Discutir a existência e características de Deus não é sempre perda de tempo como parece a princípio mostrar o texto. Porém para muitos poder ser, e até perigoso.
Mas o que algumas discussões que tenho visto, tanto na convivência comum quanto na acadêmica é que Deus se revela mais perfeitamente aos humildes e ignorantes do que aos sábios e arrogantes. Não porque a ignorância seja melhor que a sabedoria, não! Mas porque a arrogância destroi a perspicácia e o saber na mente de muitos, ao invés de mostrar o quanto ainda ignora e torná-lo humilde, é tomando como uma riqueza pessoal que o coloca acima dos outros e acima até das limitações do próprio saber.
O conhecimento de Deus é um tipo de conhecimento que deixa isso bem claro, pois o que julga conhecer a Deus por instrução, erudição, estudo, muitas vezes não tem sequer uma experiência com Deus, que se dirá de uma vivência ou conhecimento direto?!
Deus...
Imperante Arcádio, Logômacos, teologal de Constantinopla, empreendeu uma viagem à
Cítia, e deteve-se ao pé do Cáucaso, nos férteis plainos de Zefirim, nos términos da
Cólchida. Estava o bom velho Dondindaque em sua ampla sala baixa, entre seu grande
aprisco e a vasta granja. Estava ajoelhado em companhia da mulher, dos cinco filhos e cinco
filhas, seus pais e seus criados, e cantavam os louvores a Deus após ligeiro repasto.
— Que fazes, idólatra? – perguntou-lhe Logômacos.
— Não sou idólatra – retorquiu Dondindaque.
— Claro que o és, pois és cita e não grego. Que cantavas em tua bárbara geringonça da
Cítia I
— Todas as línguas soam da mesma forma aos ouvidos de Deus. Cantávamo-lhe os
louvores.
— Eis uma coisa extraordinária! Uma família cita que ora a Deus sem ter sido instruída
por nós!
Seguiu-se um diálogo entre o grego Logômacos e o cita Dondindaque, pois o teologal
sabia um pouco de cita e o outro um pouco de grego. Encontrou-se esse diálogo num
manuscrito conservado na biblioteca de Constantinopla
Logômacos
Vejamos se sabes teu catecismo. Por que oras a Deus?
Dondindaque
Justo é que adoremos o Ser Supremo que tudo nos deu.
Logômacos
Oh! Para um bárbaro não está mal. E que lhe pedes?
Dondindaque
Agradeço-lhe os bens de que gozo e os males com que lhe apraz provar-me. Abstenhome porém de pedir-lhe seja o que for. Melhor que nós sabe ele o que nos falta. Demais
poderia dar-se que quando eu pedisse bom tempo meu vizinho pedisse chuva.
Logômacos
Ah! Logo vi que ia dizer alguma asneira. Passemos a plano mais elevado. Bárbaro, quem
te disse que Deus existe?
Dondindaque
Toda a natureza.
Logômacos
Não basta. Que idéia tens do Ser Supremo?
Dondindaque
Que é o meu criador, meu soberano, que me recompensará quando praticar o bem e me
castigará quando cometer o mal.
Logômacos
Que frioleiras! Vamos ao essencial – Deus é infinito secundum quid ou segundo a
essência?
Dondindaque
Não vos entendo.
Logômacos
Sujeito tapado! Deus está algures ou ao mesmo tempo em tudo e fora de tudo?
Dondindaque
Não sei... Como quiserdes.
Logômacos
Ignorante! Pode Deus demover o acontecido? Pode fazer que um bastão não tenha duas
pontes? Como verá o futuro: como futuro ou como presente? Como faz para tirar o ser do
nada e para aniquilar o ser?
Dondindaque
Tais coisas nunca me passaram pela cabeça.
Logômacos
Que sujeito bronco! Bem, vejo que preciso baixar a trave. Dize-me, meu amigo, achas
que a matéria possa ser eterna?
Dondindaque
Que me importa que seja eterna ou não? Eu, posso afirmar que não o sou. De qualquer
forma, Deus é o meu senhor. Deu-me a noção de justiça, devo segui-la. Não quero ser
filósofo, quero ser homem.
Logômacos
São o diabo, essas cabeças duras! Vamos aos poucos: Que é Deus?
Dondindaque
Meu soberano, meu juiz, meu pai.
Logômacos
Não é isso o que pergunto. Qual é sua natureza?
Dondindaque
Ser poderoso e bom.
Logômacos
Mas é corporal ou espiritual?
Dondindaque
Como quereis que o saiba?
Logômacos
Arre! Não sabes o que é um espírito?
Dondindaque
Nem imagino: de que me serviria isso? Tornar-me-ia acaso mais justo? Seria melhor
marido, melhor pai, melhor amo, melhor cidadão?
Logômacos
É absolutamente necessário ensinar-te o que seja espírito. Escuta: é, é, é... Bem, fica para
outra ocasião.
Dondindaque
Muito receio que me fôsseis dizer o que ele não é. Permiti-me fazer-vos a meu turno uma
pergunta. Vi há muito um de vossos templos: por que motivo pintais Deus com uma longa
barba?
Logômacos
É questão muito complexa, que requer instruções preliminares.
Dondindaque
Antes de receber vossas instruções, vou contar-vos o que me aconteceu certo dia. Eu
acabava de fazer construir uma privada no fim de meu jardim, quando ouvi uma toupeira
conversando com um besouro:
— Eis uma bela fábrica! – dizia a toupeira. – Deve ser uma toupeira bem poderosa o
autor dessa obra.
— Gracejais – respondeu o besouro. – Bem sabeis que foi um besouro, um besouro
genial o arquiteto desse edifício.
Desde então resolvi nunca discutir.
Dicionário Filosófico - Voltaire
domingo, 14 de junho de 2020
sábado, 23 de maio de 2020
Tragédia prevista, algumas providências tomadas, o que falta agora?
Há oito anos, governo alemão previu cenário semelhante ao da covid-19
Relatório de 2012 sobre fictícia pandemia de coronavírus publicado pelo Parlamento alemão chama atenção da opinião pública. Documento analisou efeitos de vírus surgido em mercado na Ásia e transmitido por gotículas.Publicado em janeiro de 2013 pelo Bundestag (Parlamento alemão), o "Relatório sobre Análise de Risco na Defesa Civil 2012" está sendo motivo de burburinho nas redes sociais da Alemanha, gerando até teorias da conspiração de que o governo em Berlim já sabia há muito da atual pandemia do coronavírus Sars-Cov-2.

No cenário fictício de 2012, taxa de mortalidade do coronavírus era muito maior que da atual pandemia
O relatório engloba duas análises de risco para dois cenários hipotéticos: "Inundação extrema provocada pelo derretimento de neve das montanhas baixas" e "Pandemia causada pelo vírus Modi-Sars". As análises de risco servem para dar uma visão geral sobre quais eventos podem ocorrer e com que probabilidade, como também sobre a dimensão dos danos esperados no caso dos cenários fictícios.
Na análise de risco "Pandemia causada pelo vírus Modi-Sars", o Instituto Robert Koch (RKI), agência do governo alemão responsável pelo controle e prevenção de doenças, e outras autoridades desenvolveram uma análise teórica baseada em surtos anteriores.
Como o Sars-Cov-2, causador da doença respiratória covid-19, o hipotético vírus Modi-Sars é um coronavírus. Segundo o relatório, a justificativa para "a escolha de um vírus do tipo Sars ocorreu, entre outros, no contexto de que a variante de 2003 levou vários sistemas de saúde de rapidamente a seus limites".
Em 2002/2003, a disseminação da doença respiratória Sars fez com que mais de 8 mil pessoas adoecessem e quase 800 morressem em 25 países. Partindo desse fato, o relatório do governo alemão previu cenários fictícios, cuja semelhança com atual pandemia está chamando atenção da opinião pública do país.
No relatório, os pesquisadores do Instituto Robert Koch imaginaram um cenário em que um coronavírus se espalha de um animal silvestre para o homem, num mercado no Sudeste Asiático, disseminando-se então para o resto do mundo.
O Modi-Sars é transmitido através de gotículas, podendo sobreviver alguns dias sobre superfícies. Os doentes apresentam tosse seca e febre. Um infectado pode transmitir o vírus para cerca de três outras pessoas. E, a princípio, não existem medicamentos ou vacinas contra o patógeno.
Na Alemanha, esse fictício vírus teria chegado por meio de várias pessoas, escreve a análise de risco, entre elas, um estudante universitário do sul do país que havia feito um semestre de intercâmbio na Ásia e um convidado de uma feira numa metrópole no norte da Alemanha.
No pico da primeira onda da doença, após cerca de 300 dias, por volta de 6 milhões de pessoas teriam sido infectadas pelo Modi-Sars no país, supõe o relatório, apontando que "cerca de 10% dos doentes morrem".
A análise também prevê que, no caso de nenhuma medida de proteção civil ser tomada, o número de infectados deva aumentar para 19 milhões de pessoas na primeira onda da doença, com cada uma infectando outras três, em vez de 1,6 indivíduo numa situação de contramedidas oficiais no setor de saúde, que incluem "isolamento e quarentena", escreve o relatório.
A atual pandemia, no entanto, difere significativamente do cenário de 2012. Na atual crise do coronavírus, muito menos pessoas morrem dos que os supostos 10% do surto do fictício Modi-Sars. Embora a taxa de mortalidade ainda não seja clara, supõe-se que menos de 1% das pessoas infectadas por Sars-Cov-2 morram em decorrência da covid-19.
No cenário hipotético do Instituto Robert Koch de 2012, uma vacina só é encontrada três anos depois da eclosão da pandemia, ou seja, bem depois do que o previsto para o atual coronavírus: especialistas calculam que um agente imunizador contra o Sars-Cov-2 poderá estar disponível já no meio ou fim do próximo ano.
Independentemente da análise de risco hipotética de 2012, surge a questão em retrospecto se as autoridades alemãs subestimaram por muito tempo o novo coronavírus, diz reportagem da revista alemã Der Spiegel publicada nesta terça-feira (07/04). "Porque, o mais tardar desde o surto de Sars, em 2002, e na verdade ainda mais cedo devido ao vírus HIV, conhece-se o potencial de patógenos que podem passar de animais para humanos."
CA/dpa/ots
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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Fonte: https://www.terra.com.br/noticias/ha-oito-anos-governo-alemao-previu-cenario-semelhante-ao-da-covid-19,016e8369f84ac4ea4110bf2f6cf73517coqoko67.html
segunda-feira, 11 de maio de 2020
O conservadorismo é mesmo o que você está pensando que ele é?
“O conservador pensa na política como um meio de preservar a ordem, a justiça e a liberdade. O ideólogo, pelo contrário, pensa na política como um instrumento revolucionário para transformar a sociedade e até mesmo transformar a natureza humana. Na sua marcha em direção à Utopia, o ideólogo é impiedoso.” Russell Kirk (1918 – 1994), teórico político americano
CONSERVADORISMO POLÍTICO
O conservadorismo é um pensamento político que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais – como a família, a comunidade local e a religião -, além dos usos, costumes, tradições e convenções. O conservadorismo enfatiza a continuidade e a estabilidade das instituições, opondo-se a qualquer tipo de movimentos revolucionários e de políticas progressistas. Mas é importante entender que o conservadorismo não é um conjunto de ideias políticas definidas, pois os valores conservadores variam enormemente de acordo com os lugares e com o tempo. Por exemplo, conservadores chineses, indianos, russos, africanos, latino-americanos e europeus podem defender conjuntos de ideias e valores bastante diferentes, mas que estão sempre de acordo as tradições de suas respectivas sociedades.
CONSERVADORISMO X POSTURA CONSERVADORA: CONFUSÃO SEMÂNTICA
É importante não confundir o pensamento político conservador com a atitude em relação às mudanças políticas chamada de conservadora (junto com outras como reacionários, progressistas e radicais). O conservador neste último sentido busca manter a situação política do jeito que está, independentemente do conjunto de ideias a que se aplica. É um termo normalmente aplicável a qualquer pensamento político que esteja no poder. Um socialista um liberal que esteja governando pode ser conservador nesse sentido, pois deseja manter-se no poder e almeja a continuação de suas políticas. Um revolucionário torna-se um conservador depois do sucesso de sua revolução.
O conservadorismo que será abordado aqui é aquele que existe no Brasil e tem diversas semelhanças com o conservadorismo ocidental existente na América Latina, na América do Norte e na Europa, pois todos eles têm como base a doutrina cristã e a adoção, em maior ou menor grau, das ideias políticas liberais. Mas é importante entender que mesmo o conservadorismo ocidental possui muitas variantes e é difícil identificar um posicionamento político específico. Partidos políticos conservadores podem até ter opiniões divergentes entre si sobre algumas questões.
VALORES CONSERVADORES
De todo modo, é possível determinar algumas características fundamentais do pensamento conservador ocidental. O conservadorismo tem como seus principais valores a liberdade e a ordem, especialmente a liberdade política e econômica e a ordem social e moral. O conservador acredita que há uma ordem moral duradoura e transcendente, que no caso do conservadorismo ocidental é baseada na doutrina cristã e tem na religião a sua base. O conservadorismo valoriza a diversidade típica do individualismo e rejeita a igualdade como um objetivo da política. O conservador, assim como o libertário, entende que a igualdade político-jurídica é suficiente para garantir a igualdade necessária entre as pessoas. Qualquer desigualdade material ou de resultado é consequência inevitável das diferenças naturais entre os indivíduos, de seus esforços e de suas decisões.
Na esfera política, o conservador procura preservar as instituições políticas e sociais que se desenvolveram ao longo do tempo e são fruto dos usos, costumes e tradições. O conservadorismo entende que as mudanças e o progresso são necessários para manter uma sociedade saudável, mas essas mudanças devem ser cautelosas e graduais. Assim, a política do conservador é a política da prudência, sempre preferindo manter e melhorar as instituições estáveis e testadas do que tentar rupturas para implantar modelos de sociedade e instituições advindas da razão humana. Essa postura coloca o pensamento conservador em conflito com ideologias essencialmente reformistas, que almejam criar uma sociedade “perfeita” pelo uso da política. Para o conservador, a política é a “arte do possível” e não um meio para se chegar a uma sociedade utópica.
Nas esferas social e moral, o conservador defende a manutenção dos usos, costumes e convenções, além de uma estrutura social e hierárquica tradicional. Na cultura, o conservadorismo valoriza as manifestações locais e uma identidade nacional. Nessas esferas, os conservadores são coletivistas, pois entendem que toda a comunidade deve adotar certos padrões de comportamento e certos valores para garantir uma coesão social e a identificação dos indivíduos com a comunidade.
CONSERVADORISMO NA ECONOMIA
O conservadorismo defende o individualismo na esfera econômica. A defesa da propriedade privada também é vista como uma questão intimamente ligada à liberdade, pois não é possível ser livre se os meios de sobrevivência de um indivíduo estão nas mãos de outros, dos quais acaba se tornando dependente.
(...)
Fonte: extraído e adaptado do Livro Urgente da Política Brasileira.
Texto inteiro em:
https://www.politize.com.br/conservadorismo-pensamento-conservador/
A religião influencia diretamente valores tradicionais da sociedade. Foto: Vladimir Platonow/ AgênciBrasil todo modo, é possível determinar algumas características fundamentais do pensamento conservador ocidental. O conservadorismo tem como seus principais valores a liberdade e a ordem, especialmente a liberdade política e econômica e a ordem social e moral. O conservador acredita que há uma ordem moral duradoura e transcendente, que no caso do conservadorismo ocidental é baseada na doutrina cristã e tem na religião a sua base. O conservadorismo valoriza a diversidade típica do individualismo e rejeita a igualdade como um objetivo da política. O conservador, assim como o libertário, entende que a igualdade político-jurídica é suficiente para garantir a igualdade necessária entre as pessoas. Qualquer desigualdade material ou de resultado é consequência inevitável das diferenças naturais entre os indivíduos, de seus esforços e de suas
domingo, 10 de maio de 2020
Cristianismo esotérico existe?
O Templo da Rosa Cruz, Teophilus Schweighardt Constantiens, 1618.
O cristianismo esotérico é a dimensão da tradição cristã que se ocupa do campo dos mistérios, da antiga sabedoria e de métodos de realização espiritual destinados àqueles com vocação para aprofundar sua fé. Historicamente, esta dimensão esotérica ortodoxa, que não se afastou dos princípios e diretrizes fundamentais da tradição cristã, manifestou-se em confrarias como a dos Cavaleiros Templários (séculos XII a XIV), dos "Amigos de Deus" (Der Gottesfreund, séculos XIV a XVI) e Fedeli D'Amore (séculos XIII a XV).
Trata-se de um segmento minoritário, uma vez que não se dirige às massas nem faz proselitismo, e não é estruturado em igrejas, apesar de a maioria dessas correntes possuírem cerimônias e rituais particulares, além daqueles que compartilham com a tradição cristã em geral. A esta dimensão esotérica do Cristianismo pertencem escolas como as citadas acima, que foram lideradas, respectivamente, pelas carismáticas figuras de São Bernardo de Claraval (Templários), Mestre Eckhart (Der Gottesfreund) e Dante Alighieri (Fedeli D'Amore).
As bases da doutrina esotérica cristã se diferenciam segundo as escolas e correntes. Segundo a escola contemporânea da filosofia perene de René Guénon e Frithjof Schuon, os fundamentos teóricos do esoterismo cristão estão nos próprios ensinamentos de Jesus, como expressos especialmente no Sermão da Montanha e no Evangelho de São João. Outras correntes mais afastadas da religião advogam conceitos como reencarnação e evolucionismo, que são heterodoxos em relação à doutrina tradicional.
Quando se fala de esoterismo cristão, pode tratar-se de três coisas. Em primeiro lugar, segundo Schuon, pode ser a gnose cristã, baseada na pessoa, nos ensinamento e dons do Cristo, beneficiando-se ocasionalmente de conceitos platônicos. Esta gnose crística se manifestou em particular, apesar de que de maneira desigual, em escritos como os de Clemente de Alexandria, Orígenes, Dionísio, o Areopagita , Scotus Erigena e Mestre Eckhart.[1]
"Em segundo lugar, pode se tratar do esoterismo greco-latino incorporado ao cristianismo: pensamos aqui acima de tudo no Hermetismo e nas iniciações de ofício. Este esoterismo cosmológico ou alquímico cristianizado era essencialmente vocacional, dado que nem uma ciência, nem uma arte podem ser impostas a todo mundo."[2]
"Em terceiro lugar, e mesmo antes de tudo, e deixando de lado toda consideração histórica ou literária, podemos e devemos entender por 'esoterismo cristão' a verdade pura e simples – verdade metafísica e espiritual – na medida em que ela é expressada ou manifestada mediante os dogmas, rituais e outras formas do cristianismo. Este esoterismo é a totalidade dos símbolos cristãos na medida em que eles expressam ou manifestam a pura metafísica e a espiritualidade una e universal." (Schuon)
Assim como as demais vertentes cristãs, considera-se a Bíblia e, especialmente os Evangelhos como fontes de autoridade dos mistérios de Deus. Algumas correntes mais heterodoxas consideram a Bíblia não como "palavra de Deus", nem deve ser interpretada literalmente, ou considerá-la à prova de erros. Outras escrituras que não foram incluídas na Bíblia também são consideradas, entre as quais os evangelhos apócrifos. Cristo é considerado o Logos, o "Verbo de Deus", o intermediário entre Deus e os homens, como o líder da humanidade e governante do Universo, sendo omnipresente como Deus, e por isso tendo uma centelha dentro de cada forma vivente (o chamado "Cristo Interior").
Algumas correntes, como os Fedeli d'Amore, organização esotérica cristã liderada por Dante Alighieri na Idade Média, sustentaram as teses tradicionais cristãs acerca dos mundos post-mortem, como as três moradas do Paraíso, do Purgatório e do Inferno. Outras tendências advogam que se trata de "símbolos", ou, pelo menos, que não sejam eternos. Cada pessoa paga por aquilo que praticou, na exata proporção.
(...)
Conversão
Não há proselitismo religioso dentro do cristianismo esotérico. Os membros das escolas cristãs esotéricas, tal como os membros das outras vertentes religiosas esotéricas, entendem que todas as religiões são provenientes de Deus, que as teria apresentado conforme as necessidades espirituais e o nível de evolução de cada povo. Alguns sustentem que o cristianismo é a religião preparada para os mais avançados da humanidade, na escala de evolução espiritual; outros argumentam que isso é um etnocentrismo sem qualquer fundamento. Também não existem impedimentos àqueles que desejarem se converter, desde que a conversão seja por livre e espontânea vontade. Não há juramentos especiais e os convertidos podem livremente manter contato com suas religiões de origem.
Notas históricas
O cristianismo esotérico remonta às palavras e ações de Jesus Cristo quando habitou entre os homens, na Palestina do século I. Do ponto de vista histórico, se expressou pelos escritos e exemplos de vida de sábios como João, o Evangelista, Orígenes, Clemente de Alexandria, Dionísio, o Areopagita e Mestre Eckhart, entre outros. Manifestou-se também em escolas exemplares como a dos Templários, dos Fedeli d'Amore, dos "Amigos de Deus" (Gottensfreund, liderados por Eckhart na Alemanha e na Suíça medievais). Outros creem atribuir suas origens aos essénios. Eles são descritos como um terceiro grupo que existiu para além dos outros dois mencionados no Novo Testamento, os hipócritas fariseus e os materialistas saduceus. Os essénios não são mencionados no Novo Testamento e evitavam qualquer referência a si próprios e aos seus métodos de estudo e de adoração. Jesus, de acordo com algumas tradições cristãs esotéricas, foi um elevado iniciado educado pelos essénios, até aos trinta anos de idade, e alcançou um estado muito elevado de desenvolvimento espiritual. É possível que a sua educação haja sido conduzida entre os essénios nazarenos de Monte Carmelo, uma comunidade na zona da Galileia.
(...)
Os ensinamentos ocultos Cristãos referem que a maior fonte viva da tradição Cristã esotérica, no decorrer do desenvolvimento da civilização ocidental, teve início no século XIV com a constituição de uma irmandade secreta de homens santos designada por Ordem Rosa-cruz, que se expôs a si mesma pela primeira vez na profunda obra esotérica Fama Fraternitatis R.C. Esta Ordem abriu a Iniciação nos Mistérios, naquele tempo e nos séculos que se seguiram, aos indivíduos com maior preparação e mérito, qualidades alcançadas por esforço dos próprios. Por volta dessa época começa também a idade da Alquimia, expressando o conhecimentos oculto através de escritos herméticos, do tipo criptográfico, para evitar a perseguição e o mau uso dos ensinamentos sagrados por parte do homem. Nos seus Manifestos do início o século XVII, a Ordem Rosa-cruz menciona "nós reconhecemo-nos verdadeiramente e sinceramente professar Cristo (…) viciamo-nos na verdadeira Filosofia, levamos uma vida Cristã" (in Confessio Fraternitatis, 1615) e estabelece o tempo e o modo como viria a apresentar publicamente ao mundo o seu conhecimento, num esforço para trazer uma "Reforma da Humanidade" através de uma mais avançada fase da religião cristã. (...)
A teosofia cristã clássica, que precede a Sociedade Teosófica e o martinismo, inclui alquimistas conhecidos, através dos seus escritos, como estando ligados ao movimento rosa-cruz. Entre os cristãos teosofistas encontramos homens letrados como Valentin Weigel, Heinrich Kunrath, Johann Arndt, Johann Georg Gitchel, Jakob Böehme, Gottfried Arnold, Jan Baptist van Helmont, Robert Fludd, John Pordage, Jane Leade, e Pierre Poiret.
Mais tarde, é especialmente reconhecido Emanuel Swedenborg porque uma igreja seguiu os seus ensinamentos desde 1787: a New Church e a Swedenborgian Church of North America. Martines de Pasqually, Louis-Claude de Saint-Martin e Jean-Baptiste Willermoz são três das mais influentes figuras do martinismo, que data do início do século XVII e continua a existir até aos dias de hoje.
Outras perspectivas modernas sobre o cristianismo esotérico incluem a Ordem Hermética da Aurora Dourada e suas principais ramificações, os Builders of the Adytum, a Society of the Inner Light e os Servants of the Light. Paul Foster Case, W. E. Butler, Dion Fortune e Gareth Knight em particular, são autoridades desses ramos que contribuíram para a literatura dedicada a um cristianismo esotérico. Alguns dos modernos neo-templários e neo-essénios são também dignos de nota.
Fundamentos bíblicos
O Caminho ("Ego sum Via, Veritas et Vita"):
- Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim. (João 14:6)
O Conhecimento Esotérico (vide Parábola do Semeador):
- Respondendo, disse-lhes: «A vós é dado a conhecer os mistérios do Reino do Céu, mas a eles não lhes é dado. (Mateus 13:11)
- Disse-lhes: «A vós foi dado a conhecer os mistérios do Reino de Deus; mas aos outros fala-se-lhes em parábolas, a fim de que, vendo, não vejam e, ouvindo, não entendam.» (Lucas 8:10)
A Vivência Mística (o coração):
- Jesus disse, então, aos discípulos: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mateus 16:24)
- Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. (Lucas 9:23)
O Estudo Oculto (a mente - vide Venham a mim as criancinhas):
- e disse: «Em Verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. (Mateus 18:3)
- Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele.» (Marcos 10:15)
Escritos do século XX
- "Quando se fala de esoterismo cristão, pode tratar-se de três coisas: em primeiro lugar, pode ser a gnose cristã, baseada na pessoa, nos ensinamento e dons do Cristo, beneficiando-se ocasionalmente de conceitos platônicos. Esta gnose crística se manifestou em particular, apesar de que de maneira desigual, em escritos como os de Clemente de Alexandria, Orígenes, Dionísio o Areopagita , Scotus Erigena, Mestre Eckhart, Nicolau de Cusa, Jakob Böhme e Angelus Silesius.
Em segundo lugar, pode se tratar do esoterismo greco-latino incorporado ao cristianismo: pensamos aqui acima de tudo no hermetismo e nas iniciações de ofício. Este esoterismo cosmológico ou alquímico cristianizado era essencialmente vocacional, dado que nem uma ciência, nem uma arte podem ser impostas a todo mundo.
Em terceiro lugar, e antes de tudo, e deixando de lado toda consideração histórica ou literária, podemos e devemos entender por “esoterismo cristão” a verdade pura e simples – verdade metafísica e espiritual – na medida em que ela é expressada ou manifestada mediante os dogmas, rituais e outras formas do cristianismo." (Frithjof Schuon: O Esoterismo como Princípio e como Caminho, pp. 29-30)
(...)
Ensaios na actualidade
- Frithjof Schuon: Forma e Substância nas Religiões (S. Paulo, Sapientia, 2010).
- William Stoddart: Lembrar-se num mundo de esquecimento: Reflexões sobre Tradição e Pós-Modernismo (S. Paulo, Kalon, 2013).
- Mateus Soares de Azevedo: Filosofia Perene e Cristianismo: ante o desafio da modernidade. Introdução de W. Stoddart. (S. Paulo, Ibrasa, 2016).
- Mateus Soares de Azevedo: O Livro dos Mestres: Encontros com homens e mulheres notáveis dos Tempos Modernos (S. Paulo, Ibrasa, 2016).
- Mateus Soares de Azevedo: Homens de um livro só" (Rio de Janeiro, Best Seller, 2009).
- M. Soares de Azevedo: "O Sermão da Montanha segundo a Filosofia Perene" (Revista Interações, Faculdade Católica de Uberlândia, 2012) [5]
- Carol E. Parrish-Harra: The Cornerstone of Esoteric Christianity
- Charles Weber: Rosicrucianism and Religion, Christianity
- Jan Skogstrom: Esoteric Christianity - What does it mean? and Some Comparisons Between Exoteric & Esoteric Christianity
- Marie-José Clerc: Christ is the Divine Messenger
- Michael Hoffman: Esoteric/Mystic/Experiential Christianity
- Norman D. Livergood: Esoteric Christianity
- Richard S. Kirby: The Focus of Esoteric Futures
- Fonte e texto completo: Wikipedia
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