quarta-feira, 2 de abril de 2025

Tolstoi sobre a revolução violenta


“Algumas pessoas sustentam que a liberdade da violência, ou pelo menos uma grande diminuição dela, pode ser obtida pelos oprimidos derrubando à força o governo opressivo e substituindo-o por um novo sob o qual tal violência e opressão serão desnecessárias, mas eles enganam a si mesmos e aos outros, e seus esforços não melhoram a posição dos oprimidos, mas apenas a pioram. Sua conduta tende apenas a aumentar o despotismo do governo. Seus esforços apenas fornecem um pretexto plausível para o governo fortalecer seu poder.

“Mesmo se admitirmos que, sob uma combinação de circunstâncias especialmente desfavoráveis ​​ao governo, como na França em 1870, qualquer governo poderia ser derrubado à

 força e o poder transferido para outras mãos, a nova autoridade raramente seria menos opressiva do que a antiga; pelo contrário, tendo sempre que se defender contra seus inimigos despossuídos e exasperados, seria mais despótica e cruel, como sempre foi a regra em todas as revoluções.

“Enquanto socialistas e comunistas consideram a organização ou sociedade individualista e capitalista como um mal, e os anarquistas consideram como um mal todo governo, seja qual for, há monarquistas, conservadores e capitalistas que consideram qualquer organização socialista ou comunista ou anarquia como um mal, e todos esses partidos não têm outros meios além da violência para chegar a um acordo. Qualquer um desses partidos que tenha tido sucesso em fazer seus esquemas passarem, deve recorrer para apoiar sua autoridade a todos os métodos existentes de violência, e até mesmo inventar novos.

“Os oprimidos seriam outro conjunto de pessoas, e a coerção tomaria alguma nova forma: mas a violência e a opressão permaneceriam inalteradas ou até mais cruéis, já que o ódio seria intensificado pela luta, e novas formas de opressão teriam sido inventadas. Assim sempre foi depois de todas as revoluções e todas as tentativas de revolução, todas as conspirações e todas as mudanças violentas de governo. Todo conflito apenas fortalece os meios de opressão nas mãos daqueles que por acaso em um dado momento estão no poder."


Autor Imagem do Dr. Norman Horn

Dr. Norman Horn

Norman é o fundador e presidente do Libertarian Christian Institute. Ele é Ph.D. em Engenharia Química pela University of Texas em Austin e MA em Estudos Teológicos pela Lipscomb University. Ele foi amplamente publicado em vários campos e escreveu para o Washington Post, Relevant Magazine, Young American Revolution, Journal of Research of NIST e UV Solutions Magazine.

segunda-feira, 17 de março de 2025

O Fator Melquisedeque - POVOS COM COSTUMES ESTRANHOS

Do livro O Fator Melquisedeque 

de Don Richardson 



3

POVOS COM COSTUMES ESTRANHOS

Os leitores que conhecem meus dois primeiros livros - O Totem
da Paz e Senhores da Terra - já têm uma idéia do que entendo por
“ costumes estranhos” . Para os que ainda não leram O Totem da
Paz, por exemplo, dou aqui um breve resumo:
Em 1962, minha esposa Carol e eu, levando nosso filho Estevão
de dezoito meses, viajamos para a Nova Guiné e vivemos como mis-
sionários entre os sawi - uma das quase mil tribos que existem no
semi-continente de 2.400 km da Nova Guiné. Os sawi eram uma das
cinco ou seis tribos deste planeta que praticavam tanto o canibalismo
como a caça a cabeças. Mais tarde, tivemos mais três filhos -
Shannon, Paulo e Valerie - que passaram seus primeiros anos co-
nosco, entre os sawi.

Nossas primeiras tentativas de transmitir o evangelho a eles fo-
ram frustradas devido à sua admiração pelos “ mestres da traição”
- impostores ardilosos que conseguiam manter uma ilusão de amiza-
de durante meses, enquanto firmemente “ engordavam” suas vítimas
com essa amizade, tendo em vista um dia inesperado de matança!

Por causa deste raro tipo de reverência pelo heroísmo, ao ouvi-
rem minhas primeiras tentativas de explicar o evangelho, os sawi
consideraram Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, como sendo o he-
rói da história! Jesus, aos olhos dos sawi, não passava do tolo enga-
nado, objeto de riso!

Repentinamente, minha esposa e eu nos vimos diante de dois
problemas graves. Primeiro, como poderíamos tornar claro o signifi-
cado real do evangelho para aquele povo, cujo sistema de valores
parecia tão oposto ao do Novo Testamento? Segundo, como nos as-
segurar de que os sawi não estavam nos engordando com sua ami-
zade para uma matança inesperada?

Orando para que Deus nos desse uma ajuda especial, desco-
brimos finalmente que os sawi tinham um método singular de fazer a
l>iiz e evitar surtos de traição. Quando um pai sawi oferecia seu filho
I>»rn outro grupo como uma "Criança da Paz” , não só as diferen­
ças antigas eram canceladas, como também prevenidas futuras oca-
siões de perfídia - isso, porém, só enquanto a Criança da Paz per-
manecesse viva. Nossa chave para comunicação foi, então, a apre-
sentação de Jesus Cristo aos sawi como o derradeiro Filho da Paz,
usando Isafas 9.6, João 3.16, Romanos 5.10 e Hebreus 7.25 como os
principais correspondentes bíblicos à analogia da Criança da Paz.
Por este meio, o significado do evangelho penetrou na mente
sawi! Uma vez compreendido que Judas traíra uma Criança da Paz,
não mais o consideraram um herói. Para os sawi, a traição de uma
Criança da Paz representava o mais hediondo dos crimes!

Desde aqueles dias, aproximadamente dois terços do povo sa-
wi, em suas próprias palavras, “ colocaram as mãos sobre a Criança
da Paz de Deus, Jesus Cristo, por meio da fé", aludindo à sua exi-
gência de que os recipientes de uma criança da paz colocassem as
mãos individualmente sobre o filho que lhes fora dado e dissessem:
"Recebemos esta criança como uma base para a paz!”

Outros povos, no entanto, possuem costumes igualmente estra-
nhos que fornecem analogias para o evangelho. Os capítulos se-
guintes contêm diversos exemplos. Em primeiro lugar, porém, note o
fundamento bíblico para encontrar e usar tais costumes como escla-
recimento da verdade espiritual:
Saulo de Tarso - que se tornou o apóstolo Paulo - tinha uma
vantagem sobre os judeus que passaram todo o seu tempo na Pales-
tina. Teve muito maior oportunidade de observar os gentios e seus
costumes. Nascido numa cidade predominantemente gentia, fluente
em pelo menos uma língua gentia e cidadão de um império cosmopo-
lita verdadeiramente gentio, Paulo chegou a algumas conclusões in-
teressantes sobre os gentios.

Esta é uma delas: Paulo observou que os gentios freqüente-
mente se comportavam como se estivessem obedecendo voluntaria-
mente à lei de Moisés, quando de fato jamais tinham ouvido falar de
Moisés ou de sua lei! Como isso podia acontecer? perguntou ele.

Mais tarde, o Espírito de Deus guiou Paulo a uma resposta surpreen-
dente: "Quando, pois, os gentios que não têm lei, procedem por natu-
reza de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei pa-
ra si mesmos" (Rm 2.14). Em outras palavras, a lei expressa na na-
tureza pagã do homem serve para ele como uma espécie de Antigo
Testamento intermediário. Isso na realidade não basta, mas é muito
melhor do que não ter lei alguma!
Paulo continua: “ Não tendo lei, servem eles de lei para si mes-
mos. Estes mostram a norma da lei gravada nos seus corações,
testemunhando-lhes também a consciência, e os seus pensamentos
mutuamente acusando-se ou defendendo-se” (vv. 14-15, grifo acres-
centado).

Paulo foi evidentemente justo com os gentios. Ele lhes deu até
aos mais rudes, crédito por possuirem uma sensibilidade morai dada
por Deus, em separado da revelação judia-cristã. Salomão, como já
vimos, discerniu que Deus “ pôs a eternidade no coração do homem”
(veja Ec 3.11). Agora, o apóstolo acrescenta que Deus também es-
creveu as exigências da sua lei no mesmo lugar!

O homem não-regenerado é duplamente perseguido! Primeiro,
ele sente a eternidade, em direção à qual se move - partícula finita
que é - como alguém estranhamente destinado. A seguir, descobre
gravada em seu próprio coração uma lei que o condena a não atingir
o seu destino eterno!
Não é de admirar que Paulo tenha escrito em outro ponto: “ Ai
de mim se não pregar o evangelho” (1 Co 9.16). Nada mais pode dar
fim a esta dupla perseguição do homem!

Aqueles dentre nós que estudaram as jornadas do apóstolo ain-
da mais profundamente no domínio gentio, descobriram que a sua ob-
servação cumpriu-se de maneiras que ele mesmo talvez jamais ti-
vesse julgado possíveis. Por exemplo: Uma das exigências da lei
mosaica era um estranho rito anual envolvendo dois bodes machos.
Ambos os bodes eram primeiro apresentados ao Senhor (Lv 16.7). A
seguir, o sumo sacerdote hebreu tirava sortes para escolher um dos
bodes como oferta sacrificial. Depois disso, ele matava o bode es-
colhido e aspergia seu sangue sobre o “ propiciatório” (Lv 16.15).

O que acontecia ao outro bode?


O sumo sacerdote impunha as mãos sobre a cabeça dele, de-
pois confessava os pecados do povo, colocando-os simbolicamente
sobre o segundo bode. Uma pessoa indicada para a tarefa levava
então o mesmo para longe do povo e o soltava no deserto. Uma vez
que o “ bode emissário” desaparecia de vista, o povo hebreu come-
çava a louvar a Javé pela remoção de seus pecados.

Quando João Batista apontou para Jesus e disse: “ Eis o Cor-
deiro de Deus, cue tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29), ele identificou
Jesus Cristo como o cumprimento perfeito e pessoal do simbolismo
hebreu do bode expiatório. Eram necessários dois animais para re-
presentar o que Cristo iria realizar sozinho quando morresse pelos
nossos pecados. Não satisfeito em simplesmente expiar nossos pe-
cados, Ele também removeria a própria presença dos mesmos!

Uma determinada seita tentou desenvolver uma interpretação
diferente. Embora concordando que o primeiro animal fosse uma
sombra ou tipo de Cristo, eles insistem em que o bode expiatório re-
presenta Satanás. O autor do pecado, raciocinam eles, deve ser o
Povos com Costumes Estranhos - 93
rtltlmo a levá-lo embora. Esta teoria fica prejudicada por ignorar um
ii«lHlhe que assoma como uma advertência em seu caminho. Ambos
ou bodes, e não só o primeiro, tinham de ser apresentados perante o
'•onhor, implicando em que não deviam ter qualquer defeito, como era
noütume em todas as ofertas dos hebreus.

De acordo com esse pano-de-fundo, considere a seguinte ceri-
mônia realizada anualmente por certos clãs entre os dyaks, de Bor-
nóu.

Os Dyaks de Bornéu


Os anciãos dyaks ficam agrupados observando os artesãos da-
rom os últimos retoques a um barco em miniatura. Os peritos entre-
gam o barco aos anciãos que o levam cuidadosamente até à margem
do rio, perto da aldeia em que moram, chamada Anik. Enquanto toda
n população de Anik fica olhando, um dos anciãos escolhe duas gali-
nhas do bando da aldeia. Depois de verificar se ambas são sadias,
ele mata uma delas e asperge o seu sangue ao longo da margem. A
outra galinha é amarrada viva a uma das extremidades do pequeno
barco.
Alguém traz uma pequena lanterna e a prende do outro lado do
barco, acendendo-a. Neste ponto, cada residente da aldeia aproxima-
se do barquinho e coloca mais alguma coisa, algo invisível, entre a
lanterna acesa e a galinha viva.

Pergunte a um dyak o que ele colocou entre a lanterna e a gali-
nha e ele responderá: “ Dosakul" (meu pecado).

Quando todos os habitantes de Anik tiverem colocado o seu do-
sa sobre o pequeno barco, os anciãos da aldeia o levantam cuidado-
samente do solo e entram no rio com ele, soltando-o na correnteza.

À medida que é levado por esta, os dyaks que observam da
margem ficam tensos. Os anciãos que permaneceram no rio, com
água até o peito, prendem a respiração. Se o barquinho voltar para a
margem, ou bater em algum obstáculo oculto, à vista da aldeia, o po-
vo de Anik viverá sob uma nuvem de ansiedade até que a cerimônia
possa ser repetida no ano seguinte!

Mas se o barquinho desaparecer numa curva do rio, todo o gru-
po levanta os braços para o céu e grita: "Selamat! Selamat! Sela-
mat!’’ ( Estamos salvos! Estamos salvos!)1

Mas só até o próximo ano.
Os judeus tinham os seus bodes emissários; os dyaks, os seus
barcos emissários.
Qual deles podia realmente remover os pecados? Resposta:
nem um nem outro! O apóstolo que escreveu a Epístola aos Hebreus,
disse: “ Nesses sacrifícios faz-se (os judeus) recordação de pecados
todos os anos, porque é impossível que sangue de touros e bodes
remova pecados... Temos sido santificados mediante a oferta do cor-
po de Jesus Cristo, uma vez por todas” (Hb 10.3-10).

Se até mesmo os sacrifícios judeus, ordenados por Deus, ser-
viam somente como sombra de algo que ainda estava para vir, não é
necessário dizer que o barco emissário dos dyaks também não pode-
ria remover verdadeiramente os pecados. Então, será que ele não
tem qualquer significado? Tem sim! O barco emissário dos dyaks in-
corpora vários conceitos válidos. O homem precisa ter seus pecados
removidos! A remoção do pecado não exige apenas a morte, mas
também a presença viva de algo puro! A iluminação da verdade (sim-
bolizada pela lanterna acesa) é um pré-requisito necessário para es-
sa remoção!

Quem poderia ter sonhado que os dyaks, antes temidos como
caçadores de cabeças, iriam se mostrar já pré-sintonizados com
conceitos neste comprimento de onda fortemente para-bíblico?

Cuidado, porém: os budistas no Camboja também enviam bar-
quinhos correnteza abaixo pelo rio Mekong, em certas épocas do
ano. Dezenas dessas pequenas embarcações levando lanternas, têm

sido vistas brilhando nas águas do Mekong à noite. Os barcos cam-
bojanos têm como propósito levar embora os espíritos dos mortos ou
transportar ofertas de alimento aos mortos, nada tendo a ver com a
remoção de pecados.
É necessário estudar o objetivo por trás de qualquer costume
estabelecido, antes de tirar conclusões sobre a sua ligação potencial
com conceitos bíblicos. Os barcos cambojanos desse tipo podem,
originalmente, ter tido um propósito semelhante ao dos “ barcos emis-
sários” de Bornéu. Os adoradores predecessores, com o passar dos
séculos, cedendo ao Fator Sodoma, talvez tenham mudado o costu-
me original de forma tão drástica que ele não representa mais uma li-
gação com a verdade bíblica.

As boas-novas de que Cristo tornou-se o Portador do pecado
da humanidade são um dos principais componentes do evangelho,
mas não representam todo ele. O mesmo Cristo que remove o nosso
pecado também implanta um novo espírito em nós, para que não vol-
temos a repetir infindavelmente as mesmas ofensas. Jesus disse que
todos os que recebem este dom de um novo espirito “ nasceram de
novo” (Jo 3.3).
O verdadeiro significado do “ novo nascimento" é difícil de ser
compreendido pela maioria das pessoas. O primeiro indivíduo com
quem Jesus falou sobre o novo nascimento foi um judeu conhecedor
de teologia, chamado Nicodemos - um membro do conselho judeu
94 - O Fator Melquisedeque
dominante. Se havia alguém em Jerusalém capaz de entender o que
)« h u s queria dizer com “ novo nascimento” , essa pessoa era Nico-
ilmnos. Todavia...

No momento em que Jesus afirmou “ Se alguém não nascer de
novo, não pode ver o reino de Deus", Nicodemos respondeu com a
••guinte objeção literal, ingênua e quase infantil: “ Como pode um
lioinem nascer, sendo velho?... Pode, porventura, voltar ao ventre
materno e nascer segunda vez?’’ (vv. 3,4).

Se um conhecedor de religião como Nicodemos teve tanta difi-
culdade em compreender o significado do novo nascimento, segundo
n Indicação de Jesus, "gentios incultos” em todo globo terão muito
maior dificuldade para entendê-lo, não é? Esta não é uma insinuação
do que, na verdade, os ensinos de Jesus podem ser complexos de-
mais para quase todos?

De modo algum!
Vamos examinar um dos casos mais complicados da terra...
  

Continua...
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Lições Rosacruzes 1


A PERPLEXIDADE 

Há em nós uma inquietude enquanto ser e enquanto humanidade.

Parece que o ser humano perdeu a noção da finalidade da vida.

O ser humano nunca está plenamente satisfeito, mas não sabe o que pode satisfazer sua sede, e assim não percebe que a própria insatisfação pode ser injusta e desumanizadora.

A maioria confia num pretenso conhecimento, uma falsa e passageira segurança. 

Outros esperam mudanças e progetam para fora uma transformação a nível de país e até do mundo, ou querem influenciar de alguma forma a situação geral.

Outros ainda dedicam seus esforços e preocupações em reclamações, protestos sempre renovados.

Não querem aceitar a vida com o que ela tem a oferecer, querem viver, mas outra vida, que só existe na imaginação, criada pelo desejo.

Os primeiros fantasiam um mundo que está sob seu domínio e pensam que controlam situações quando sequer controlam a si mesmos.

Os segundos simplesmente queremque o mundo os satisfaça ou desejam mudar o mundo, segundo seu interior, e não percebem que não conseguem sequer alterar seu interior.

E estes, terceiros, só culpam os outros pelo seu estado indesejado, revoltados e insatisfeitos, apenas querem destruir tudo com suas revoluções, tomar o que não é seu e se vingar do que supõem que lhes fizeram.

O que somos? Qual o verdadeiro significado da existência? De onde viemos, para onde vamos, por que estamos aqui?

Simplesmente se tornou fora de moda este tipo de questões.

E se ao menos alguém, algum dia dia, em algum lugar, teve acesso a este conhecimento, ele já se perdeu, ou permanece oculto, ou esquecido.

Muitos, muito tarde, são os que vêem suas certezas esvairem-se. 

Outros ansiosos por uma vida de paz, harmonia; uma vida sem temor, sem violência, sem corrupção, se entregam justamente ao medo e à desconfiança e esta insegurança e medo do que o futuro os reserva, os tira do anseio genuíno levando-os para uma vida de ansiedade.

Outros, perplexos, se perguntam porque a vida é assim e porque veio parar em tal estado de coisas.

O surgimento e ressurgimento do movimento rosacruz ao longo das épocas é uma convocação para todos aqueles que sentem uma saudade do paraíso sem saber de onde vem isso, aqueles que sentem -se estranhos ou não se adaptam às estranhezas desta ordem caída, aqueles que querem a verdade seja ela qual for e não mais confortáveis ilusões, aqueles que querem descobrir o real propósito da existência e de sua própria existência, aqueles querem descobrir como vieram parar aqui e porque e como recordar e retornar à natureza original e  eterna.

Séculos atrás os iniciadores desse movimento chamaram a atenção do ser humano para a base de todo conhecimento real, para a razão e para a finalidade da vida e para um processo de transformação que possibilitaria a este ser tomar  consciência de outras realidades e da realidade suprema por trás das estruturas dos fenômenos, das coisas, dos seres e do conhecimento. Esta ciência, este processo foi chamado arte real, Grande Obra, ou a alquimia espiritual dos rosacruzes.

Este conhecimento, na verdade, trata em primeiro lugar, não de novos conhecimentos, mas de uma nova maneira de conhecer, de ver e de viver; pois trata do despertar e desenvolver daquilo que conhece em nós, que toma ciência, que toma consciência de todo conhecimento, inclusive de si mesma, o próprio conhecedor em nós, e que, afinal, é identificada como nossa realidade eterna, a consciência.

Este conhecimento universal original e eterno é também o mesmo que nos possibilita recordar nossa verdadeira realidade, e nos leva por uma nova experiência de vida e realidade, um caminho para processar uma nova vida, o verdadeiro viver em espírito e verdade.

Frati R.C.


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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Indicação do Caminho para o Reino do Céu - parte 1

Do livro

Indicação do Caminho para o Reino do Céu

Santo Inocêncio, Bispo do Alasca
Traduzido por Noviça Vasilisa (Lesna)/ Natalia J. Martynenko

 

Os Benefícios que Nos Concedeu

Nosso Senhor Jesus Cristo

Para avaliar os bens concedidos por nosso Senhor Jesus Cristo, lembremos as bênçãos que tinha o primeiro homem, Adão, antes de ter pecado e as desgraças que ele teve que sofrer em conseqüência do pecado.

O primeiro homem, tendo sido criado pela imagem e conforme a semelhança do seu Criador, tinha a mais vital e intima relação com Ele, e por isso desfrutava de uma total felicidade. Sendo imortal, Deus concedeu a Adão essa imortalidade; sendo Todo-puro Deus fez Adão puro e sem pecado; sendo eternamente feliz, Deus criou Adão feliz e essa felicidade ou beatitude deveria aumentar a cada dia.

Como nos diz o livro de Gênesis, Adão vivia num maravilhoso jardim (chamado Eden ou paraíso), plantado por Deus. Aí ele desfrutava de todas as bênçãos da vida, não conhecia doenças nem sofrimento e não tinha medo de ninguém, todos os animais lhe obedeciam como ao seu mestre. Adão não sentia frio nem calor e, quando trabalhava, tratando das plantas do paraíso, fazia isso com prazer. A sua alma tinha consciência da presença de Deus e de amor a Ele, ele estava sempre tranqüilo e feliz, não conhecia desgraças nem preocupações. Todos os seus desejos eram puros e íntegros. A sua memória, mente e todas as outras capacidades de sua alma eram perfeitas. Sendo inocente e puro ele permanecia sempre com Deus e conversava com Ele como com o seu próprio Pai, e Deus amava-o como a seu próprio filho. Resumindo, Adão estava no paraíso e o paraíso estava dentro de Adão.

Se Adão não tivesse pecado, ele continuaria santificado para sempre, e os seus descendentes teriam desfrutado a felicidade. Foi para isso que o Senhor criou o homem. Porém dando ouvidos ao tentador-diabo, Adão transgrediu a lei do Criador, e provou do fruto proibido. Quando Adão pecou, apareceu-lhe Deus, mas ele em vez de se arrepender e prometer obediência, colocou a culpa na sua mulher. A mulher colocou a culpa na serpente. Mas o pior não era a transgressão da lei, mas sim o fato de que o pecado afetou profundamente a natureza humana. Em conseqüência disso não se podia manter mais a anterior comunicação vital com o Criador e juntamente com isso desapareceu a felicidade. Perdendo o paraíso que tinha em si, Adão não merecia mais o paraíso que o rodeava e por isso foi expulso dele.

Depois do pecado, a alma de Adão escureceu, os seus pensamentos e desejos ficaram confusos, sua memória e imaginação começaram a nublar. Em vez de sentir alegria e paz na alma ele começou a sentir tristeza, preocupações e outros sentimentos desagradáveis. Ele teve que conhecer o trabalho duro, a pobreza, a fome e a sede, e depois de muitos anos de dificuldades insuperadas a idade e a doença começou a oprimi-lo e a morte se aproximou. Mas o pior de tudo é que o perpetuador de todo o mal, através do pecado tornou-se hábil de influenciar Adão e afasta-lo de Deus.

Os elementos da natureza: o ar, o fogo, e os outros, que serviam anteriormente a Adão como meios para a sua satisfação, tornaram-se hostis. Adão e os seus descendentes começaram a sofrer de frio, de calor, da mudança dos ventos e do mau tempo. Os animais tornaram-se ferozes com os homens e começaram a olhar para eles como para os seus inimigos ou presas. Os descendentes de Adão começaram também a sofrer de doenças que com o tempo se tornavam mais numerosas e mais severas. As pessoas esqueceram-se de que eram próximas e começaram a lutar entre si, odiar, mentir, atacar, martirizar e a matar uns aos outros. Por fim, depois de muito trabalho e tribulações, deveriam morrer e sendo pecadoras, deveriam ir para o inferno e aí sofrer eternamente.

Nenhuma pessoa, nem mesmo a mais genial e poderosa, nem a humanidade toda junta, poderia, nem pode restabelecer o que Adão perdeu quando pecou no Eden. O que seria de nós e de toda a humanidade se pela Sua misericórdia Jesus Cristo não tivesse vindo para nos salvar? O nosso Pai Celeste que tem piedade de nós e ama-nos muito mais do que somos capazes de amar a nós próprios, mandou-nos o Seu Filho Jesus Cristo para nos livrar do poder do diabo e nos guiar ao Reino do Céu.

Com o Seu ensinamento Jesus Cristo dispersou a escuridão da ignorância e das ilusões iluminando todo o mundo com a luz do Evangelho. Agora quem quiser pode saber a vontade de Deus e o caminho para o Reino do Céu. Pelo seu modo de vida, Cristo nos mostrou como viver para obter a Salvação. E com o Seu mais puro sangue lavou os nossos pecados, livrando-nos da escravatura do diabo e das paixões e nos tornou filhos de Deus. O martírio que nos esperava pela transgressão da lei de Deus, Ele suportou por nós e com a Sua morte livrou-nos da morte eterna.

Jesus Cristo com a Sua ressurreição destruiu o inferno, tirando a satanás do poder e, vencendo a morte abriu para todos as portas do paraíso. Por isso a partir desse momento a morte deixou de ser algo trágico, pelo contrário, para as pessoas que têm fé a morte passou a ser uma passagem de uma vida de vaidades e tristeza para uma vida de luz e felicidade. Com a Sua ascensão aos céus, Jesus Cristo glorificou a natureza humana concedendo-lhe a imortalidade. É impossível descrever todos os bens que Ele nos preparou, podemos apenas dizer que quem seguir os Seus mandamentos será digno de viver no paraíso, com os anjos, os santos e os justos e de ver Deus. Sentirá uma pura alegria, sem preocupações, sem cansaço e nem tristeza.

Esses bens não são dados apenas a alguns escolhidos mas sim a todos que os queiram receber. O caminho para a salvação foi indicado, organizado, limpo e nivelado o melhor possível. Mais que isso, Jesus Cristo ajuda-nos durante o caminho, podemos até dizer que Ele nos leva pela mão. A única coisa que nos resta fazer, é entregarmo-nos à Sua vontade sem nos opormos. Vejam como nos ama Jesus Cristo e que grandes benefícios nos dá! Imaginem agora Jesus aparecendo na nossa frente e nos perguntando: "Meus filhos, será que vocês Me amam por tudo que fiz por vós, e será que vocês dão valor aos bens que Eu vos dou?" Quem entre nós não lhe responderia: "Sim, meu Deus eu Te amo e Te agradeço!" Por isso, se realmente amamos Jesus Cristo, se isso não é só da boca para fora, devemos fazer o que Ele nos ordena. Porque quando uma pessoa ama realmente o seu benfeitor, demonstra a sua gratidão fazendo tudo o que lhe agrada.


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Espírito e Liberdade - 5 & 6 - Nikolai Berdiaev

 

V

A questão do critério da verdade, do princípio que sanciona o conhecimento da verdade, da autoridade na fé, não é uma questão espiritual. Essa questão, característica do pensamento reflexivo próprio ao conhecimento religioso e científico, nasce no ser natural e no homem psíquico, e por sua causa.

O Desdobramento, a oposição, não são elementos da vida espiritual. A alma pode se considerar como sendo oposta ao objeto, e ela pode se interrogar sobre o critério de seu conhecimento. Mas nenhum objeto se opõe ao espírito, e assim a questão do critério não se coloca. Somente um objeto que seja estranho e impenetrável pode provocar a questão do critério de seu conhecimento.

Na vida espiritual, não existe objeto do conhecimento, nem objeto de fé, porque não existe posse, aproximação interior, parentesco com o objeto, absorção desse objeto pela profundidade.

O critério da verdade no espírito é a manifestação mesma do espírito, a contemplação intuitiva no espírito dessa verdade, como o é da própria realidade, da própria vida. A verdade, na vida espiritual, não é nem o reflexo, nem a expressão de uma realidade qualquer, ela é a realidade, o espírito em sua vida interior. Na vida espiritual, não existe nem objeto, nem sujeito que reflita esse objeto, no sentido gnosiológico do termo.

Na vida espiritual tudo se resume a ela mesma, tudo se identifica com ela. Nela não existe ideia ou sentimento de Deus, mas a revelação do próprio Deus, a manifestação do divino. É por isso que na vida espiritual não existe a alma isolada, um sujeito dividido. A experiência espiritual é precisamente a saída de um estado no qual se opõem por toda parte objetos “extrínsecos”. A verdade na vida espiritual é a própria vida. Quem conhece a verdade se torna a verdade em si:

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida [8]”. Já não é uma verdade abstrata, não é uma relação. A Verdade é também o caminho e a vida, pois para ela não se trata de autoridade e de critérios exteriores, e ela não exige nenhuma garantia. A verdade se revela no caminho e na vida.

Na vida espiritual descobrimos que o conhecimento é um acontecimento interior, uma iluminação da existência e da própria vida. A existência não se opõe ao conhecimento como se fosse um objeto, mas na própria existência nasce a luz que ilumina suas trevas. No mundo natural, nascido da cisão e da divisão, o sujeito conhecedor é separado do objeto conhecido, ele é separado da existência. A qualidade da espiritualidade é obtida quando não existe mais divisibilidade, quando o sujeito conhecedor se encontra nas profundezas do ser. O homem espiritual vive nessa profundeza, e de seu conhecimento brota a luz.

É na vida espiritual que a Verdade em si pode ser obtida; ela não pode ser percebida nem conhecida de fora. A reflexão é inteiramente um apanágio do mundo objetivo; ela busca, penosamente, os critérios da verdade fora dessa mesma verdade, de sua possessão, fora de uma vida na verdade. Ora, fora dessa verdade, num plano que seria inferior a ela, é impossível encontrar seu critério. A Verdade em si mesma é seu único critério. É possível encontrarmos o critério para nossa fé em Deus e para nosso conhecimento de Deus? Essa questão não pode ser colocada senão por um homem psíquico. O critério de nossa fé e de nosso conhecimento não pode ser encontrado fora de Deus, de Sua manifestação em nós, de nossas relações com Ele; esse critério não pode existir no mundo natural inferior. Quando reclamamos um critério de autoridade para nos convencer da existência de Deus e para nosso discernimento sobre o que é divino no mundo, acabamos por buscar um apoio, uma sustentação, não no próprio Deus, nem na realidade divina, mas na realidade natural inferior, no mundo exterior. Dessa forma, o homem se vê oprimido pelo mundo natural, e o homem espiritual sofre o jugo do homem natural.

O “autoritarismo” na vida religiosa consiste precisamente na busca, num mundo inferior, de critérios que deveriam servir a um mundo superior, de critérios do mundo espiritual extraídos do mundo natural, ou seja, ele é uma manifestação de maior confiança no exterior do que no interior, na opressão do mundo natural, mais do que na liberdade do mundo espiritual. A tese da infalibilidade do Papa e a gnoseologia kantiana são, num certo sentido, fenômenos de mesma ordem: a procura da justificação e do critério fora da possessão em si da verdade. O “papocesarismo” e o “cesaropapismo” são manifestações extremas desse sufocamento do espírito pela natureza, e a busca de sinais visíveis do divino na realidade tangível, à qual se concede mais confiança do que à vida e à experiência espiritual. Assim é que o inferior se torna um critério para o superior e a Verdade passa a ser percebida, não pelo caminho e a vida, nem pela própria Verdade, mas pelo reflexo extrínseco da Verdade. mas no mundo espiritual, a Verdade – que é o próprio Deus – é a única autoridade, o único critério da Verdade, e o homem possui a Verdade pela vida nela, pela experiência que ele possui dela, por suas relações com ela.

No mundo espiritual, tudo se passa de outra maneira do que no mundo natural, mas esses dois mundos se confundem e se relacionam. O homem é um ser complexo, a um tempo espiritual, supranatural e psico-corporal, natural. O homem é o ponto de interseção entre dois mundos, o lugar onde eles se encontram, ele pertence a duas ordens diferentes. Nisso reside a dificuldade e a complexidade da vida humana. Existem dois homens, uma espiritual e um natural. O mesmo homem é espiritual e natural. O mundo espiritual se revela no homem psíquico natural como sua modalidade particular, mas o homem natural não desaparece. É por isso que a vida espiritual não aparece no homem em toda sua pureza. Não é dado ao homem se elevar facilmente acima do ser natural e renunciar a ele. o caminho que conduz à vida espiritual é um caminho árduo, e nenhum homem pode se considerar como sendo unicamente espiritual. Todo homem está ligado organicamente ao estado de todo o universo, e todo homem possui seus deveres para com esse mundo natural. Considerar-se orgulhosamente como sendo unicamente espiritual, a exemplo dos gnósticos, é um erro perante Deus. O homem deve trabalhar pela iluminação e a espiritualização, não apenas com sua alma e com seu corpo, mas com as almas e corpos de todo o universo. O espiritual não deve se afastar do psíquico e do corporal, mas deve iluminá-los e espiritualizá-los. É por isso que o Cristianismo não pôde ser exclusivamente espiritual, pois ele tinha que ser também psíquico. É aí que residia a grande Verdade da Igreja que desce ao mundo pecador. O Cristianismo age no mundo natural, e é daí que provêm os obstáculos que ele encontrou ao longo de sua história. A correlação entre o espiritual e o psíquico foi muitas vezes incompreendida na história do Cristianismo e a verdade cristã foi deformada pelo mundo natural. Mas essa fraqueza é própria a toda atividade no mundo.

Nos sistemas teológicos não costumamos encontrar oposição entre natureza e espírito, mas uma oposição entre natureza e graça, entre o natural e o sobrenatural. Aí o espírito não possui propriedades independentes; ou bem ele é incorporado à natureza, e pouco se distingue da graça, vale dizer que ele é naturalizado; ou bem ele se refere ao ser divino e aparece então como sendo a graça do Espírito Santo. A naturalização aparece precisamente quando o divino e o espiritual são, de certa forma, suprimidos do mundo criado e o homem se vê, por causa disso, considerado como um ser exclusivamente natural, como uma mônada psicofísica. Ao homem são atribuídos uma alma e um corpo, mas o espírito é transferido para uma esfera transcendente, na qual ele não é senão o apanágio do ser divino. O espírito é rejeitado da profundidade do homem para um longínquo transcendente, para um mundo além. Somente o exterior do espírito é conferido ao homem. Somente pela graça ele pode se transformar num ser espiritual, e, por sua natureza, ele é exclusivamente psíquico e corporal. Afirma-se assim o dualismo extremo do Criador e da criação.

Do estado de graça e do homem natural. O homem e o mundo são essencial e primitivamente não-espirituais e não-divinos.

Tal doutrina teológica e metafísica, que recusa ao homem a imagem e a semelhança de Deus, jamais foi preponderante no Cristianismo. Os místicos cristãos sempre nos ensinaram o homem espiritual e a imanência do caminho espiritual. O sistema teológico metafísico, baseado sobre o dualismo extremos do Criador e da criação, da graça e da natureza, que rejeita a espiritualidade do homem, não é, dentro do Cristianismo, a única doutrina possível e definitiva que se refere ao ser. Não existe nela senão um estado de alma humano que corresponde a um dado momento do desenvolvimento espiritual do homem, que reflete um estado específico da experiência e da vida espirituais. A ausência de espírito e de vida espiritual não é um estado normal do homem, mas antes um estado de pecado, um enfraquecimento nele da imagem e da semelhança divinas.

Nesse estado, o espírito assiste o homem como um principio transcendente e extrínseco. A personalidade empírica, mergulhada no mundo natural, afastada de Deus, se vê condenada a uma existência dividida. O espírito é para ela, sempre, algo extrínseco, um “extrinsecismo”.

A consciência do pecado se transforma em consciência da transcendência do espírito. Temos às vezes a impressão de que a teologia oficial e os preceitos da Igreja recusam considerar o homem como um ser espiritual, que tentam imunizá-lo contra as tentações da espiritualidade. O Cristianismo da alma é reconhecido como mais verdadeiro e mais ortodoxo do que o Cristianismo do espírito. Ter consciência de si como uma ser espiritual provoca a acusação de orgulho; reconhecer-se como sendo indigno de possuir o espírito e a vida espiritual é qualificado como humildade. Forma-se sobre esse terreno um positivismo cristão original e um espírito burguês que respondem à consciência média, ao homem psíquico. A espiritualidade é considerada como o apanágio dos santos, dos ascetas, dos starsi. A espiritualidade dos homens, que não alcançaram os níveis elevados de perfeição e que não adquiriram a graça do Espírito Santo, desperta sempre uma suspeita, pois imagina-se que ela não provém de Deus. Assim, desconfia-se de toda vida espiritual que não caiba dentro da concepção da Igreja relativa à aquisição dos dons do Espírito Santo. O espírito é o Espírito Santo, a Terceira Hipóstase da Santa Trindade, não existe outro Espírito e não deve, nem pode haver. Nenhum Espírito existe no homem, a consciência de ter em si o Espírito é vista como um orgulho, uma falta de humildade; a imersão na vida psíquica e corporal é considerada mais piedosa e mais humilde. Para os teólogos e os dignitários da Igreja, a vida espiritual superior era frequentemente vista com mais suspeita do que os pecados da vida psíquica e corporal. Estamos aqui em presença de um problema muito perturbador. A Igreja perdoava os pecados da carne, era infinitamente indulgente para com as fraquezas da alma, mas manifestava o mais implacável rigor quanto às tentações, as pretensões, aos voos do espírito. Foi isso que provocou sua intransigência contra os gnósticos, contra as correntes teosóficas dentro do Cristianismo, sua condenação dos místicos cristãos, sua desconfiança em relação aos criadores da cultura espiritual, aos filósofos, aos poetas, aos reformadores espirituais. Assim se afirmou um materialismo e um positivismo cristão original, e o Cristianismo foi proclamado como sendo a religião da alma, e não do espírito.

Tal foi o exoterismo cristão. Nos sistemas de teologia ele encontrou sua expressão estática nas doutrinas da graça e da natureza; na doutrina do espírito, como bem exclusivo da graça, e na do homem e do mundo, como apanágio exclusivo da natureza. Assim os mistérios religiosos da vida e a experiência se objetificaram, se simbolizaram exteriormente e se materializaram. A vida, a experiência, o caminho, o espírito, tudo foi transformado em substâncias, em verdades abstratas, em princípios de metafísica teológica. Deus e a vida divina passaram a ser representados como coisas inertes e estáticas; já não se via no Cristianismo o mistério da vida espiritual. Minha própria vida, a essência de minha vida espiritual se exteriorizou como uma substância fixa, como um ser objetivo.

Nessa desconfiança que a Igreja manifestava em relação ao espírito e a vida espiritual, havia uma verdade essencial: o orgulho e o contentamento de si são, de fato, pecados hostis à verdade de Cristo. Existe uma pseudoespiritualidade sem obtenção real do espírito. Nós a encontramos frequentemente nas correntes teosóficas contemporâneas. Existe uma pseudomística, um conhecimento espiritual fictício. Existe uma pretensa espiritualidade, que não foi purificada, que foi perturbada e viciada pelo mundo natural. É essa espiritualidade, não purificada ainda de sua demonolatria, que existia entre os gnósticos. Existe uma mística na qual os estados psíquicos e mesmo carnais são considerados como espirituais. É preciso testar os espíritos, pois não podemos dar fé a todo espirito. Devemos exigir mais do homem espiritual do que do psíquico. A espiritualidade não pode pretender nada, ela impõe deveres. Existem regiões da vida espiritual que devem, durante um certo tempo, permanecer fechadas para nós, porque são inacessíveis ao homem psíquico. Nada é mais lamentável do que pretender uma falsa elevação, uma espiritualidade contínua, pretensão essa que se faz acompanhar pelo desprezo pelo caminho simplesmente psíquico e pelos homens psíquicos. A Igreja é santa em sua prescrição de
simplicidade e de humildade. Um simples gesto espiritual não prova ainda a existência de uma vida espiritual. Nas práticas da Igreja existia uma verdade essencial, mas um sistema teológico que nega a originalidade qualitativa da vida espiritual e de sua inerência ao homem, não pode ter pretensões à verdade absoluta e contestável; ele é exotérico e pode ser derrotado. A vida espiritual é a vitória sobre o pecado. A submissão da natureza pecadora do homem a uma ontologia imóvel é uma aberração da consciência. O homem se torna digno da vida espiritual na medida em que ele se comunica efetivamente com ela.

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VI

Todos os místicos nos ensinaram o novo nascimento espiritual. O primeiro é o nascimento natural na posteridade do primeiro Adão, ancestral da humanidade natural, um nascimento ao mesmo tempo na divisibilidade e na secessão, na necessidade e na filiação genérica. O segundo é o nascimento espiritual, na geração do novo Adão, Chefe da humanidade espiritual, nascimento a um tempo na unidade e na liberdade; ele é a vitória sobre a necessidade material e genérica, o nascimento em Cristo para uma vida nova. No primeiro nascimento tudo é vivido exteriormente, no segundo tudo é vivido interior e profundamente. O segundo nascimento espiritual, em sua pureza qualitativa, é conhecido dos místicos; ele foi descrito por eles, que nos traçaram o caminho que para aí conduz. E o renascimento em Cristo é acessível a todo cristão, e as vias da vida espiritual lhe são abertas.


O Cristianismo é a religião do espírito, a religião do novo nascimento. “Se um homem não nasce de novo, ele não pode ver o Reino de Deus [9]”. Assim é que todo cristão deve nascer de novo. “O vento sopra onde quer, e se ouve o seu ruído; mas ninguém sabe de onde vem, para onde vai. Assim também acontece com o homem nascido do Espírito [10]”. “Mas vem a hora, e é agora, em

que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espirito e verdade; pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e é preciso que aqueles o adoram o façam em espírito e verdade [11]”. E o apóstolo Paulo diz: “E, assim como todos morrem em Adão, todos reviverão em Cristo [12]”. “Se vocês forem conduzidos pelo Espírito, não estarão sob a lei [13]”. Mas a revelação cristã da vida espiritual, do novo nascimento, da adoração do Pai em espírito e verdade, age na humanidade natural, na geração do primeiro Adão, no homem médio; da mesma forma ela se reveste das formas de um Cristianismo que é ao mesmo tempo espiritual e psíquico.


O Cristianismo, religião que não é desse mundo, sofre e padece humilhação no mundo, e, em nome da massa da humanidade, a vida espiritual se simboliza e deixa de se realizar. O Cristianismo, religião de uma verdade que não é daqui de baixo, penetra no mundo em nome de sua salvação, correndo eternamente o risco de ver o espirito se enfraquecer e se extinguir. Aí reside seu drama e a origem de seu sucesso, de sua atividade na história, e de seu insucesso na vida histórica. O Cristianismo deve descer ao mundo natural, ao mesmo tempo em que permanece sendo uma verdade que não é desse mundo, uma verdade de espírito e de vida espiritual. Toda a tragédia da humanidade espiritual reside nisso. O espírito não é do “mundo”, o espírito é precisamente aquilo que “não é desse mundo”; viver em espírito, alcançar a vida espiritual, não equivale a “amar o mundo” e tudo o que é do “mundo”. Mas o espírito é o “inverso” no mundo, ele se separa dele e volta a descer sobre ele, ele se simboliza no mundo. O mundo é o símbolo do que se passa no espírito, o reflexo do abandono de Deus que se realiza no espírito.


Viver no mundo condena todos os homens a partilhar de um destino comum, os associa no pecado que subsiste mesmo no homem espiritual, os coloca na impossibilidade de se livrar de seu destino. Existe uma unidade no processo universal, uma unidade dos destinos humanos. “Não amem o mundo, nem as coisas que são do mundo. Se alguém ama o mundo, o amor de meu Pai não estará nele [14]”. Assim fala o Apóstolo João, que diz também: “Quem não ama seu irmão permanece na morte [15]”. “Quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor [16]”. Aqui encontramos toda a difícil antinomia do Cristianismo. O amor para com nosso irmão e não o amor apenas por nós mesmos nos obriga a viver no mundo, a partilhar do destino desse irmão. O amor por esse irmão pode nos reduzir a escravidão, à submissão do espírito ao mundo. A Cristandade viveu essa antinomia trágica, que não possui em si uma saída fácil e simples. Tal é o destino da humanidade, que a condena à ação recíproca, à atração e à repulsão do espírito e do “mundo”, da humanidade espiritual e da humanidade natural.


A compreensão espiritual e mística do Cristianismo é mais verdadeira e mais autenticamente real do que sua compreensão psíquica e objetiva, que é simbolizada pelo plano natural e histórico. A profundidade íntima do Cristianismo, os mistérios da vida espiritual, se revelam à mística cristã.


Essa profundidade permanece oculta aos sistemas de teologia, à consciência cristã racionalista, que rejeitam os mistérios da vida divina ou os concebem por analogia com a vida natural. O Cristianismo é a revelação do mistério da vida espiritual: nele tudo é misterioso, a profundidade da existência aí se revela enquanto mistério divino; nele tudo é vida, tudo é tragédia vital.


O mistério da Redenção, do Gólgota, é um mistério interior do espírito, ele se realiza nas profundezas secretas do ser. O Gólgota é um momento interior da vida e do desenvolvimento espiritual, a passagem de toda a vida pela crucificação, pelo sacrifício. Cristo nasce na profundidade do espírito, ele percorre seu caminho de vida, morre sobre a Cruz pelos pecados do mundo e ressuscita. Eis o mistério interior do espírito. Ele se revela na experiência espiritual, todo homem nascido do espírito o conhece, ele é pintado pelos místicos como sendo um caminho de vida interior. Cristo deve se revelar na vida interior do espírito, antes de se revelar no mundo exterior, natural e histórico. Sem a aceitação interior e espiritual de Cristo, as verdades descritas no Evangelho permanecem fatos ininteligíveis do mundo empírico exterior. Mas o mistério cristão do espírito se objetiva, se exterioriza no mundo natural, se simboliza na história, Cristo nasceu, morreu e ressuscitou não apenas na profundidade do espírito, mas no mundo natural histórico. O nascimento de Cristo, sua vida, sua morte sobre a Cruz e sua ressurreição são fatos autênticos do mundo natural. Aquilo que nos é dito no Evangelho aconteceu de fato na história, no espaço e no tempo. Mas a realidade daquilo que se realiza na história, no espaço e no tempo é aqui a mesma que toda realidade do mundo natural, ou seja, uma realidade simbólica que reflete os eventos do mundo espiritual.


Não devemos entender com isso que os eventos evangélicos não passam de símbolos, enquanto que os demais fatos são realidades atestadas pela ciência histórica. Mas todos os eventos da história que têm lugar no mundo natural objetivo, não passam de realidades simbólicas, reflexos do mundo espiritual. As vidas de Alexandre da Macedônia ou de Napoleão, a emigração dos povos e a Revolução Francesa não são outra coisa que realidades simbólicas, e não oferecem mais do que um caráter reflexo.


Mas a vida de Cristo, que se revela no Evangelho, simboliza e reflete acontecimentos do mundo espiritual, que são de uma importância, de uma unidade e de um valor central infinitamente maiores do que todos os outros acontecimentos da história universal. Esses fatos evocam a própria essência da vida espiritual, seu mistério inicial, seu significado divino. Poderíamos dizer que a história evangélica é uma meta-história, que ela é mitológica no sentido em que o é a história universal, vale dizer, no sentido em que o mistério interior do espírito se reflete simbolicamente no plano objetivo e natural.


Uma concepção desse gênero nada tem em comum com o docetismo, que não reconhece a

realidade da vida humana de Cristo, e para o qual seus sofrimentos e sua morte são foram mais do que aparentes. O docetismo não se liberta da concepção naturalista do Cristianismo, mas introduz nela um espiritualismo fictício que empobrece e simplifica a plenitude do mistério da vida espiritual. Para o docetismo e o monofisismo, a natureza espiritual e divina desfrutam de uma realidade no sentido naturalista e objetivo da palavra, mas a vida da carne e a natureza humana não passam de aparência e ilusão. Mas nós afirmamos que a vida da carne nesse mundo possui uma autenticidade simbólica, e que o homem é tão real quanto Deus, não apenas no reflexo simbólico, como também no mundo espiritual. Todas as heresias do docetismo e do monofisismo sustentam a oposição do espírito e da carne, enquanto que essa oposição está ligada a uma naturalização e a uma objetivação do espírito.


Em realidade a carne do mundo é integralmente absorvida pelo espírito e reflete de modo simbólico a vida do espirito. A concepção espiritual do Cristianismo, enquanto mistério interior da vida, não rejeita nem elimina a concepção física, objetivada do Cristianismo, mas dá a ela um sentido interior, ilumina-a e a penetra em maior profundidade. O esotérico não rejeita nem elimina o exotérico, não luta contra ele, mas aprofunda-o. o Cristianismo esotérico, místico, oculto, não nega o Cristianismo exotérico, objetivado, exteriorizado; ele não aspira senão a percebê-lo mais profundamente, e a iluminar o “exterior” pelo “interior”; ele reconhece os graus hierárquicos, mesmo os graus mais baixos da objetificação, que refletem sempre as realidades autênticas da vida espiritual. A “carne” do Cristianismo exotérico não é menos real do que o espírito desse Cristianismo, e a “carne” e o “espírito” dessa consciência cristã refletem simbolicamente e na mesma medida as realidades autênticas da vida espiritual, do mistério divino da vida. O que acontece no mundo espiritual é de todos os tempos, de todo o espaço, mas se reflete simbolicamente no tempo e no espaço, na matéria. É por essa razão que na história do Cristianismo o material e o carnal adquirem um significado sagrado. O significado sagrado é precisamente o significado simbólico. A carne santa existe enquanto carne simbólica, mas ela não é a matéria, a realidade substancial no sentido do realismo simplista.


Um Cristianismo espiritual, místico, é o mais distante da atitude dos iconoclastas, que negam o reflexo simbólico do mundo espiritual no mundo natural; um Cristianismo profundo, místico, entrevê nos objetos materiais o símbolo do mundo espiritual e está em perfeito acordo com o que afirma, a respeito disso, a consciência da Igreja. Todo o culto cristão, com sua “carne”, é o reflexo autêntico, real e simbólico do mistério da vida espiritual e não pode ser rejeitado pelo Cristianismo.


Existe um certo tipo de Cristianismo “espiritual”, nascido no terreno do Protestantismo (por exemplo, em Schleiermacher), que ignora o simbolismo realista e não conhece mais do que um simbolismo idealista e psicológico, e que não contribui para a união, mas à desunião. Trata-se de um dos aspectos do Cristianismo naturalista que, opondo o “espírito” à “carne”, coloca-os sobre o mesmo plano. O verdadeiro Cristianismo do espírito conhece uma espiritualidade concreta, capaz de conter em si todos os graus hierárquicos das simbolizações e das encarnações, que lhes dá um sentido e os aprofunda, que não recusa nem nega nada. O espiritualismo que se convencionou chamar de Cristianismo “espiritual”, que gerou diversas seitas que trazem esse nome, não passa de um espiritualismo abstrato e monofisita, uma mutilação, uma amputação do Cristianismo, pois vive de negações e recusas.


Os místicos cristãos mais profundos, que se elevaram até o Cristianismo do espírito, jamais foram cristãos “espirituais”, no sentido limitado e sectário desse termo. Maître Eckart, um dos maiores místicos cristãos, que interpretou o Cristianismo como mistério do espírito, como uma via espiritual interior, permaneceu dominicano e católico fervoroso, reconhecendo todos os graus concretos da simbolização e das encarnações. A mística teve uma profunda influência sobre Lutero, que se manifestou igualmente nas seitas e em determinados movimentos do Cristianismo. O mais audacioso dos místicos alemães, Angelus Silesius, para quem o Cristianismo era evidentemente um mistério do espírito, que aspirava ao supra-divino, e a quem devemos as palavras: “Sem o homem, Deus não poderia existir nem por um momento”, era um católico fanático que jamais rompeu com o simbolismo e as encarnações do Cristianismo da Igreja.

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