*Heidegger: teologia, fenomenologia e mística*
— John D. Caputo
O pensamento de Heidegger esteve desde o princípio profundamente entrelaçado com questóes religiosas e teológicas. Recentemente, a partir das investigações históricas de Hugo Ott, passamos a conhecer os detalhes da educação básica e da formação religiosa de Heidegger na Igreja católica.
Heidegger nasceu nas terras católicas e conservadoras do sul, na Alemanha central, e seu pai era sacristão na Igreja de São Martinho, que ficava do outro lado de um pequeno e peculiar pátio, a não mais de cinquenta metros da casa de Heidegger. A família Heidegger foi firmemente leal à igreja na controvérsia que se seguiu ao Concílio Vaticano I, quando os católicos "liberais" rejeitaram a proclamação da infalibilidade papal.
O jovem Heidegger, brilhante e piedoso, estava desde o início destinado ao sacerdócio católico.
Através de uma série de bolsas de estudo financiadas pela Igreja, uma das quais destinada a estudantes que buscavam desenvolver trabalhos de doutorado sobre Tomás de Aquino, o jovem pobre, mas talentoso, saiu dessas terras agrícolas rurais para a eminência de uma carreira universitária na Alemanha. Hugo Ott descobriu que as primeiras publicações de Heidegger surgiram em 1910-1912 no Der Akademiker, um periódico católico ultraconservador que seguia a linha do Papa Pio X. Ali, em uma série de recensóes literárias, o jovem Heidegger, ainda no início de seus vinte anos, manifestou-se contra o perigo do "modernismo" para a sabedoria eterna da tradição católica. Heidegger cita com aprovação o dito do "grande Josef von] Görres": "cave mais fundo e você se encontrará em solo católico".
Forçado a interromper seus estudos para o sacerdócio católico em 1911 por motivos de saúde, Heidegger voltou-se primeiro para matemática e as ciências naturais e depois para a filosofia, onde era bertamente identificado com a confissão católica. Seu primeiro cargo de ensino foi como substituto temporário na Cátedra de Filosofia Católica em Friburgo. E seu primeiro grande desapontamento profissional foi não ter obtido uma nomeação permanente para essa cátedra em 1916.
Os primeiros interesses filosóficos e teológicos de Heidegger naquela época se centravam em uma nova e promissora apropriação da filosofia escolástica medieval à luz de sua investigação sobre os fundamentos da lógica moderna e na refutação de Husserl do psicologismo.
Como filósofo, Heidegger rejeitou o psicologismo — a tentativa de fundamentar a lógica e a matemática na constituição psicológica da mente humana — como uma forma de empirismo e relativismo, mesmo enquanto se opunha teologicamente ao modernismo como uma forma de relativismo histórico que ameaçava minar a verdade teológica eterna.
Heidegger via uma continuidade entre as "investigações lógicas" de Husserl, que colocavam a lógica e a matemática sobre o fundamento da fenomenologia pura, e a tradição escorista da "gramática especulativa" no final da Idade Média. De acordo com essa tradição, profundamente antirrelativista e antipsicologista, as formas da gramática e da linguagem (modus significandi) são uma função e refletem as formas puras e universais de pensamento (modus intelligendi), que são elas próprias reflexos do próprio ser (modus essendi).
Porém, Heidegger também viu outro lado da tradição medieval, podemos dizer, seu lado "vivo" em oposição ao seu lado lógico e logocêntrico.
Esse lado "vivo" se encontra na vida religiosa que animava o que ele chamava, seguindo Dilthey, a "experiência de vida" medieval (Lebenserfabrung).
No posfácio de sua dissertação de habilitação, Heidegger pontuou que devemos entender as abstratas e difíceis teorias dos filósofos e teólogos medievais como decorrentes de uma experiência concreta de vida, que tais teorias dão expressão conceitual à "relação da alma com Deus" conforme é experienciada na vida medieval. Para acessar essa dimensão da tradição medieval, Heidegger diz que devemos nos atentar à teologia moral medieval e à mística medieval, em específico a de Mestre Eckhart (GA 1, 404, 410), pois é a concepção mística de que a alma pertence totalmente a Deus, que ela é constituída por uma espécie de transcendência em direção a Deus, que vemos em grande medida na concepção metafísico-conceitual correspondente de que o intelecto tem uma harmonia interna com o ser e um pertencimento (convenientia) ao ser. Essa concepção de que o pensar "pertence" (gehört) ao ser é aquela que Heidegger sempre manteria de alguma forma como parte de suas próprias concepções posteriores.
Ao evocar o significado vivo da mística medieval, Heidegger faz sua primeira tentativa de "destruição" da tradição — o que não significa nivelar ou destruir, mas romper a superfície conceitual da metafísica tradicional para "resgatar" ou recuperar (wieder-bolen) suas raízes vivas e suas experiências vivificantes. Este é um gesto que Heidegger repetiria inúmeras vezes ao longo de sua vida, de modo que a famosa "destruição/ desconstrução" da metafísica ou da "história da ontologia" em "Ser e tempo" deve sempre ser compreendida como uma operação fundamentalmente "positiva", não negativa.
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