terça-feira, 24 de março de 2026

Anarcocapitalismo, conservadorismo e demais anarquismos Parte 2

A origem e a teoria econômica do anarquismo



A abolição da propriedade privada sempre foi um pilar central de doutrinas como o socialismo, o comunismo e o anarquismo clássico. Mesmo quando todos os seus proponentes brigavam e discutiam fervorosamente entre si, eles convergiam nessa questão. Na verdade, podemos aprofundar essa explicação, para entender sua origem.

Até a metade do século 19, termos como socialismo e anarquismo eram praticamente intercambiáveis, e queriam dizer basicamente a mesma coisa. Se um indivíduo se declarasse anarquista, ele imediatamente era compreendido como sendo também um socialista, e vice-versa. Esse era o caso de Mikhail Bakunin, Benjamin Tucker e Peter Kropotkin, para citar apenas os ideólogos mais proeminentes. Com a ascensão do socialismo autoritário de vertente marxista, esses indivíduos posteriormente passaram a ser descritos como socialistas anarquistas, para distingui-los dos socialistas estatistas, cujo movimento acabaria crescendo, vindo a suplantar e infelizmente eclipsar o socialismo de vertente libertária, que inicialmente era muito maior.

O socialismo, portanto, surgiu inicialmente como uma vertente cultural e filosófica libertária em oposição ao capitalismo. É fundamental entender, no entanto, que até o século XIX, o vocábulo “capitalismo” tinha um sentido muito diferente do que tem hoje. O termo capitalismo era basicamente compreendido no sentido de “monopólio econômico” — a concentração de renda e poder que servia de estrutura para a burguesia sufocar e escravizar o proletariado. Pouco tempo depois, com a ascensão da ideologia marxista, o termo capitalismo seria difundido basicamente nesse sentido, sendo consolidado e divulgado como análogo à exploração econômica, com a expansão da hegemonia cultural da esquerda política.

No entanto, a ideia central do socialismo (no sentido libertário anarquista) era acabar com o estado, porque isso invariavelmente acabaria com o sistema capitalista de exploração econômica da burguesia sobre o proletariado. Na visão dos anarquistas, a burguesia, além do capital, tinha também o monopólio e o controle sobre o estado, que ela usava para criar leis que a favoreciam, protegiam suas empresas, e criava um sistema social que garantia que o proletariado permanecesse escravo, em total sujeição a burguesia, que controlava integralmente os meios de produção.

Na visão dos primitivos anarquistas, portanto, o socialismo era um arranjo social e econômico que existia em oposição ao capitalismo. Abolindo o estado, o capitalismo — assim como a exploração econômica promovida e sustentada por ele — também deixaria de existir. No entendimento deles, o capitalismo só era sustentado e mantido graças ao estado. Consequentemente, o que surgiria a partir de um arranjo social sem o estado seria o socialismo. Para o socialismo triunfar, portanto, era necessário abolir o estado. Abolindo o estado, o capitalismo também desapareceria.

Quando Mikhail Bakunin conheceu Karl Marx, ambos se tornaram grandes amigos, por terem afinidades políticas, como a defesa radical do socialismo e do proletariado. A amizade, no entanto, durou pouco tempo, porque eles invariavelmente acabaram percebendo que defendiam tipos muito diferentes de socialismo.

Enquanto Bakunin propunha um socialismo sem estado, Marx propunha um socialismo de estado. Bakunin afirmava — e Kropotkin posteriormente aprofundaria as críticas nesse sentido — que o socialismo de estado jamais poderia funcionar, pois eventualmente se transformaria em um governo altamente repressivo. Não seria uma ditadura do proletariado, mas uma ditadura que se voltaria contra o proletariado. Infelizmente, as ditaduras socialistas que eclodiram no decorrer do século XX mostraram inequivocamente que as suposições de Bakunin sobre o socialismo marxista estavam totalmente corretas.

Marx, no entanto, era intransigente, e nunca se importou em dar ouvidos a Bakunin. Invariavelmente, ambos acabaram rompendo, em virtude das enormes divergências e incompatibilidades de pensamento que formaram um abismo intransponível entre eles, e que posteriormente mostrou ser irreconciliável. Não obstante, tanto o socialismo anarquista de Bakunin quanto o socialismo autoritário de Marx conservaram uma semelhança: ambos defendiam a abolição da propriedade privada.

A ojeriza a propriedade privada tem sua origem em um conceito econômico equivocado. Os anarquistas, socialistas e comunistas originais ingenuamente acreditavam que a propriedade privada garantia aos detentores dos meios de produção um monopólio exclusivo, e quem o blindava era o estado burguês. Sua abolição, portanto, libertaria o mercado, e paralelamente libertaria a população da sua condição de escravidão e pobreza. Eles erroneamente acreditavam que a propriedade privada era o principal vetor da exploração econômica.

Ignorantes para o fato de que a pobreza é o estado natural de qualquer civilização, eles não levavam em consideração o fato de que o capitalismo industrial — por mais brutal que tenha sido no seu alvorecer para as classes inferiores — produziu um nível de prosperidade e desenvolvimento tecnológico sem precedentes na Europa. Se a propriedade privada fosse abolida, ou os meios de produção socializados, a economia simplesmente entraria em colapso, e a pobreza voltaria a crescer, porém em níveis muito mais estarrecedores.

Os anarquistas de outras vertentes, no entanto, hostilizam o anarcocapitalismo porque persistem em compreender o capitalismo de acordo com a sua definição clássica histórico-marxista. Como em muitos de seus conceitos, eles permanecem presos a definições arcaicas e obsoletas, o que é comum a praticamente todas as ideologias de esquerda, que são incapazes de fazer uma leitura congruente da realidade, justamente por estarem presas a teorias políticas do passado. Adicionalmente, eles persistem em ver a propriedade privada como um eixo da exploração da classe trabalhadora, o que só reforça os parâmetros retrógrados dos anarquismos de esquerda, que ainda estão presos ao século 19, e portanto são fundamentalmente incapazes de analisar o mundo por uma perspectiva atual.

Para piorar essa miopia intelectual, esses indivíduos ainda enxergam a luta de classes como o elemento central dos conflitos da sociedade, quando na verdade o epicentro do conflito há muito tempo deixou de ser entre ricos e pobres, e hoje acontece entre o estado e a sociedade produtiva, que é composta por ricos, pobres e a classe média. Ou seja, a luta hoje é entre produtores e parasitas, criadores de riquezas e políticos, agentes inovadores e oligarcas monopolistas. O conflito social simplório e reducionista vislumbrado por anarquistas de outras vertentes resiste sumariamente em enxergar a raiz do problema, ainda que eles afirmem se opor vigorosamente ao estado. O anarcocapitalismo, portanto, por ser uma filosofia muito mais recente do que as demais vertentes anarquistas, faz uma leitura muito mais congruente, profunda e realista da sociedade contemporânea e dos problemas que a cercam.

Esquerda — do anarquismo radical ao estatismo totalitário

Quando indivíduos como o agorista Samuel Konkin, entre outros, afirmava que originalmente o livre mercado era defendido pela esquerda, ele expressava uma verdade. O anarquismo surgiu na esquerda; os anarquistas clássicos eram vigorosos opositores do estado, e combatiam com fervor e mordacidade o autoritarismo e o monopólio, e eram a favor de mercados livres e desimpedidos, não-monopolizados pela burguesia industrial detentora dos meios de produção, com influências na burocracia estatal.

Em decorrência das definições semânticas que foram mudando com o passar do tempo, no entanto, o significado de determinados termos acabou sendo completamente alterado. Anarcocapitalistas chamam a simbiose do estado com as grandes corporações de corporativismo, mas para os anarquistas que seguem a vertente clássica — e por extensão, o mesmo é válido para todos os anarquistas de esquerda —, isso seria apenas uma ramificação distinta e inevitável do capitalismo. Ainda assim, ambos não chegam a um acordo, tampouco defendem a mesma coisa, porque suas bases teóricas são radicalmente distintas.

Portanto, é necessário reconhecer em virtude da análise histórica, que a esquerda política, em sua concepção clássica, realmente pretendia libertar os indivíduos — e acima de tudo a classe trabalhadora — da escravidão promovida pelo capitalismo (em seu sentido marxista). Por isso, tantas vertentes diferentes de anarquismos de esquerda se desenvolveram. A esquerda era, de fato, originalmente libertária. Como explicado acima, os anarquistas originais (que eram todos socialistas libertários) viam o estado como a instituição que protegia a burguesia, e permitia a ela promover a exploração capitalista impunemente. Portanto, para libertar o proletariado, era fundamental deflagrar uma revolução para derrubar e abolir o estado. Abolindo o estado, a classe proletária estaria livre da opressão burguesa e capitalista. Karl Marx, no entanto, foi um dos primeiros a chamar os anarquistas revolucionários de socialistas utópicos.

Com o desenvolvimento da teoria marxista, todo esse cenário mudou drasticamente. Marx propunha algo radicalmente diferente — um socialismo autoritário. Ele defendia que o proletariado deveria se apropriar dos meios de produção, e também do estado, mas ao invés de aboli-lo, o proletariado deveria controlá-lo e implementar uma ditadura, a ditadura do proletariado (que, ironicamente, nunca existiu; todos os regimes socialistas totalitários foram implementados por revolucionários profissionais, e não por trabalhadores). Marx também argumentava que era fundamental abolir a democracia, para impedir a burguesia de voltar ao poder. Os proletários deveriam assumir o controle total do estado, tomar os meios de produção e oprimir a burguesia.

Dessa maneira, o socialismo autoritário ganhou proeminência, e em pouco tempo suplantou quase que totalmente o socialismo anarquista e suas inúmeras vertentes. Com o passar do tempo — especialmente no decorrer do século 20 —, a esquerda política foi se tornando radicalmente cada vez mais estatista e autoritária, e todas as formas de anarquismo propostas por ela acabaram sendo relegadas ao ostracismo, e eventualmente se tornaram teorias políticas marginais. Tanto isso é verdade que, atualmente, quando falamos em esquerda, a maioria das pessoas associa o termo a estatismo, autoritarismo e controle político. Pouquíssimas pessoas fazem qualquer associação da esquerda com anarquismo. Historicamente, no entanto, a esquerda era anarquista e libertária...


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CONTINUA...

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