja


Os ícones, dizia Leôncio, são "livros abertos a nos lembrarem de Deus": um dos meios empregados pela Igreja para ensinar a fé. Aquele que se ressente de um aprendizado ou de tempo para estudar obras de teologia, basta entrar na igreja e ver desdobrados diante de si nas paredes os mistérios da religião Cristã. Se um pagão te pedir para lhe mostrar sua fé, diziam os defensores, leve-o a uma igreja e ponha-o diante dos ícones.


O significado doutrinal dos ícones

Chegamos agora ao ponto crucial da disputa iconoclasta. Consideremos que os ícones não são idolatrados; que são úteis para a instrução; mas são eles além de permitidos necessários também? É essencial ter ícones? Os defensores assim o afirmavam, pois os ícones salvaguardam uma doutrina total e adequada da Encarnação. Os iconoclastas e os defensores de ícones concordavam que Deus não pode ser representado em sua natureza eterna: "ninguém jamais viu a Deus" (João l:18). Mas, os defensores continuavam: a Encarnação tornou possível uma arte religiosa representacional: Deus pode ser retratado porque Ele tornou-se homem e se fez carne. Imagens materiais, retrucava João Damasceno, podem ser feitas d'Ele que tomou um corpo material:

«O antigo Deus, o incorpóreo, o infinito nunca foi retratado. Mas agora que Deus nasceu na carne e viveu entre os homens, faço uma imagem do Deus que pode ser visto. Não adoro a matéria, mas o Criador da matéria, que por minha causa tornou-se material e condescendeu habitar na matéria, que através da matéria realizou minha salvação. Não cessarei de venerar a matéria através da qual minha salvação foi realizada».

Os iconoclastas ao repudiarem todas as representações de Deus, falharam em considerar a Encarnação na sua essência. Caíram, como muitos puritanos já haviam feito, numa forma de dualismo. Considerando a matéria como algo sujo, queriam a religião livre de todo contato com o que é material; uma vez que achavam que o que é espiritual deve ser não-material. Contudo isto significa trair a Encarnação, não permitindo espaço para a humanidade de Cristo, para seu corpo; significa esquecer que o corpo humano, tal qual sua alma, precisa ser salvo e transfigurado. A controvérsia iconoclasta é, pois, estritamente ligada às disputas iniciais a respeito da pessoa do Cristo. Não foi apenas uma controvérsia sobre arte religiosa, mas sobre a Encarnação e a salvação do homem.

Deus tomou um corpo material, provando desta forma que a matéria pode ser redimida: "O Verbo ao se tornar carne, deificou a carne”, disse João Damasceno. Deus "deificou" a matéria, tornando-a "portadora do espírito"; e se a carne tornou-se um veículo do Espírito, então, pode ser pintada ainda que de maneira diferente. A doutrina ortodoxa dos ícones é ligada a doutrina ortodoxa de que toda criação de Deus, material e espiritual, será redimida e glorificada.

Nas palavras de Nicholas Zernov (1898-1980) - o que ele diz dos russos é verdadeiro para todos os ortodoxos:

«Os ícones eram para os russos não apenas pinturas. Eram manifestações dinâmicas da força espiritual do homem de redimir a criação por meio de beleza e arte. As cores e linhas [dos ícones] não pretendiam imitar a natureza; os artistas intensionavam demonstrar que homens, animais e plantas, e todo o cosmos, podiam ser salvos de seu atual estado de degradação e restituídos a sua verdadeira "imagem”. Os ícones eram uma promessa da vitória vindoura da criação redimida sobre a decaída... A perfeição artística de um ícone não era apenas um reflexo da glória celestial, era um exemplo concreto de matéria restituída à sua beleza e harmonia original, e servindo como um veículo do Espírito. Os ícones eram parte do cosmos transfigurado».

Como João Damasceno definiu: «O ícone é a canção do triunfo, é uma revelação, e um monumento permanente à vitória dos santos e à desgraça dos demônios.»

A conclusão da disputa iconoclasta, o encontro do Sétimo Concílio Ecumênico, o Triunfo da Ortodoxia em 843 - marcam o final do segundo período na história ortodoxa, o período dos Sete Concílios. Estes Sete Concílios são de imensa importância para a Ortodoxia. Para os membros da Igreja Ortodoxa, seu interesse não é meramente histórico, mas contemporâneo; eles são considerados não apenas pelos estudiosos e pelo clero, mas por todos os fiéis. "Mesmo camponeses simples”, disse Dean Stanley, "para quem, na sua correspondente classe social na Espanha ou na Itália os nomes de Constância ou Trento seriam provavelmente desconhecidos, estão bastante cônscios que sua igreja repousa sobre a base dos Sete Concílios, e tem esperança que viverão ainda para ver um oitavo Concílio Ecumênico, no qual os mal entendidos do tempo serão esclarecidos." Os ortodoxos freqüentemente se denominam "a Igreja dos Sete Concílios." Isto não significa que a igreja Ortodoxa tenha cessado de pensar criativamente deste 787. Mas vêem no período dos Concílios a grande era da teologia; e logo após a Bíblia, são os Sete Concílios que a Igreja Ortodoxa considera como sua referência e guia ao buscar soluções para os novos problemas que surgem a cada geração.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Psicologia da Evolução Possível ao Homem

P. D. Ouspensky


INTRODUÇÃO 

Durante anos recebi numerosas cartas de meus leitores. Todos perguntavam-me o que tinha feito depois de escrever meus livros, publicados em inglês em 1920 e 1931, mas redigidos desde 1910 e 1912. Nunca podia responder a essas cartas. Só para tentar fazê-lo, necessitaria de livros inteiros. Porém, quando meus correspondentes moravam em Londres, onde me instalara em 1921, organizava, em sua intenção, ciclos de conferências, nas quais tentava responder às suas perguntas. Explicava-lhes o que descobrira depois de haver escrito meus dois livros e em que direção se engajara o meu trabalho. Em 1934 escrevi cinco conferências preliminares que davam uma idéia geral do objeto de meus estudos, bem como das linhas de trabalho que seguia comigo determinado número de pessoas. Reunir tudo isso numa única conferência e mesmo em duas ou três era totalmente impossível; por isso, advertia sempre ser inútil assistir a uma ou duas conferências, mas serem necessárias no mínimo cinco, ou talvez dez, para se ter uma idéia da orientação do meu trabalho. Essas conferências continuaram desde então e, durante todo esse período, corrigi-as e reescrevi-as várias vezes. No conjunto, achei essa organização geral satisfatória. Liam-se cinco conferências, estando eu presente, ou então ausente. Os ouvintes podiam fazer perguntas e, se tentavam seguir os conselhos e indicações que lhes eram dados – e que diziam respeito sobretudo à observação de si e a certa disciplina interior –, adquiriam rapidamente, pela prática, uma compreensão mais do que suficiente do que eu fazia. É claro que sempre reconheci não serem cinco conferências o bastante e, nas conversações seguintes, retomava os dados preliminares para desenvolvê-los, tentando fazer ver aos ouvintes sua própria posição diante do novo conhecimento. Tornou-se evidente para mim que, para muitos dentre eles, a principal dificuldade era dar-se conta de que tinham realmente ouvido coisas novas, quer dizer, coisas que nunca tinham ouvido antes. Sem confessá-lo a si mesmos, tentavam sempre negar em pensamento a novidade do que tinham ouvido e esforçavam-se, qualquer que fosse o assunto, em retraduzir tudo em sua linguagem habitual. Naturalmente, não podia levar isso em conta. Sei que não é fácil reconhecer que estamos ouvindo coisas novas. Estamos de tal maneira habituados às velhas cantigas, aos velhos refrões, que há muito deixamos de esperar, deixamos até de crer que possa existir alguma coisa nova. E, quando ouvimos formular idéias novas, tomamo-las por velhas idéias ou pensamos que podem ser explicadas ou interpretadas com o auxílio de velhas idéias. De fato, é tarefa árdua compreender a possibilidade e a necessidade de idéias realmente novas; isso requer tempo e revisão de todos os valores correntes. Não posso assegurar que, desde o início, encontrarão aqui idéias novas, isto é, idéias das quais nunca tenham ouvido falar. Mas, se tiverem 3 paciência, não tardarão a notá-las, e desejo-lhes, então, que não as deixem escapar e cuidem para não interpretá-las da velha maneira. Nova Iorque, 1945.



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O círculo vicioso da "filosofia científica"


Leszek Kolakowski 




Os darwinistas interpretavam a totalidade da civilização e toda atividade intelectual como uma arma na luta da raça humana pela sobrevivência. 


Essa posição facilitava, ainda que não tornasse forçosa, uma atitude pragmática para com o conhecimento: 


visto que a cognição e os seus resultados preservados e codificados na forma de ciência não eram "nada além" da resposta da espécie ao seu ambiente natural, a noção de verdade, assim como a de bondade ou a de beleza, deixava de ter qualquer significado transcendental: 


as coisas eram valiosas no sentido cognitivo, estético ou moral na medida em que contribuíssem para prolongar e fortalecer a vida da espécie. 


Do mesmo modo, nenhuma opinião científica incluindo a própria teoria da evolução, poderia ser considerada "verdadeira" no sentido cotidiano do termo: 


as opiniões eram simplesmente órgãos da vida, o que em si mesmo não é nem bom nem mau, nem verdadeiro nem falso, mas algo que simplesmente aparece ao longo do tempo. 


Contudo, esse argumento se baseava numa teoria biológica que se apresentava como verdadeira no sentido transcendental do uso cotidiano. 


Toda a estrutura da "filosofia científica" [então] revelava-se como um círculo vicioso.









terça-feira, 30 de janeiro de 2024

O Que é a Salvação na Ortodoxia

 

O Que É a Salvação de acordo com a Santa Igreja Ortodoxa? – Fabio L. Leite

O que é, afinal, a salvação de acordo com a Santa Igreja Ortodoxa?

A palavra pode significar 3 coisas:

1. Salvação da morte — esta é universal e é dela que se fala quando se diz que Cristo já salvou a todos. Todos seremos ressuscitados. Cristo nos “condenou” à imortalidade corporal. A morte não passa de um intervalo não natural e já sem meios para nos manter mortos. Cristo pisou a morte com Sua morte. Cristo verdadeiramente ressuscitou. É a salvação dada pela Morte e Ressurreição de Cristo. É a vitória  conquistada.

2. Participação hoje no Corpo de Cristo — esta é particular como todo corpo é. Cristo andou em Cafarnaum e não em Beijing ou em Pindorama, e portanto Seu Corpo estava ali e não acolá, apesar de continuar Onipresente em toda a Criação, ouvindo com a mesma clareza e ao mesmo tempo a voz de Zaqueu ao Seu lado e a voz do aborígene na Austrália. Se você quisesse estar na Presença Dele tinha que andar até Ele e até dar uma volta na multidão para chegar a Ele. A Igreja Católica Ortodoxa, sendo o próprio Corpo de Cristo, possui limites espaciais, corporais-sacramentais, de ethos, de práticas, canônicos e espirituais, sem prejuízo da Presença Universal de Deus dentro e fora de Seu Corpo, o que inclui cura, consolação e vivificamento, além da evidente manutenção da existência. A participação no Corpo de Cristo, participação dinâmica e sinergética, é o sentido no qual podemos dizer que “estamos sendo salvos em Cristo” em nosso atual vir-a-ser. É a salvação dada pelo Pentecostes, pelo envio do Espírito Santo. É a vitória na luta constante, do cair e levantar-se, da antecipação do mundo que há de vir no hoje.

3. Destinação Eterna Pós-Juízo Final — Sendo todos ressuscitados, o nosso antigo “vir-a-ser” terá se tornado afinal um “é” eterno. Cristo não irá considerar unicamente as afiliações confessionais das pessoas, mas irá verificar se há entre Ele e essa pessoa uma relação de amor, se essa pessoa ao menos pela lei escrita em seu coração, tornou-se mais semelhante a Ele, esteja a pessoa corporalmente ligada a Ele (ou seja, se é membro da Igreja Ortodoxa) ou não, vomitando de Si mesmo aqueles que foram a Ele ligados por meras circunstâncias culturais e rituais e ligando a Si aqueles que em Sua onisciência e misericórdia sabe que O amam ainda que não conhecessem o Seu nome, ou desobedientes aos dogmas hereges, amaram-no como Ele é e não como seus heresiarcas O descreveram. Esse ligar e desligar final, esse último julgamento, definirá o destino eterno de cada um. Nesse sentido é que podemos dizer que “tenho esperança de vir a ser salvo”. É a vitória final, da coroa dos que poderão ser chamados de Filhos de Deus, de ter passado pelo Juízo Final, de reencontrar nosso bondoso pai e vivermos eternamente com Ele de glória em glória.

Eu sei quem faz e quem não faz parte da Igreja hoje. Não sei quem será ligado ou desligado dela no dia do Grande Julgamento.

https://cristianismoortodoxo.wordpress.com/2021/02/11/o-que-e-a-salvacao-de-acordo-com-a-santa-igreja-ortodoxa-fabio-l-leite/

sábado, 20 de janeiro de 2024

As Razões Ocultas por trás da Guerra de Putin


 “Nunca pensei que um culto pós-moderno idiota se tornaria a corrente ideológica dominante em 2022"




https://www.estudosnacionais.com/39937/nunca-pensei-que-um-culto-pos-moderno-idiota-se-tornaria-a-corrente-ideologica-dominante-em-2022/